A economia digital global revela uma arquitetura profundamente desigual. Enquanto os países do Sul Global fornecem dados, mão de obra e matéria-prima digital, a riqueza, o poder de decisão e a capacidade tecnológica se concentram em um punhado de corporações sediadas no Norte. Este é o diagnóstico central do livro ‘Soberania digital: desafios do presente para um Brasil do futuro’, um lançamento da Kotter Editorial que joga luz sobre um dos temas mais urgentes da geopolítica contemporânea.
Organizada por Orlando Silva, ex-ministro e deputado federal do Brasil, e pela pesquisadora Renata Mielli, a obra reúne especialistas de diferentes áreas para mapear os mecanismos do que os autores definem como colonialismo digital. O conceito descreve o arranjo em que o Sul Global alimenta a economia digital, enquanto riqueza, poder e capacidade de decisão se acumulam em outros países e em poucas empresas globais, perpetuando dependências históricas.
A concentração de poder é avassaladora. Cinco gigantes — Google, Amazon, Meta, Apple e Microsoft — controlam grande parte da infraestrutura em nuvem, os sistemas operacionais, as redes sociais e os fluxos globais de dados. Países como o Brasil figuram como enormes mercados consumidores e fornecedores de dados brutos, mas permanecem dependentes de tecnologia estrangeira para processar, armazenar e extrair valor dessa matéria-prima digital essencial.
O livro escancara o paradoxo da era digital para o Brasil, que possui mais de 160 milhões de usuários de internet, uma das maiores bases de dados do planeta e um mercado digital vibrante. No entanto, a infraestrutura crítica — dos cabos submarinos aos data centers, dos sistemas de pagamento às plataformas de inteligência artificial — permanece majoritariamente sob controle estrangeiro. Essa assimetria não é acidental, mas fruto de escolhas políticas e da ausência de uma estratégia nacional robusta de soberania tecnológica.
Os autores argumentam que a dependência digital compromete seriamente a capacidade do Estado de proteger dados sensíveis da população, regular as plataformas de forma efetiva e desenvolver uma indústria tecnológica própria e autônoma. A soberania digital, defendem, não é um luxo acadêmico, mas uma condição indispensável para a autonomia política e econômica do país no complexo cenário do século XXI.
O debate ganha ainda mais relevância em um momento de acirramento geopolítico global. A guerra comercial entre China e Estados Unidos, as sanções unilaterais contra empresas como a Huawei e a corrida pela supremacia em inteligência artificial demonstram que o controle sobre a tecnologia é hoje o principal campo de disputa entre as grandes potências. Nesse cenário, o Sul Global precisa construir alternativas próprias e resilientes para não permanecer eternamente na periferia digital, sem voz ou controle sobre seu próprio destino tecnológico.
A obra também avança sobre as iniciativas em curso em diversas regiões. Cita os esforços do BRICS para criar infraestruturas digitais compartilhadas e soberanas, os debates sobre soberania de dados na União Africana e as experiências latino-americanas de proteção de dados pessoais. O Brasil, com seu peso demográfico e econômico, teria plenas condições de liderar esse processo se superar a inércia política e a significativa captura regulatória pelo lobby das big techs, que atualmente impede o avanço de políticas mais autônomas.
A mensagem central do livro é clara e incômoda para o establishment digital. A atual arquitetura da economia de dados reproduz e aprofunda as desigualdades do colonialismo clássico, agora sob novas roupagens tecnológicas. Sem uma política de Estado abrangente para a soberania digital, o país continuará sendo um exportador de dados brutos e um importador de inteligência alheia, alimentando um ciclo vicioso que enriquece poucos e perpetua a dependência econômica e tecnológica de muitos, comprometendo o futuro da nação.