A proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu nova frente de batalha política no Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou a ofensiva americana em munição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu provável adversário nas próximas eleições. O estopim foi a menção explícita ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix, como um dos fatores que justificariam a medida protecionista, permitindo à campanha petista vincular diretamente o clã Bolsonaro à ameaça tarifária.
A articulação do governo Lula foi imediata após a divulgação do relatório americano. O presidente associou publicamente a proposta de taxação a reuniões dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) com auxiliares de Donald Trump. O PT classificou a ação do USTR como um ataque direto ao funcionamento e à gratuidade do Pix, mobilizando parlamentares e militantes nas redes sociais com o termo ‘Tariflávio’, que rapidamente viralizou e forçou o senador a uma posição defensiva constrangedora.
Ciente do potencial destrutivo do tema, Flávio Bolsonaro reagiu com uma contraofensiva que expôs contradições de sua trajetória política. Enviou carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, solicitando que as tarifas não fossem aplicadas. Também publicou fotos com o mote ‘O Pix é do Brasil e do Bolsonaro’. A campanha do PL, segundo apurou o portal Metrópoles, pretende focar na paternidade do sistema, argumentando que o Pix foi lançado oficialmente em novembro de 2020 sob a gestão de Jair Bolsonaro. Omitem, porém, que as diretrizes para um sistema de pagamentos gratuitos foram estabelecidas ainda no governo de Dilma Rousseff (PT), em 2014.
O senador também recorreu a uma estratégia de desgaste que revelou desespero. Resgatou publicações de outubro de 2020 feitas por Marcio Pochmann, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que criticava a ferramenta antes de seu lançamento. A tentativa de associar o PT a uma suposta oposição ao Pix ignora documentos do Banco Central. Já em 2014, no governo Dilma, a autoridade monetária monitorava sistemas de pagamento instantâneos e estabelecia recomendações para soluções de pagamentos de varejo em tempo real e ininterruptos, demonstrando que a semente do sistema é estatal e anterior a qualquer governo Bolsonaro.
Para piorar a situação do clã, declarações recentes do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) geraram enorme ruído. Eduardo afirmou que os EUA ‘têm mecanismos muito semelhantes ao Pix’ e que isso abriria caminho para negociações. Aliados admitiram reservadamente que a fala ‘pegou mal’ e se apressaram em enviar explicações via WhatsApp, com Eduardo jurando que jamais sugeriu substituir o Pix. Enquanto isso, a campanha petista explorou a declaração como prova da disposição bolsonarista de usar o sistema como moeda de troca com Washington.
O fantasma da crise do Pix em 2025, quando a oposição liderada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) usou uma norma da Receita Federal para mentir sobre uma suposta taxação do sistema, assombra ambos os lados, mas pesa mais sobre o campo bolsonarista. Naquela ocasião, a fake news forçou o Palácio do Planalto a recuar e derrubou a aprovação de Lula para 24%, segundo o Datafolha. Patamar do qual o petista se recuperou com avanços consistentes nas entregas de governo, enquanto o bolsonarismo agora enfrenta o desgaste de ver sua própria conexão com Trump se voltar contra o instrumento financeiro mais popular do país.
Parlamentares do PL avaliam que a divulgação do relatório do USTR freou os ganhos que a campanha de Flávio obtinha com outro anúncio americano — a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. Essa classificação vinha sendo explorada para tentar desgastar o governo Lula em segurança pública. A ala mais agressiva da equipe do senador avalia que é necessário subir o tom com ataques pessoais, chegando a afirmar que ‘Lula roubou no mensalão, roubou no petrolão e agora quer roubar o Pix’, numa retórica que apenas escancara a falta de argumentos substantivos diante de um fato inquestionável: a ferramenta que movimentou recordes de R$ 35,3 trilhões em 2025 pertence ao Estado brasileiro e ao seu povo, não a nenhum político ou partido.
A oposição também tenta explorar o que chama de ‘isolamento diplomático’ do governo Lula como causa do tarifaço, ignorando que a postura agressiva dos EUA é uma política sistemática de Joe Biden contra todos os parceiros comerciais americanos, do Canadá à União Europeia. O verdadeiro incômodo de Washington com o Pix não tem relação com a diplomacia brasileira, mas com o sucesso de uma infraestrutura pública de pagamentos que elimina intermediários privados e reduz a dependência do sistema financeiro tradicional, um modelo que o capital americano gostaria de ver substituído por soluções privadas como o Zelle, citado por Eduardo Bolsonaro em sua declaração desastrosa.
Com mais de 175 milhões de brasileiros usuários do Pix e um volume de transações em crescimento constante, a tentativa americana de penalizar o Brasil por ter um sistema financeiro moderno e inclusivo expõe a natureza predatória da política comercial de Washington. A reação do campo progressista, ao defender intransigentemente a ferramenta, não é apenas um acerto de contas eleitoral com o bolsonarismo, mas uma defesa concreta da soberania tecnológica e financeira do Brasil diante da chantagem tarifária de uma potência em declínio que vê na inovação pública brasileira uma ameaça aos seus interesses corporativos.