Se a censura do ministro Kassio Nunes Marques à AtlasIntel pretendia conter a entrada de água no barco de Flávio, o efeito político pode ter sido o contrário.
A decisão suspendeu a divulgação de uma pesquisa AtlasIntel registrada no TSE, sob suspeita de indução ao eleitor, com restrição também a impulsionamento e republicação do levantamento.
A Folha registrou que o TSE adiou a análise do caso depois de Kassio votar para manter a censura pedida por Flávio Bolsonaro.
O mesmo texto informou que a Atlas/Bloomberg apontava queda de seis pontos de Flávio no segundo turno contra Lula após o caso “Dark Horse”, com áudios ligados a Daniel Vorcaro.
Agora veio a Quaest. E a nova rodada não tampa o furo. Abre outro no casco.
Não dá para saber se é só o caso Vorcaro. Pode ser também o “tariFlavio”, a submissão a Trump, a dificuldade de parecer moderado, ou simplesmente a força eleitoral de Lula.
O fato é que Flávio perdeu terreno onde mais precisava ganhar. Não é apenas uma fotografia ruim, é uma sequência.
No segundo turno contra Lula, Flávio aparecia na frente em abril, por 42% a 40%. Em maio, Lula virou por 42% a 41%.
Em junho, a Quaest mostra Lula com 44% e Flávio com 38%.
Em abril, Lula estava dois pontos atrás de Flávio. Agora está seis pontos à frente.
Parece variação de planilha, mas é gente. O Brasil tem 158,8 milhões de eleitores aptos, segundo o TSE, e cada ponto percentual vale cerca de 1,6 milhão de pessoas.
E a conta mostra para onde foi esse eleitor. Flávio perdeu 4 pontos no período e Lula ganhou exatamente os mesmos 4.
Não houve fuga para o branco nem para a indecisão. Brancos e nulos caíram de 16% para 14%, e os indecisos subiram só de 2% para 4%.
No agregado, é como se uns 6 milhões de eleitores tivessem cruzado direto do lado de Flávio para o lado de Lula. Em dois meses.
Em números absolutos, os 44% de Lula equivalem hoje a quase 70 milhões de eleitores. Os 38% de Flávio, a uns 60 milhões.
Claro que a urna encolhe esses números. No segundo turno de 2022, a abstenção foi de 20,6% e, entre quem compareceu, brancos e nulos somaram menos de 5%.
Repetindo esse padrão em 2026, sobram cerca de 120 milhões de votos válidos. E a divisão da Quaest entre os dois, 44 a 38, equivale a 54% a 46% dos válidos.
Na urna, isso daria a Lula cerca de 64 milhões de votos, contra 56 milhões de Flávio. Uma vantagem de quase 9 milhões.
Para comparar, Lula venceu Bolsonaro pai em 2022 com 60,3 milhões de votos e margem de 2,1 milhões. Hoje ele estaria acima da própria marca, com uma folga quatro vezes maior.
Esse é o primeiro rombo. O segundo é mais fundo, porque aparece entre independentes.
Nesse grupo, Lula saiu de 26% em abril para 29% em maio e chegou a 37% em junho. Flávio fez o caminho inverso, caiu de 33% para 31% e depois despencou para 24%.
A margem entre independentes saiu de 7 pontos a favor de Flávio para 13 pontos a favor de Lula. É uma virada de 20 pontos de margem no eleitorado menos alinhado.
Isso muda a natureza da disputa. Flávio ainda tem base, mas começa a perder o miolo.
No primeiro turno, a curva repete o alerta. Lula foi de 37% em abril para 39% em maio e segue em 39% em junho.
Flávio fez o caminho oposto. Subiu a 33% em maio e desabou para 29% em junho, com a margem dobrando de 5 para 10 pontos.
E aqui o destino do voto é diferente do segundo turno. O eleitor que saiu de Flávio não foi para Lula, que ficou parado.
Foi para a dúvida e para nomes novos. Os indecisos dobraram de 5% para 10%, enquanto Aécio Neves estreou no cenário com 2% e Joaquim Barbosa com 1%.
Nem a direita alternativa aproveitou a queda. Caiado foi de 4% para 3% e Zema, de 4% para 2%.
Em gente, são uns 6 milhões de eleitores abandonando Flávio em um mês. E 8 milhões a mais sentados no muro, esperando para decidir.
O detalhe mais interessante está nos recortes. O Nordeste segue forte para Lula, mas a novidade não está só no território mais previsível.
No Sudeste, Lula saiu de 31% contra 36% de Flávio em abril para 37% contra 28% em junho. A margem mudou de menos 5 para mais 9.
No Centro-Oeste e Norte, Lula foi de 26% contra 36% para 32% contra 30%. A margem saiu de menos 10 para mais 2.
Também há deslocamento social. Na renda de 2 a 5 salários mínimos, Lula foi de 31% contra 36% para 39% contra 28%.
No ensino médio, Lula saiu de 30% contra 37% para 34% contra 32%. São recortes de meio de eleitorado, não apenas redutos naturais do lulismo.
A rejeição também piora o diagnóstico. Flávio fica travado em 39% no grupo que o conhece e votaria nele.
Ao mesmo tempo, o grupo que conhece e não votaria sobe de 52% em abril para 54% em maio e 56% em junho. O desconhecimento cai de 9% para 5%. Mais exposição, mesmo teto.
A imagem de moderação também sangra. Em abril e maio, 39% diziam que Flávio era mais moderado que a família Bolsonaro, mas esse número cai para 33% em junho.
No mesmo período, os que dizem que ele não é mais moderado sobem para 50%. O figurino de bolsonarismo palatável está rasgando antes da campanha começar.
Então chega o Caso Master. A Quaest mostra que 55% dizem já saber das conversas e negociações de Flávio com Vorcaro.
Os números seguintes são devastadores. Para 65%, Flávio errou ao pedir financiamento a Vorcaro, 60% dizem que as conversas levantaram suspeitas e 58% consideram que ele pode estar escondendo envolvimento ilegal no caso do Banco Master.
A pesquisa ainda mostra 62% dizendo acreditar que Flávio sabia que Vorcaro estava envolvido em corrupção. São percepções do eleitorado, não sentença judicial, mas em eleição percepção afunda casco.
Entre independentes, o quadro é ainda mais perigoso para ele. São 67% dizendo que Flávio errou, 63% vendo suspeitas nas conversas e 64% dizendo que ele pode estar escondendo envolvimento ilegal.
As notícias sobre Flávio e Vorcaro não destroem sua base dura. Mas endurecem seu teto.
No total, 50% dizem que continuam sem votar em Flávio e 12% afirmam que a vontade de votar nele diminuiu. Apenas 6% dizem que a vontade aumentou.
Entre independentes, 57% dizem que continuam sem votar nele e 15% dizem que a vontade diminuiu. Esse é o mesmo grupo em que Lula abriu 13 pontos no segundo turno.
Os outros cenários de segundo turno dizem menos neste momento. Zema, Caiado e Renan aparecem mais como nomes de prateleira do que como alternativas reais na disputa.
A disputa central continua sendo Lula contra Flávio. E nesse confronto, a Quaest não entregou uma boia ao senador.
Entregou mais água. Flávio ainda flutua porque o bolsonarismo é grande, mas o centro já começa a se afastar do convés.
Base fiel mantém navio visível. Eleitor independente decide se ele chega ao porto.