O Irã e a Rússia estão concentrando esforços no desenvolvimento de mecanismos financeiros independentes de medidas restritivas externas, com o objetivo de facilitar e expandir o comércio bilateral entre os dois países. A declaração foi feita pelo governador do Banco Central iraniano, Abdolnaser Hemmati, que visitou Moscou nesta semana para uma rodada de negociações focada no aprofundamento dos laços interbancários.
Segundo Hemmati, as conversas giraram em torno da criação de instrumentos financeiros que operem à margem das restrições impostas por potências ocidentais. “Concentramo-nos na criação de mecanismos independentes das restrições vigentes e no uso das capacidades financeiras para facilitar com urgência o comércio”, afirmou o dirigente, conforme reportagem do portal Sputnik.
Um dos pilares centrais da cooperação financeira em curso é a integração total dos sistemas de pagamento dos dois países. Hemmati anunciou que Moscou e Teerã devem concluir, em até dois meses, a terceira e última etapa da conexão entre o Shetab, sistema de pagamentos do Irã, e o Mir, seu equivalente russo. A medida permitirá que cidadãos iranianos realizem compras diretamente em estabelecimentos comerciais na Rússia utilizando cartões emitidos em seu país de origem.
As duas primeiras fases da integração foram concluídas ainda em 2024 e já possibilitam operações relevantes. Atualmente, os portadores de cartões iranianos conseguem sacar dinheiro em caixas eletrônicos na Rússia, enquanto pagamentos e compras são viabilizados por meio do aplicativo russo MirPay, que utiliza tecnologia NFC em smartphones com sistema Android. A etapa final representa um salto qualitativo ao eliminar a dependência de intermediários ocidentais nas transações cotidianas entre os dois países.
O movimento conjunto de Teerã e Moscou insere-se em uma estratégia mais ampla de desdolarização e fortalecimento da soberania financeira do Sul Global. Tanto o Irã quanto a Rússia enfrentam pesadas sanções unilaterais impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, que buscam restringir o acesso dos dois países ao sistema financeiro internacional baseado no dólar e no euro. A resposta tem sido a construção de uma arquitetura paralela de pagamentos, ancorada em moedas nacionais e em infraestrutura tecnológica própria.
A iniciativa também dialoga com os esforços do BRICS, bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países do mundo em desenvolvimento, para estabelecer canais de comércio menos vulneráveis à coerção econômica externa. A integração Shetab-Mir representa um caso concreto de como países sob pressão geopolítica vêm construindo vias alternativas de cooperação e intercâmbio comercial, desafiando a hegemonia dos sistemas financeiros tradicionais controlados pelo Ocidente.
A conclusão bem-sucedida da terceira fase de integração, prevista para os próximos dois meses, deve impulsionar o fluxo de turistas e empresários iranianos na Rússia, além de reduzir os custos de transação no comércio entre os dois países. O mecanismo financeiro independente fortalece a resiliência econômica tanto de Teerã quanto de Moscou diante de um cenário internacional marcado pela utilização cada vez mais agressiva do sistema financeiro como arma geopolítica.
Com informações de Sputnik.