A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas representa um grave erro estratégico que pode agravar o enfrentamento ao crime organizado no Brasil. O alerta é de Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Em entrevista à Carta Capital, o pesquisador detalhou os motivos que tornam a medida contraproducente para a segurança pública brasileira. O estudo revelou que o Brasil registrou 42.590 assassinatos em 2024, equivalente a 20,1 casos por 100 mil habitantes, o menor patamar da série histórica iniciada em 2014.
Apesar da melhora nos indicadores nacionais, o Nordeste permanece em situação preocupante, com altas expressivas nas taxas de homicídios no Ceará, Maranhão e Piauí entre 2019 e 2024. Cerqueira afirmou que a designação não foi motivada por questões de segurança pública, pois tende a agravar o enfrentamento ao crime organizado.
A classificação das facções como grupos terroristas transfere a ação do governo norte-americano da esfera policial para o controle militar, da CIA e do Pentágono. O pesquisador destacou que o Brasil mantém longa colaboração entre a Polícia Federal e agências como o FBI e a DEA, mas essa nova configuração altera profundamente a dinâmica.
Essa designação não tem relação com o combate ao crime organizado. É uma questão geopolítica, avaliou o coordenador do estudo. Cerqueira apontou ainda os riscos à soberania nacional, com possíveis ações militares ou operações da CIA em território brasileiro sem o controle das autoridades locais.
Há também impactos concretos sobre o sistema econômico, uma vez que as facções são organizações sofisticadas que lavam dinheiro e mantêm investimentos em empresas. Bancos podem sofrer sanções pela simples alegação de vínculo com esses grupos. A entrevista também abordou as razões do recrudescimento da violência no Nordeste, onde 17 dos 20 municípios mais violentos do país, entre aqueles com mais de 100 mil habitantes, estão localizados.
O pesquisador explicou que a transição demográfica mais lenta na região, combinada com políticas públicas de segurança menos amadurecidas, contribui para o cenário atual. Enquanto estados do Sudeste desenvolveram ações orientadas por resultados e baseadas em evidências científicas, muitos estados nordestinos seguiram caminhos opostos.
O caso da Bahia foi citado como emblemático, onde o uso exacerbado da violência policial potencializa o problema em vez de resolvê-lo. Cerqueira defendeu que segurança pública não é guerra, mas manutenção de direitos de cidadania, com foco em inteligência, análise qualificada de dados e mapeamento das redes criminosas.
As operações que funcionam não precisam disparar um tiro, afirmou, criticando ações teatrais que resultam em mortes sem resultados concretos. O fluxo internacional de capitais também tende a diminuir com a nova designação, prejudicando a economia brasileira de forma mais ampla. Para o coordenador, o governo dos EUA parece substituir a diplomacia pela força, mirando o papel estratégico do Brasil no setor de terras-raras.