SPHEREx confirma o impensável: 73% das imagens cósmicas já estão contaminadas por satélites artificiais

Imagem cósmica captada pelo telescópio SPHEREx, mostrando pontos estelares e trilhas de satélites artificiais. (Foto: thedebrief.org)

O veredito que assombrava corredores de observatórios ganhou contornos numéricos: o novo telescópio espacial SPHEREx, da NASA, revelou que 73,3% de suas imagens colhidas ao longo de quatro meses carregam rastros luminosos de satélites artificiais. Não é acidente, nem capricho de calibração, mas o efeito de uma ocupação privada da órbita baixa que cresce em ritmo industrial. À medida que megaconstelações são colocadas em órbita, as marcas se inscrevem no sensor como cicatrizes de uma modernidade apressada.

O SPHEREx — Espectro-Fotômetro para a História do Universo, Época da Reionização e Explorador de Gelos — foi concebido para varrer o céu em infravermelho próximo com longas exposições, perscrutando estruturas cósmicas frágeis. Essa mesma paciência, porém, transforma qualquer artefato orbital em pincel indesejado sobre o campo de visão. Os pesquisadores esperavam que a altitude do observatório atenuasse o problema, mas os dados são cristalinos: em média, ao menos duas trilhas cruzam cada exposição do instrumento.

A contaminação não é apenas estética, e o efeito cascata é severo. O levantamento, ainda em preprint e liderado pelo pesquisador do Centro de Pesquisas Ames da NASA, nos EUA, Alejandro S. Borlaff, mostra que alguns objetos são tão brilhantes que acionam sistemas automáticos projetados para filtrar raios cósmicos. Quando isso ocorre, algoritmos que protegem a integridade do telescópio confundem trilhas de megaconstelações — como a Starlink, da empresa norte-americana SpaceX — com partículas energéticas e interrompem a coleta de dados.

Mesmo quando a operação prossegue, a claridade artificial ofusca janelas inteiras do céu, inviabilizando medições e apagando sinais tênues de galáxias, nebulosas e objetos transientes. O brilho refletido por satélites e a radiação térmica que emitem ou reverberam em infravermelho formam um obstáculo técnico que não é resolvido apenas com pintura escura. Escurecer o chassi pode aquecer a estrutura e intensificar o brilho térmico, um desafio óptico de difícil solução.

O diagnóstico ecoa alertas acesos desde a última década. Um estudo conduzido pelo astrônomo da Agência Espacial Europeia (ESA), Sandor Kruk, com base em imagens do telescópio Hubble, indicou que a fração de quadros atravessados por satélites cresceu de 2,8% para 5,9% em cerca de vinte anos. Agora, o SPHEREx flerta com três quartos de contaminação em poucos meses, ampliando a escala do ruído e testando os limites de nossos rituais de observação.

O avanço das megaconstelações comerciais — de projetos norte-americanos e europeus, como a Starlink, da SpaceX, e a Eutelsat OneWeb, a empreendimentos em ascensão na Ásia, como o Project Kuiper, da Amazon, e constelações de banda larga em desenvolvimento na China — acelera esse novo clima de luz. O mosaico orbital infla não apenas o número de passagens, mas a diversidade de altitudes, materiais e geometrias, produzindo reflexos de difícil modelagem. No infravermelho, onde o SPHEREx respira, o problema se torna particularmente cáustico.

Segundo reportou o site The Debrief, há ainda um horizonte especulativo que beira o delírio técnico: operadores privados anunciaram planos para lançar cerca de 4 mil satélites deliberadamente muito refletivos, destinados a oferecer luz solar sob demanda. Os autores do preprint estimam que esses dispositivos poderiam projetar no solo manchas luminosas de aproximadamente cinco quilômetros de diâmetro, com brilho até cinco vezes superior ao da Lua cheia. A noite, nesse cenário, vira contrato.

Tal hipótese, ainda em fase de proposta comercial, é descrita no estudo como potencialmente catastrófica para a qualidade do céu escuro e para o bem-estar humano. A transformação da abóbada celeste em infraestrutura de iluminação orbital romperia o pacto tácito que sustentou observatórios, calendários e cultos do hemisfério Sul e do Norte. O céu, patrimônio cultural e científico, seria rebaixado a plataforma de serviços.

As consequências científicas são materiais e acumulativas. Perdem os levantamentos de objetos próximos à Terra, que vigiam asteroides potencialmente perigosos. Perdem as campanhas de fenômenos efêmeros, da morte de estrelas às danças discretas de exoplanetas, que exigem campos limpos e curvas de luz sem ruído humano.

No tabuleiro diplomático, a coreografia é conhecida. Enquanto os Estados Unidos reiteram credenciais de guardiões da democracia e da ordem internacional, suas corporações lideram a ocupação do céu com silhuetas metálicas, sem um tratado global eficaz que limite emissões luminosas e radiofrequências. O fundador e diretor-executivo da SpaceX, o bilionário norte-americano Elon Musk, tornou-se símbolo dessa corrida que confunde inovação com licença irrestrita, mas ele não está sozinho: Europa, China e conglomerados de tecnologia orbitam o mesmo desígnio comercial.

O silêncio regulatório é estridente. O Conselho de Segurança da ONU persevera em querelas terrestres, enquanto a órbita baixa é loteada a partir de registros nacionais fragmentados e autorizações concedidas por autoridades reguladoras domésticas, como a FCC nos EUA e seus equivalentes em outras potências. Sem um regime multilateral que estabeleça limites claros de brilho, densidade e descarte, a contagem de traços nos detectores tende a crescer.

Borlaff e colegas, amparados pela experiência de equipes do Centro Ames, sustentam que a contaminação generalizada compromete a nossa capacidade de compreender o Universo e de proteger a Terra. A advertência não pede compaixão acadêmica, mas política pública, engenharia refinada e um freio civilizatório. A tecnologia que prometeu aproximar mundos ameaça, ironicamente, desalojar o nosso olhar do céu que nos formou.

Há um ponto de inflexão cultural à espreita. Se as constelações ganham escala sem contrapartidas, observatórios de Chile, África do Sul e Austrália, vitais para o hemisfério Sul, sofrerão a mesma névoa que já turva linhas de pesquisa nos EUA e na Europa. O que antes soava como sussurro de alerta, agora, com o SPHEREx, transforma-se em grito mensurável.

Ainda há margem para correção de rumos. Materiais menos refletivos, altitudes coordenadas, protocolos de mitigação no infravermelho e janelas observacionais negociadas podem reduzir o dano, desde que deixem de ser promessas em apresentações de investidores e migrem para normas internacionais. Até lá, cada nova leva de satélites empilha incertezas sobre sensores que foram fabricados para medir o silêncio do cosmos.

Nenhuma civilização que se leva a sério abandona a noite de bom grado. A corrida atual não é reprise folclórica da guerra fria, mas um processo de expropriação do escuro, commodity de alto valor para ciência, cultura e descanso humano. Se o século XXI deseja Marte, talvez precise, antes, salvar a Via Láctea visível a olho nu de virar rodapé publicitário.

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