Reino Unido retoma laços estratégicos com a China em visita oficial

Yvette Cooper discursa na cerimônia de lançamento da parceria UK-China sobre envelhecimento saudável, em Beijing. (Foto: aljazeera.com)

A secretária de Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, iniciou uma visita oficial de três dias a Pequim, consolidando o degelo nas relações bilaterais. Cooper foi recebida pelo vice-presidente chinês Han Zheng no Grande Salão do Povo, onde defendeu diálogo com franqueza e respeito, apesar das divergências persistentes entre Londres e Beijing.

O movimento britânico reflete uma recomposição mais ampla do tabuleiro geopolítico global. De acordo com reportagem do portal Al Jazeera, líderes e autoridades dos Estados Unidos, Irlanda, Espanha, Alemanha, Canadá e Finlândia também viajaram à China este ano, em um contexto de instabilidade mundial, ruptura de cadeias de suprimentos e volatilidade nos mercados.

Cooper apelou diretamente à cooperação para enfrentar desafios globais como os conflitos na República Islâmica do Irã e na Ucrânia, além do surto de ebola na República Democrática do Congo. A chefe da diplomacia britânica sublinhou que ambos os países compartilham o interesse em uma ordem internacional baseada em regras, ainda que partam de posições distintas sobre o que essa ordem deve significar na prática.

O momento da reaproximação não é casual. Os Estados Unidos têm sido acusados de demolir a própria arquitetura internacional que ajudaram a erguer após a Segunda Guerra Mundial, enquanto a China se posiciona como potência estável e previsível. Para o Reino Unido, a imprevisibilidade de Washington foi o fator que inclinou a balança na direção de Beijing, em um momento em que a economia britânica patina e os choques globais de preços de energia castigam o país.

John Minnich, professor do Departamento de Relações Internacionais da London School of Economics, explicou à Al Jazeera que o Reino Unido é um caso atípico entre as grandes economias ocidentais, pois seus pontos fortes complementam, em vez de competir com, a China. Enquanto a Alemanha depende da manufatura de alto valor agregado, onde os chineses avançam com força, os britânicos concentram-se em serviços financeiros sofisticados, setor em que a China ainda demanda expertise externa.

A visita de Cooper inclui uma etapa em Shenzhen, polo tecnológico chinês, onde serão discutidos os vínculos comerciais e os desafios da inteligência artificial. O interesse britânico na tecnologia limpa chinesa é concreto: no início do ano, durante a viagem do primeiro-ministro Rishi Sunak a Beijing, a Octopus Energy, maior fornecedora de eletricidade do Reino Unido por participação de mercado, anunciou uma joint venture com a PCG Power para comercializar energia renovável no mercado chinês.

O acesso a equipamentos e inovação chinesa de baixo custo pode acelerar a transição energética britânica e reduzir os custos da descarbonização. Jing Gu, diretora do Centro de Potências Emergentes e Desenvolvimento Global do Instituto de Estudos de Desenvolvimento do Reino Unido, alerta que essa dependência não pode tornar-se passiva, mas reconhece que potências médias como o Reino Unido estão ganhando tempo para sustentar o crescimento, reequilibrar resiliências e manter canais diplomáticos abertos enquanto o cenário estratégico global permanece indefinido.

No plano bilateral, porém, as tensões não desapareceram por completo. A delegação britânica viajou com telefones descartáveis por precaução contra espionagem, e o governo Sunak enfrenta pressão interna pela aprovação da controversa mega-embaixada chinesa em Londres, que críticos apontam como possível centro de operações de inteligência. A secretária também deve levantar o caso do magnata da mídia e líder pró-democracia Jimmy Lai, cidadão britânico preso em Hong Kong, além das preocupações com o apoio chinês à Rússia na guerra da Ucrânia.

Steve Tsang, diretor do Instituto da China na School of Oriental and African Studies de Londres, resume o movimento com pragmatismo: o Reino Unido busca engajamento econômico, e a China quer aproveitar as fissuras entre os Estados Unidos e as democracias europeias, tudo a baixo custo e com concessões mínimas. A interdependência, porém, é de mão dupla — se os serviços financeiros ocidentais deixassem de estar disponíveis para a China, o impacto na economia chinesa seria severo.

O degelo anglo-chinês simboliza mais do que uma mera correção de rota bilateral. O movimento expõe os limites da estratégia de confrontação que marcou os anos anteriores e revela um Ocidente fragmentado, onde aliados históricos dos EUA já não disfarçam a necessidade de encontrar em Beijing um contrapeso à erosão da ordem internacional conduzida por Washington. A era glacial terminou, e o termômetro agora sobe rapidamente.

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