Estudo revela que restos congelados de Ötzi abrigam micróbios ainda metabolicamente ativos

Restos de Ötzi o Homem do Gelo são examinados em laboratório. (Foto: newscientist.com)

Os restos congelados de Ötzi, o Homem do Gelo de 5.300 anos, não são apenas uma cápsula do tempo arqueológica, mas um ecossistema microbiano que pode ainda estar metabolicamente ativo. A descoberta, publicada na revista Microbiome, desafia a ideia de que a múmia mantida a -6 °C e 99% de umidade estaria biologicamente inerte após décadas de conservação.

Segundo reportagem do New Scientist, o pesquisador Frank Maixner, do Instituto de Estudos de Múmias da Eurac Research, em Bolzano, Itália, e sua equipe analisaram amostras de pele, tecidos internos e água de degelo coletadas em 1992, 2010 e 2019, comparando-as com solo e gelo do local da descoberta. A abordagem metagenômica revelou uma ampla gama de micróbios, desde bactérias intestinais anaeróbicas que provavelmente viveram dentro de Ötzi até leveduras que colonizaram a superfície após sua morte.

Entre as bactérias endógenas, destacam-se os gêneros Treponema e Kineothrix, cujo DNA acumulou danos ao longo do tempo, indicando uma origem antiga e compatível com a Idade do Cobre. Maixner observou que essa diversidade microbiana reflete a dieta variada dos humanos da época, muito mais rica do que a microbiota empobrecida das sociedades ocidentais modernas.

Além das bactérias intestinais, os pesquisadores encontraram Pseudomonas, microrganismos comuns em solo e água, cujo perfil de dano no DNA aponta para uma comunidade antiga oriunda do próprio glaciar. Esses micróbios teriam se infiltrado nos tecidos ao longo dos milênios, contribuindo para a formação de um ecossistema pós-morte complexo.

Na superfície externa da múmia, foram identificadas leveduras psicrófilas, como Glaciozyma, Phenoliferia, Goffeauzyma e Mrakia, adaptadas a temperaturas abaixo de zero. O aumento da abundância de Glaciozyma entre 2010 e 2019, associado a uma redução no dano do DNA, sugere que esse fungo pode estar se replicando ativamente nas condições de conservação do museu, a -6 °C. Embora algumas dessas leveduras possuam enzimas capazes de degradar proteínas e colágeno, os cientistas não detectaram sinais de deterioração nos tecidos.

Nikolay Oskolkov, da Universidade de Lund, na Suécia, considerou as evidências interessantes, mas alertou que mais dados são necessários para excluir artefatos experimentais. Damla Kaptan, da Universidade de Stavanger, na Noruega, enfatizou que apenas a detecção de RNA poderia confirmar que os genes estão de fato ativos, e não apenas em estado dormente.

A análise também revelou genes microbianos capazes de degradar fenol, uma substância tóxica utilizada nos anos 1990 para eliminar fungos que já estavam se formando na múmia recém-descoberta. Maixner acredita que esse tratamento pode ter enriquecido linhagens microbianas específicas, alterando a composição do ecossistema ao longo das décadas de conservação.

Diante desses resultados, o pesquisador recomenda vigilância genômica contínua, incluindo a busca por RNA e metabólitos produzidos pelos micróbios, para avaliar se a comunidade está despertando e ameaçando a preservação dos restos. Caso a atividade metabólica seja confirmada, os conservadores podem precisar reduzir ainda mais a temperatura ou a umidade para conter o crescimento microbiano e proteger esse patrimônio único da humanidade.

Com informações de NEWSCIENTIST.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.