Eduardo Bolsonaro sugere entregar Pix aos EUA em negociação e provoca indignação no Congresso

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro discursa em evento, com microfone à frente. (Foto: cartacapital.com.br)

A declaração do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugerindo que o Pix poderia entrar na mesa de negociação com o governo de Donald Trump para evitar novas tarifas gerou forte reação no campo progressista e reacendeu o debate sobre soberania nacional. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o parlamentar cassado comparou o sistema brasileiro ao Zelle, operado por instituições privadas nos Estados Unidos, e insinuou que a ferramenta pública poderia ser usada como moeda de troca.

Segundo reportagem da Carta Capital, Eduardo afirmou que os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos e que isso daria ao Brasil bons argumentos diante das ameaças tarifárias de Washington. A fala ocorre em meio à ofensiva comercial do governo Trump, que já sinalizou ter o Pix na mira de suas exigências contra o Brasil.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformou o Pix em uma das principais bandeiras de defesa da soberania brasileira e já declarou publicamente que não abrirá mão da ferramenta, criada e operada pelo Banco Central. A comparação feita por Eduardo Bolsonaro foi rechaçada imediatamente por ignorar uma diferença fundamental: enquanto o Pix é uma infraestrutura pública, gratuita e universal, o Zelle é controlado por bancos privados americanos, cobra taxas e não possui o mesmo alcance social nem integração com o sistema financeiro dos EUA.

A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra das Relações Institucionais do governo Lula, classificou a postura da família Bolsonaro como nojenta e acusou o ex-deputado de mentir ao equiparar os dois sistemas. O Pix é uma infraestrutura pública brasileira, criada e regulada pelo Banco Central do Brasil. Nunca foi de Bolsonaro, que nem sabia do que se tratava quando foi perguntado sobre o assunto, declarou a petista.

A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (PSB), pré-candidata ao Senado por São Paulo, também reagiu com um vídeo no qual defendeu o Pix como conquista dos brasileiros e acusou o clã Bolsonaro de articular para desmontar o modelo. Facilitou a vida de milhões de pessoas e fortaleceu os pequenos negócios em todo o País, afirmou Tebet, reforçando que defender a ferramenta é defender a inovação brasileira e a soberania nacional.

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) foi ainda mais direto ao vincular a iniciativa de Eduardo Bolsonaro aos interesses do governo dos Estados Unidos contra o Brasil. A família Bolsonaro e Trump querem tirar o Pix do Banco Central. Querem entregar para empresas norte-americanas, denunciou o parlamentar, ecoando a tese de que a ofensiva tarifária americana esconde um projeto de desmonte da infraestrutura financeira pública brasileira.

A sequência de críticas expõe o desconforto de setores da oposição com a defesa incondicional que Eduardo Bolsonaro faz dos interesses de Washington, mesmo quando isso significa abrir mão de instrumentos estratégicos de política pública nacional. O Pix movimenta hoje mais de 150 milhões de brasileiros mensalmente e é reconhecido internacionalmente como uma das mais bem-sucedidas inovações em pagamentos digitais do mundo, justamente por ser estatal, gratuito e integrado ao sistema financeiro do país.

O episódio escancara a contradição entre um projeto de soberania tecnológica e financeira, representado pelo Pix, e a submissão a interesses estrangeiros defendida por aliados do bolsonarismo. Enquanto o governo Lula insiste que a ferramenta não será negociada em hipótese alguma, a articulação de Eduardo Bolsonaro sinaliza que, para o clã político que já ocupou o Planalto, até mesmo as conquistas mais populares do Brasil podem ser sacrificadas em nome do alinhamento com os Estados Unidos.

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