Rover Curiosity da NASA conclui 47ª perfuração em Marte e deixa sítio Campo Martiano

Vista aérea do Monte Sharp em Marte, com destaque para a região de Melas Labes. (Foto: Wikimedia Commons)

A jornada de exploração no sítio Campo Marte chegou ao fim para o rover Curiosity, da NASA, que concluiu sua 47ª perfuração bem-sucedida na superfície marciana. O veículo explorador agora avança para novas áreas de investigação no Monte Sharp. A perfuração, que manteve o rover estacionado por um período considerável, foi acompanhada por uma intensa campanha de observações e análises que prometem revelar detalhes inéditos sobre a composição mineral e a história geológica do planeta vermelho.

A professora de Mineralogia Planetária na Open University do Reino Unido, Susanne P. Schwenzer, que atuou três vezes com “Pensar por muito tempo em uma área de trabalho sempre me faz sentir apegada ao local”, escreveu Schwenzer, destacando que a despedida de Campo Marte é um momento significativo enquanto o Curiosity retoma sua trilha montanha acima.

A operação de perfuração foi apenas o ponto de partida para uma meticulosa investigação científica. O instrumento CheMin foi acionado para obter dados mineralógicos precisos, enquanto o SAM analisou as liberações voláteis das amostras coletadas, oferecendo pistas sobre a química orgânica e inorgânica do solo. Paralelamente, os instrumentos ChemCam, APXS, MAHLI e Mastcam documentaram exaustivamente o furo, as partículas finas resultantes da broca e a quantidade de amostra disponível para as análises seguintes.

Um dos exercícios mais impressionantes da etapa foi o trabalho de precisão da ChemCam, que mirou em dois alvos milimétricos em camadas adjacentes de sedimentos finamente laminados, apelidados de “Corcovado” e “Junakas”. Localizados a cerca de 3 metros de distância do rover, o objetivo é descobrir se as camadas possuem composições químicas distintas, o que indicaria condições de formação diferentes, ou se elas são similares, sugerindo um ambiente deposicional mais uniforme no passado marciano.

A curiosidade científica da equipe também se voltou para rochas de aparência intrigante, como o alvo flutuante e excepcionalmente escuro chamado “Alcamachi”, que pode sinalizar uma química diferenciada. A ChemCam ainda realizou uma investigação espectral no alvo “Magallanas”, distante demais para o disparo do laser, mas cuja cor escura aguçou o interesse dos pesquisadores por possíveis variações na composição das rochas da região.

Além do foco geoquímico, a ChemCam planejou três imageamentos de longa distância (RMI) para documentar estruturas sedimentares jovens e antigas nos arredores do rover. Um desses mosaicos, com impressionantes 24 quadros, pode ter quebrado um recorde da missão como a mais longa faixa contínua de imagens RMI já obtida, conectando-se a um conjunto anterior de imagens para formar um panorama detalhado de uma pequena crista com texturas que narram as condições ambientais de eras passadas.

O trabalho incansável da Mastcam também merece destaque, pois a câmera imageou toda a região ao redor do Curiosity, além de produzir mosaicos de alta resolução do local onde a amostra excedente foi descartada e da área de trabalho. O objetivo foi verificar quanto material pode ter permanecido no tubo da broca e caído durante as manobras de vibração projetadas para liberar resíduos e deixar o sistema limpo para a próxima coleta.

Não menos minuciosa, a MAHLI dedicou-se a imagear as entradas dos instrumentos para garantir que estão impecáveis e prontas para a próxima amostra. Em uma nota curiosa, Schwenzer mencionou a presença de uma pequena rocha na entrada do CheMin, carinhosamente apelidada pela equipe do instrumento como “nossa rocha de estimação”, que tem acompanhado o rover por um bom tempo sem comprometer as operações.

O instrumento APXS, focado nas análises do furo, aproveitou a oportunidade para ir além dos níveis usuais de contagem estatística ao aumentar significativamente o tempo de medição sobre as partículas finas da perfuração Campo Marte. O experimento se estendeu por todos os planos da semana, culminando em uma sessão noturna com as luzes de LED da MAHLI, que documentou o trabalho com um espetáculo cintilante de ciência robótica na escuridão marciana.

Enquanto toda a investigação geológica ocorria, a equipe de monitoramento ambiental manteve o Curiosity ocupado com medições de opacidade atmosférica, atividade de poeira e detecção de redemoinhos de areia, os chamados “dust devils”. Com todas as atividades concluídas e um rico conjunto de dados a bordo, o rover agora segue sua escalada pelo Monte Sharp rumo à próxima área de interesse, onde estruturas sedimentares conhecidas como “estratificações cruzadas” aguardam para contar novos capítulos da história de Marte.

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