Polícia encontra indícios de desvio milionário em cinebiografia de Bolsonaro

Ilustração editorial sobre Polícia encontra indícios de desvio milionário em cinebiografia de Bolsonaro. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

A Polícia Civil de São Paulo identificou indícios consistentes de que recursos públicos do programa Wi-Fi Livre SP foram desviados para financiar a produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira solicitou à Justiça estadual um relatório de inteligência financeira sobre as contas da produtora Go Up e de sua proprietária, Karina Ferreira da Gama, conforme revelou reportagem da Carta Capital.

O contrato de 108 milhões de reais firmado entre a prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG controlada por Gama, está no centro das investigações. A entidade foi escolhida sem licitação para implantar 5 mil pontos de Wi-Fi na cidade, projeto que até o momento não foi executado conforme o previsto.

A cronologia dos fatos revela uma sincronia suspeita entre negociações políticas e a liberação dos recursos. Em 14 de junho, Bolsonaro e o prefeito Ricardo Nunes, do MDB, almoçaram para discutir aliança eleitoral, com a presença do coronel Mello Araújo, então cotado para vice na chapa de reeleição de Nunes. Três dias depois, outro almoço reuniu Nunes e o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, que concordou com a indicação de Araújo para a vice. Na ocasião, estava presente Bruno Lima, então secretário de Inovação e Tecnologia, pasta responsável pela contratação do ICB dias depois.

Em 18 de junho, um parecer interno da secretaria aprovou a contratação do ICB, assinado por Carolina Mazoni Bioto, funcionária de confiança de Lima e não servidora de carreira. Bioto não apenas atestou a conformidade do acordo como se designou gestora do contrato milionário. No dia seguinte, durante jantar de aniversário do governador Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes, a contratação avançou. O chefe de gabinete de Lima, Roger Willians da Fonseca, assinou documentos que validaram as conclusões de Bioto e liberaram 25 milhões de reais à ONG de Gama.

Em 20 de junho, o contrato de 108 milhões foi formalizado com o ICB. Menos de 24 horas depois, Mello Araújo foi oficializado como vice na chapa de Ricardo Nunes, consolidando a aliança entre bolsonaristas e o prefeito. O deputado federal Paulo Teixeira, do PT de São Paulo, afirmou que o contrato foi a moeda de troca pelo apoio de Bolsonaro a Nunes. A prefeitura classificou a afirmação como descabida e acusou a Carta Capital de jornalismo irresponsável, alegando que o processo seletivo começou dois meses antes, em abril.

As investigações policiais revelam uma teia de subcontratações para dificultar o rastreamento do dinheiro. O ICB contratou ao menos cinco empresas para executar o acordo com a prefeitura, sendo que duas delas, a Complexsys e a FastFuture, funcionam no mesmo endereço. Outra subcontratada, a Urban Connect, mudou de nome duas vezes — antes chamava-se ALBS e, posteriormente, Favela Conectada. Seu antigo proprietário, Alex Leandro Bispo dos Santos, deixou a empresa no início do ano e foi preso em fevereiro, acusado de matar a mulher ao atirá-la do alto de um prédio. A polícia suspeita que a estrutura empresarial foi montada para lavagem de valores desviados dos cofres públicos.

O delegado Munuera destacou que a investigada possui conexões comerciais no exterior, incluindo uma filial da Go Up nos Estados Unidos. Esse fato, segundo ele, indica elevado risco de evasão de divisas e ocultação patrimonial, o que motivou o pedido de relatório ao Coaf. O deputado federal Mario Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, também está sob apuração. Ele destinou 2 milhões de reais em emendas parlamentares ao ICB, verba paga em 2025, e já havia negociado com Eduardo Bolsonaro um contrato com a Go Up para produzir o filme.

O deputado federal Lindbergh Farias, do PT, solicitou ao Supremo Tribunal Federal investigação da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República sobre Gama e seus empreendimentos. O pedido foi encaminhado ao ministro Flávio Dino, relator de ações sobre irregularidades com emendas parlamentares. Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, negocia delação premiada com autoridades em Brasília e se dispõe a revelar detalhes sobre o financiamento da obra. A produtora Go Up e sua proprietária foram alvo de operação da Polícia Civil paulista e devem ser investigadas também por autoridades federais nos próximos dias.

A defesa da família Bolsonaro, liderada pelo senador Flávio Bolsonaro, sustenta que o filme foi financiado com recursos privados, sem irregularidades. No entanto, as evidências de uso de verba pública expõem um esquema que mistura produção cinematográfica, propaganda eleitoral disfarçada e desvio de dinheiro público. A investigação também lança luz sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, que teria sido financiada por duas fontes: Gama, a partir do contrato do ICB com a prefeitura, e Vorcaro. Eduardo, que teve o mandato cassado, será julgado pelo STF em 16 de junho por coação no curso do processo, fechando um cerco que se aperta sobre o clã.

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