O professor associado de Tecnologia da Informação da James Cook University, na Austrália, Roberto Dillon, publicou uma análise histórica no periódico New Media & Society que traça a evolução cultural do hacker. O estudo destaca como essa figura, antes marginal e incompreendida, se consolidou como um ícone heroico da era digital.
Segundo o pesquisador, vivemos em um mundo tecnológico perigoso e dependemos justamente de quem conhece as ameaças e o lado obscuro dos sistemas para nos ajudar a superá-los. O hacker encarna essa ambiguidade: alguém capaz de expor a corrupção e combater a opressão, mas também de aplicar golpes, invadir sistemas e interromper serviços.
A pesquisa de Dillon utilizou uma abordagem interdisciplinar de mídia dupla, analisando narrativas de filmes e séries impactantes como War Games, Matrix e Mr. Robot. Em paralelo, contrastou essas representações com a experiência direta de participação em jogos retrô e modernos baseados em hacking, como System 15,000 e HackerHub.
Sua formação como designer de jogos permitiu o uso de um arcabouço analítico voltado a compreender como a mecânica dos games engaja emocionalmente o público. O trabalho mostra de que forma cinema e videogames simultaneamente moldam e refletem as atitudes da sociedade em relação ao hacking.
A cultura hacker tem raízes nos anos 1950 e 1960, nascendo da insegurança em torno da mais antiga tecnologia de comunicação: o telefone. No entanto, Dillon situa o marco inicial de sua análise em 1983, com o filme War Games, época em que os primeiros computadores domésticos chegavam aos lares.
O clima de medo nuclear da Guerra Fria criou o ambiente perfeito para a emergência do estereótipo do hacker dividido: socialmente desajeitado, mas tecnicamente brilhante. O longa foi exibido para congressistas americanos e citado diretamente em audiências que resultaram no Computer Fraud and Abuse Act, lei que consolidou o vínculo entre o hacking juvenil e as ameaças reais à segurança nacional.
Já no fim dos anos 1990, Matrix reinventou o estereótipo ao apresentar Neo como o herói cyberpunk definitivo: um gênio marginal, desafiador e na vanguarda da sobrevivência humana. Dillon observa que o público anseia por heróis que não sejam apenas cavaleiros de armadura reluzente, mas figuras com um passado sombrio capazes de redenção e sacrifício pelo bem maior.
O salto para a complexidade contemporânea veio com Mr. Robot, série exibida entre 2015 e 2019. Ali, as habilidades técnicas de nível genial do protagonista Elliot Alderson se equilibram com profundos desafios de saúde mental, incluindo ansiedade social, depressão, abuso de substâncias e transtorno dissociativo de identidade.
Essas contradições refletem a natureza de dois gumes da tecnologia, em que hackers podem tanto expor abusos quanto enveredar pelo crime cibernético. Dillon sustenta que a figura do hacker veio para ficar, justamente porque a tecnologia sempre será passível de manipulação.
A íntegra do estudo está disponível no periódico acadêmico New Media & Society, conforme reportagem do phys.org que detalhou os achados da pesquisa conduzida na James Cook University. O trabalho oferece um mapa abrangente de como o imaginário coletivo transformou um introvertido desconfiado em um guardião ambíguo da segurança digital.