Uma criança de apenas 7 anos precisou ser transferida de escola depois de sofrer ofensas racistas em uma instituição particular no Gama, Distrito Federal. A família denunciou dois episódios distintos de agressão verbal: o primeiro na porta do banheiro e o segundo dentro da sala de aula.
Segundo a mãe, que preferiu não se identificar para preservar a imagem do filho, o menino retornou para casa chorando no dia 1º de junho. Ele contou que, ao sair do banheiro, ouviu a frase: “Sai da frente, seu macaco”.
O aluno teria procurado a professora logo após o ocorrido, mas a escola Nossa Senhora Aparecida não repassou a denúncia à família. Dez dias depois, uma nova ofensa de cunho racial foi direcionada à criança dentro da sala de aula, conforme relatado pelos responsáveis.
“A escola deveria ter chamado os pais e trabalhado isso pedagogicamente. Não é normal, no século em que vivemos, uma criança de 7 anos ter que sair da escola por sofrer ofensas”, afirmou a mãe em entrevista à TV Globo. Após o segundo caso, ela registrou uma ocorrência na delegacia e providenciou a transferência do menino para outra unidade de ensino particular da região.
A reportagem foi publicada pelo portal g1, que detalhou as mudanças de comportamento da criança. Antes comunicativo e brincalhão, o menino agora evita sair de casa, não quer ver ninguém, recusa alimentos e chora com frequência, segundo o relato materno.
A direção do colégio Nossa Senhora Aparecida informou que chamou os responsáveis pelos alunos envolvidos para conversar em ambos os episódios e promoveu atividades pedagógicas sobre o tema do racismo. No entanto, a família considera as medidas insuficientes e aponta que a escola falhou ao não comunicá-los imediatamente após a primeira queixa da criança.
Para a família, a instituição de ensino descumpriu o dever de proteger a criança. A mãe relatou que só soube do primeiro episódio porque o filho contou espontaneamente. Ele ficou com medo de voltar, e a escola não fez nada para tranquilizá-lo ou nos comunicar, sendo preciso que a situação se repetisse para tomarem uma atitude.
O caso reacende o debate sobre a necessidade de protocolos antirracistas nas escolas. Recentemente, o Ministério Público recomendou que estabelecimentos da rede pública adotem orientações claras para identificar, registrar e encaminhar denúncias de racismo. Especialistas defendem que a regra também se aplique às instituições particulares, dada a gravidade dos impactos sobre as vítimas.
A neuropsicopedagoga Mara Rúbia Rodrigues da Cruz explica que o enfrentamento ao racismo precisa ser contínuo e fazer parte do projeto pedagógico das escolas. “Não é uma questão pontual. Precisa ser trabalhada durante todo o ano, com formação dos professores e ações permanentes”, destacou. Ela alerta ainda para o papel das famílias na identificação dos sinais, já que crianças nem sempre conseguem reconhecer ou nomear a violência sofrida.
A especialista reforça que o silêncio ou a minimização de ofensas raciais no ambiente escolar podem gerar traumas duradouros. A criança aprende que o adulto não a protegeu, o que compromete a autoestima e a confiança nas instituições. A escola precisa ser um lugar de acolhimento e ensino, não de medo e humilhação.
O documento do Ministério Público orienta que casos como esse sejam registrados em livro próprio e que haja acionamento imediato dos responsáveis e, se necessário, dos conselhos tutelares. A recomendação, embora voltada à rede pública, é considerada por pedagogos e juristas como um padrão mínimo que deveria ser adotado por todas as instituições de ensino do país, incluindo as privadas.
A transferência forçada de um aluno tão pequeno escancara a urgência de que escolas, famílias e poder público atuem de forma integrada para combater o racismo estrutural desde os primeiros anos de formação. A omissão diante de uma denúncia, sobretudo quando parte da própria vítima infantil, agrava o sofrimento e compromete o direito à educação em um ambiente seguro.
Com informações de G1.