Rede de elite cobra US$ 65 mil anuais em Nova York sem licença para funcionar como escola

Ilustração editorial sobre Rede de elite cobra US$ 65 mil anuais em Nova York sem licença para funcionar como escola. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

Uma rede de colégios particulares de luxo apoiada por bilionários do setor de tecnologia opera um campus em Manhattan sem aprovação das autoridades educacionais do estado de Nova York. A Alpha School cobra US$ 65 mil anuais por aluno, mas os pais que matriculam seus filhos no prédio da Maiden Lane estão, na prática, inscrevendo as crianças em um programa de ensino domiciliar.

Documentos obtidos pela Wired mostram que o Departamento de Educação do Estado de Nova York negou o pedido da empresa para se constituir como escola independente. O parecer oficial apontou que o ensino proposto é primariamente online, com uma plataforma baseada em IA chamada 2 Hour Learning, que ministra disciplinas acadêmicas centrais com pouca ou nenhuma supervisão de um professor competente.

A cofundadora MacKenzie Price e o bilionário Joe Liemandt, descrito como principal da Alpha, organizaram sessões informativas no Lower Manhattan para atrair famílias abastadas. O discurso vendia a Alpha como a escola particular mais inovadora de Nova York, mas omitia que os matriculados precisariam assinar documentação formal declarando-se praticantes de homeschooling.

Após a reportagem da Wired começar a ser apurada, a empresa reapresentou seu pedido de incorporação como escola, que agora tramita pendente. Mesmo que a licença seja concedida, a Alpha ainda terá de demonstrar às autoridades municipais que seu modelo de ensino é substancialmente equivalente ao das escolas públicas da cidade de Nova York, justamente num momento em que o principal responsável educacional local classificou a inteligência artificial como tecnologia invasiva.

O modelo pedagógico da Alpha é centrado em tutores chamados de guias, adultos que não ensinam conteúdos, mas supervisionam alunos enquanto estes completam lições em softwares personalizados. Price admite usar os termos guias, instrutores e professores de forma intercambiável, num sistema que a empresa afirma permitir aprender o dobro da matéria em apenas duas horas diárias de estudo.

Para engajar os estudantes, o método combina recompensas financeiras e punições sociais. Em um campus da Alpha em Brownsville, Texas, ex-funcionários revelaram que crianças que não batiam as metas de aprendizado eram proibidas de frequentar determinadas salas, de participar de passeios, de ganhar brinquedos ou de almoçar fora da escola.

A velocidade de expansão da rede é tratada internamente como prioridade absoluta. Documentos da Trilogy, empresa de software fundada por Liemandt que coordena as obras dos campi, afirmam que a data de inauguração é mais importante que segurança, operabilidade, eficiência de custo e permanência. Em outro trecho, um vice-presidente escreve: otimização é uma mentira nessa velocidade; a única maneira confiável de cumprir os prazos da Alpha é subtrair — menos aprovações, menos repasses, menos fases, menos decisões permanentes.

Um ex-integrante da equipe de expansão resumiu o espírito do projeto: Em vez de como criamos os melhores espaços para nossas crianças, é com o que conseguimos nos safar. Os executivos, segundo ele, perguntavam coisas como quais são as consequências — vamos só levar uma multa?, e ordenavam: pegue esse bloco de concreto, jogue uma tinta, abra uma escola e encerre o dia.

As consequências dessa lógica aparecem nos registros de irregularidades. O campus de Miami, que cobra US$ 50 mil anuais, opera com certificado de ocupação temporário e sem licença anual de segurança contra incêndios. Em outubro de 2025, um fiscal surpreendeu alunos ocupando alas do prédio que ainda não tinham autorização para uso, forçando a transferência emergencial das turmas — primeiro para um hotel, depois para um salão de jogos da rede Dave & Busters.

Em outro episódio, funcionários do campus de Miami soaram o alarme sobre a instalação de cabines de isolamento acústico num corredor afastado da ala do ensino médio, fora do campo de visão de qualquer adulto. Apelidadas internamente de salas do oba-oba, as cabines foram mantidas, e a Alpha respondeu à Wired que são monitoradas por funcionários e câmeras com sensor de movimento.

No campus de Fort Worth, Texas, onde a anuidade é de US$ 40 mil, a escola funcionava em salas alugadas dentro de um complexo que abriga uma academia corporativa. Sem banheiros privativos dedicados no início, a solução foi instalar um sanitário portátil do lado de fora, o que gerou protestos de funcionários diante do risco de crianças terem contato com adultos nus nos vestiários da academia.

Documentos internos de marketing revelam que a Alpha gastou quase US$ 10 milhões em 2025 para promover seus campi, uma média superior a US$ 15 mil por novo aluno esperado. A estratégia incluía inverter a dinâmica de poder, criando artificialmente listas de espera mesmo quando havia vagas, comprimindo o processo de decisão das famílias em 48 horas e explorando a psicologia da escassez.

Outro documento estratégico afirma que as famílias não querem realmente escolas melhores, querem identidade rebelde. A recomendação é que o conteúdo da cofundadora Price deliberadamente polarize, porque a influência educacional pertence aos extremos, não aos especialistas. O texto chega a descrever o ensino tradicional como ritual performático a ser desmascarado pela inteligência artificial.

A vaga de decano de pais para o campus de Manhattan, com salário anual de US$ 400 mil, exige que o contratado seja capaz de detectar quando uma família não se encaixa e garantir que os pais jamais precisem buscar uma resposta para defender a escolha diante de terceiros. A descrição do cargo inclui a tarefa de ser o primeiro a sentir quando algo não vai bem.

Todos os 13 pais que assinaram uma declaração conjunta enviada à Wired afirmaram estar cientes de que se trata de um centro de apoio ao homeschooling, não de uma escola propriamente dita. Mas um ex-funcionário ouvido pela reportagem foi taxativo: muitos desses pais estão só bebendo o Kool-Aid; o filho chega em casa com um Nintendo Switch novo, um robô de IA, um iPad, e se a criança está feliz, eles estão felizes em ver.

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