O Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania investiga o suposto desvio de R$ 108 milhões de um contrato de instalação de internet gratuita em São Paulo para financiar o filme Dark Horse, que contará a história do ex-presidente Jair Bolsonaro. A operação, deflagrada recentemente, cumpriu mandados de busca contra o Instituto Conhecer Brasil, ONG responsável pelo projeto, e sua representante Karina Ferreira Gama, também sócia da produtora Go Up Entertainment.
Segundo reportagem do Metrópoles, a suspeita é que parte dos recursos pagos pela Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação tenha sido usada irregularmente na produção cinematográfica. O Instituto Conhecer Brasil foi a única entidade a participar da licitação para fornecer 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito na periferia da capital, mas apenas 3,2 mil teriam sido efetivamente instalados.
A investigação também aponta superfaturamento. O contrato previa um custo mensal de R$ 1.800 por ponto de internet mantido — mais que o dobro do valor repassado à empresa subcontratada Ultra IP, que receberia R$ 712 por ponto, e quase seis vezes superior aos R$ 306 cobrados pela Prodam, empresa de tecnologia da própria prefeitura. Outros indícios incluem pagamento antecipado de R$ 26 milhões por serviços não prestados e uso de notas fiscais irregulares para justificar despesas de R$ 4,7 milhões.
No centro do escândalo está a relação entre a ONG e a Ultra IP. A empresa acusa o Instituto Conhecer Brasil de um calote de R$ 5,5 milhões, após rompimento unilateral do contrato firmado em junho de 2024. A alegação da Ultra IP é de que a ONG reduziu o escopo do serviço para apenas 2.297 pontos e contratou outra empresa, a Favela Conectada, por R$ 12 milhões, tentando ainda exigir a devolução de R$ 8,7 milhões já adiantados, embora houvesse 3,2 mil pontos funcionando.
Mensagens de WhatsApp obtidas pela reportagem mostram a representante do Instituto Conhecer Brasil, Karina Gama, confrontando o sócio da Ultra IP, William Silva Ferreira: ‘William, você ligou para todos os provedores e pediu para todos desligarem os links. Você pegou o pior caminho’. Logo depois, ela o removeu do grupo de comunicação. A defesa da Ultra IP classificou a atitude como ‘manobra abusiva para não pagar seu crédito’ e apontou má-fé da ONG na tentativa de justificar o repasse milionário à outra empresa.
A operação recolheu documentos e equipamentos, mas até agora ninguém foi preso. A ONG nega irregularidades. O caso expõe um modelo frágil de parceria entre o poder público e organizações sem fins lucrativos, com potencial para desvio de finalidade e prejuízo ao erário, enquanto a promessa de conectividade nas periferias segue sem cumprimento pleno.