A Anthropic, laboratório de inteligência artificial, viu seus gastos empresariais superarem os da OpenAI pela primeira vez em maio, de acordo com dados da fintech Ramp. O salto ocorreu em meio a uma nova escalada de hostilidade do governo Trump contra a companhia, que acabou retirando do mercado seus modelos mais poderosos após uma ordem da Casa Branca.
Na sexta-feira, 12 de junho, o governo dos Estados Unidos enviou uma carta exigindo que a Anthropic proibisse cidadãos não americanos, incluindo seus próprios funcionários, de acessar os modelos Mythos 5 e Fable 5. A medida invocou uma obscura diretriz de controle de exportações e forçou a empresa a puxar os sistemas do ar.
A ordem veio meses depois de a Anthropic ter se recusado a ceder seus modelos para vigilância em massa de cidadãos americanos e para o desenvolvimento de armas totalmente autônomas. Em março, o governo Trump já havia retaliado, declarando a empresa um “risco à cadeia de suprimentos”.
A ironia, no entanto, é que os ataques parecem ter impulsionado os negócios. Dados da Ramp, coletados de mais de 70 mil empresas que usam sua plataforma, mostram que a participação da Anthropic nas assinaturas de IA pagas por companhias subiu 2,5 pontos percentuais em maio, alcançando 41%. Já a OpenAI estacionou em 39,5%, praticamente estável em relação ao mês anterior.
Ara Kharazian, economista-chefe da Ramp responsável pela compilação dos números, afirmou ao TechCrunch: “Se alguma coisa, isso provavelmente vai impulsioná-los.” Ele lembrou que o melhor mês de adoção corporativa da Anthropic tinha sido justamente aquele em que o Departamento de Defesa a classificou como risco à cadeia de suprimentos. “Existe uma aura que vem com o fato de seu modelo ser especificamente considerado perigoso demais para ser usado”, acrescentou.
O momento é de virada para a empresa. A Anthropic encerrou maio com uma captação de 65 bilhões de dólares e um valuation de 965 bilhões, superando também a OpenAI nesses indicadores. Em junho, protocolou documentos confidenciais para uma oferta pública inicial de ações (IPO), baseada em seu primeiro trimestre lucrativo.
Embora os dados da Ramp não sejam detalhados o suficiente para mensurar o impacto financeiro exato da retirada do Mythos 5 e do Fable 5, eles indicam que clientes empresariais usam pesadamente os modelos Opus, mais antigos e ainda disponíveis. A própria Anthropic lançou uma nova versão, o Opus 4.8, no final de maio.
O modelo Mythos é tão eficaz em encontrar falhas de segurança em códigos de software que a empresa o classificou como perigoso e restringiu seu lançamento público. A versão Fable 5, liberada ao público, teve suas barreiras de proteção rapidamente burladas por hackers, conforme relatos de especialistas.
A nova polêmica com a Casa Branca pode gerar cautela entre investidores do mercado público durante o planejado IPO, mas os números indicam que os modelos disponíveis da Anthropic nunca foram tão populares entre as empresas. A hostilidade oficial está funcionando, na prática, como um involuntário selo de qualidade.
Com informações de TECHCRUNCH.