Uma das redes de monitoramento oceânico mais ambiciosas já construídas será parcialmente desativada por ordem da administração do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, silenciando centenas de sensores que há mais de uma década alimentavam a ciência climática global com dados em tempo real. A primeira baixa será uma boia de pesquisa ancorada a 80 metros de profundidade no Pacífico, na costa do Oregon, cuja remoção está prevista para este mês.
O equipamento integra a Ocean Observatories Initiative, uma rede com mais de 900 sensores submarinos construída ao custo de US$ 386 milhões, que será em grande parte desmontada até 2027. a National Science Foundation anunciou que retirará instrumentos das águas do Oregon, Washington, Alasca, Carolina do Norte e Groenlândia.
Em comunicado oficial, a fundação classificou a medida como um redimensionamento alinhado a uma estratégia mais ágil para priorizar tecnologias emergentes e uma gestão inteligente do ciclo de vida da infraestrutura de pesquisa. O projeto foi concebido para operar por 25 a 30 anos e já produziu dados que embasaram mais de 500 publicações científicas sobre circulação oceânica, ecossistemas marinhos e mudanças climáticas. A decisão ocorre em um momento crítico, quando um novo evento El Niño, fenômeno que intensifica ondas de calor marinho e altera padrões climáticos globais, está previsto para atingir a costa do Pacífico.
O professor Ed Dever, da Universidade Estadual do Oregon, que liderou as operações da iniciativa no noroeste do Pacífico, classificou o desmonte como uma perda paralisante de informação. Dever explicou que satélites captam dados de superfície, como temperatura e distribuição de clorofila, mas as informações abaixo da linha d’água — incluindo zonas de baixo oxigênio — dependem exclusivamente dos sensores que agora serão removidos. Construída ao longo de mais de uma década de planejamento comunitário e inaugurada em 2015, a rede operava com um orçamento anual de aproximadamente US$ 48 milhões, valor que não inclui os custos dos navios de pesquisa.
Antes dos cortes iniciados no ano passado, entre 60 e 70 profissionais trabalhavam diretamente no projeto, distribuídos entre a Woods Hole Oceanographic Institution, a Universidade de Washington e a Universidade Estadual do Oregon, além de parceiros como Rutgers e Scripps. O que restará será um cabo submarino administrado pela Universidade de Washington, que continuará fornecendo dados sobre atividade vulcânica e sísmica na costa do Pacífico noroeste. Dever observou que bastariam três décadas contínuas de dados para detectar sinais climáticos significativos, e que o projeto havia acabado de completar os primeiros dez anos de registros.
O que está acontecendo com a Ocean Observatories Initiative não é um caso isolado, afirmou o professor. Esta é apenas uma entre várias instalações científicas que estão sendo desmanteladas. Parece marcar o fim de um compromisso federal com a pesquisa científica básica — um compromisso que serviu bem ao país nas últimas sete décadas.