A investigação sobre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acaba de revelar um dos episódios mais extravagantes já registrados no escândalo que abalou Brasília, o mercado financeiro e a política nacional.
Documentos apreendidos pela Polícia Federal apontam que Vorcaro gastou pelo menos R$ 11,9 milhões, em valores da época, para bancar uma série de eventos de luxo destinados a autoridades e políticos brasileiros durante uma temporada em Nova York, em maio de 2024. Os gastos incluíram festas privadas, jantares, degustações de uísque, charutos, hospedagens e apresentações contratadas especialmente para os convidados.
Segundo documentos enviados ao ministro do STF André Mendonça, os valores aparecem em planilhas encontradas pela PF durante as investigações da Operação Compliance Zero, que apura as relações entre Vorcaro, agentes públicos e possíveis benefícios concedidos pelo Banco Master.
O episódio mais comentado pelos investigadores ficou conhecido como “Noite das Astronautas”.
De acordo com a documentação analisada pela PF, uma das festas ocorreu em uma suíte presidencial em Manhattan. A confraternização teria contado com mulheres russas e ucranianas contratadas para apresentações temáticas, usando figurinos prateados que deram origem ao apelido do evento. Os registros descrevem despesas milionárias com artistas, produção, logística internacional, hospedagem, equipamentos de som e iluminação.
As planilhas indicam que apenas os eventos relacionados à festa e ao jantar ultrapassaram US$ 721 mil, o equivalente a aproximadamente R$ 3,7 milhões na cotação da época. Há ainda registros de pagamentos superiores a 526 mil euros para performances, equipe de gerenciamento e organização dos eventos.
Outro item que chamou atenção dos investigadores foi uma degustação exclusiva de uísques e charutos realizada no tradicional clube privado de Manhattan. Segundo a documentação analisada pela PF, o evento custou mais de US$ 1 milhão, algo próximo de R$ 5,3 milhões, incluindo bebidas premium, charutos e presentes entregues aos convidados.
Entre os nomes mencionados nas reportagens estão o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, o senador Ciro Nogueira e parlamentares que, à época, disputavam posições de destaque no Congresso Nacional.
A PF também identificou referências a um jantar realizado no famoso restaurante do chef turco conhecido como Salt Bae, um dos endereços mais caros de Nova York. Os investigadores analisam se esses gastos tinham apenas caráter social ou se faziam parte de uma estratégia mais ampla de influência política e aproximação institucional.
Os documentos mostram que a agenda de luxo não ficou restrita aos Estados Unidos.
Registros encontrados no celular de Vorcaro indicam gastos adicionais de aproximadamente US$ 640 mil em Londres, durante um fórum jurídico frequentado por autoridades brasileiras. Apenas uma degustação em um clube privado no bairro de Mayfair teria custado cerca de R$ 3,2 milhões.
As revelações ampliam o alcance do caso Master justamente no momento em que o escândalo já envolve investigações sobre relações com políticos, suspeitas de favorecimento, financiamento do filme Dark Horse, operações policiais e apurações conduzidas pela Polícia Federal, Ministério Público e Supremo Tribunal Federal.
Até o momento, a divulgação das planilhas não significa que os participantes dos eventos tenham cometido irregularidades. A investigação busca esclarecer a origem dos recursos, a finalidade dos gastos e se houve alguma contrapartida institucional ou política associada às despesas custeadas por Vorcaro.
Mas o novo material encontrado pela Polícia Federal acrescenta um ingrediente explosivo ao caso: a dimensão dos gastos.
Os quase R$ 12 milhões registrados nas planilhas revelam uma estrutura de relacionamento muito mais sofisticada e cara do que se imaginava inicialmente. E reforçam a principal pergunta que hoje orienta as investigações: qual era o verdadeiro objetivo por trás da rede de favores, eventos e benefícios financiados pelo ex-dono do Banco Master?