O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, tornou-se nas últimas semanas o retrato incômodo de um país que o establishment tenta desesperadamente descolar de sua imagem pública. Da ameaça explícita de vetar um acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã à humilhação televisionada de ativistas europeus da Flotilha Global Sumud, suas ações vêm provocando ondas de indignação internacional.
O ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa’ar, apressou-se a divulgar uma nota afirmando que Ben-Gvir não é a face de Israel, ecoando um sentimento fartamente repetido pela mídia local. No entanto, analistas e parlamentares israelenses ouvidos pela Al Jazeera sustentam precisamente o contrário: o ministro representa uma parcela crescente e cada vez mais dominante da sociedade israelense.
A deputada Aida Touma-Sliman, do partido de esquerda Hadash, desmontou a tese do outlier político com uma observação direta. Ele é estúpido, o que nos diz que não está agindo sozinho, afirmou a parlamentar, acrescentando que Ben-Gvir jamais conseguiria operar como opera sem a cumplicidade ativa de políticos e funcionários públicos que compartilham suas crenças.
Desde que assumiu o recém-criado cargo de ministro da Segurança Nacional em 2022, o líder do partido Poder Judeu exerce controle incontestado sobre as forças policiais e o sistema penitenciário israelense. Touma-Sliman foi taxativa ao apontar que bastaria um único policial ou diretor prisional recusar-se a politizar suas funções para que o esquema de poder paralelo desmoronasse, mas essa recusa jamais ocorreu.
A trajetória de Ben-Gvir é um inventário de extremismo documentado e condenações judiciais. Em 1995, aos 19 anos, foi filmado exibindo o ornamento do capô do carro do então primeiro-ministro Yitzhak Rabin, declarando às câmeras que chegariam até ele — Rabin foi assassinado semanas depois pelo ultranacionalista Yigal Amir.
Nascido em 1976 num subúrbio a oeste de Jerusalém, Ben-Gvir alega ter se radicalizado aos 14 anos durante a Primeira Intifada. Na juventude, apoiou abertamente o partido extremista Kach, fundado pelo rabino americano-israelense Meir Kahane e posteriormente banido por violar emendas constitucionais, antes de ser designado organização terrorista em 1994.
O massacre de dezenas de fiéis palestinos em Hebron, cometido por Baruch Goldstein — membro do Kach que agiu em nome da ideologia do partido — transformou-se numa referência pessoal para Ben-Gvir. Ele levou sua futura esposa ao túmulo do assassino no primeiro encontro, fantasiou-se de Goldstein no feriado judaico de Purim e manteve um retrato do criminoso em casa até 2021, quando consultores de campanha o aconselharam a removê-lo.
Indiciado 53 vezes, Ben-Gvir conseguiu que a maioria dos processos fosse arquivada, mas duas condenações por incitação ao racismo e apoio a organização terrorista ficaram registradas em 2007. Ainda assim, qualificou-se como advogado em 2012, desafiando a Ordem dos Advogados de Israel que tentara barrá-lo, e construiu carreira defendendo colonos extremistas e linha-dura nos territórios ocupados.
O deputado Ofer Cassif, que questionou judicialmente a elegibilidade de Ben-Gvir, ofereceu à Al Jazeera um retrato pessoal que contrasta fortemente com a persona afável que segmentos da mídia israelense projetam. Nunca vi Ben-Gvir rir ou fazer uma piada. Ele é um valentão, mas daquele tipo que se cala assim que o professor levanta a voz, relatou Cassif, lembrando que o ministro carrega condenações por apoiar terrorismo e ostentava a foto de Baruch Goldstein na parede.
Após o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, Ben-Gvir supervisionou um aumento vertiginoso na concessão de licenças de armas a colonos israelenses na Cisjordânia ocupada. A violência letal contra palestinos disparou desde então, confirmando as previsões mais sombrias de organizações de direitos humanos.
Em abril, a opinião pública internacional foi sacudida por imagens do ministro segurando uma garrafa de champanhe enquanto celebrava a aprovação de um projeto de lei que visa aplicar pena de morte a palestinos. Daniel Levy, ex-assessor do governo israelense, argumentou que as críticas ao vídeo da Flotilha Sumud em maio concentraram-se na performance midiática, não nos abusos reais sofridos pelos ativistas sob custódia israelense.
Levy sublinhou que ninguém questiona o que Israel efetivamente pratica em Gaza, na Cisjordânia ou no Líbano, apenas o estilo de um ministro em particular. As políticas, contudo, permanecem intactas, enquanto a base de Ben-Gvir se mantém sólida mesmo diante do desgaste internacional.
O pesquisador de opinião israelense Dahlia Scheindlin apontou que as posições políticas de Ben-Gvir raramente são mais extremas que as de muitos integrantes do partido governista Likud. Ele representa uma política populista de supremacia judaica de extrema direita, com um estilo teatral, provocador e circense familiar aos políticos nacionalistas-populistas ao redor do mundo, definiu Scheindlin.
O que o establishment israelense e seus aliados ocidentais tentam vender como exceção folclórica é, na realidade, a expressão mais transparente do consenso que sustenta a coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Itamar Ben-Gvir foi procurado para comentar os pontos levantados nesta reportagem, mas não respondeu até o fechamento da matéria.
Com informações de Al Jazeera.