O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu a compostura nas redes sociais neste domingo (21) e protagonizou um bate-boca público com a jornalista Eliane Cantanhêde, colunista do jornal O Estado de S.Paulo, após a publicação de um artigo que expôs as contradições do parlamentar no escândalo do Banco Master. Acuado pelo acúmulo de denúncias, o senador desviou das perguntas sobre sua situação judicial e partiu para a desqualificação pessoal da jornalista, em um episódio que a Revista Fórum classificou como explosão de nervos diante do cerco que se fecha.
O estopim foi a insistência de Cantanhêde em cobrar explicações sobre um ponto nevrálgico: por que Flávio Bolsonaro segue sem qualquer medida cautelar determinada pelo ministro André Mendonça, relator do Caso Master no Supremo Tribunal Federal, enquanto outros políticos mencionados na mesma investigação — como os senadores Jaques Wagner (PT-BA) e Ciro Nogueira (PP-PI) — já foram alvo de operações policiais. A seletividade na aplicação da lei gerou mal-estar nos bastidores do Judiciário e é apontada como um constrangimento institucional crescente para a Corte.
Sem conseguir rebater o mérito da pergunta, o senador tentou equiparar uma transação comercial legítima — a venda de um imóvel pela jornalista — aos repasses milionários e secretos operados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por um sofisticado esquema de fraudes financeiras. A manobra retórica não apenas falhou em explicar o surgimento do patrimônio milionário do parlamentar, como reforçou a ausência de argumentos técnicos para sua defesa.
O episódio não é um desabafo fortuito. Ele reedita o roteiro de intimidação à imprensa que se tornou marca registrada da família Bolsonaro desde que as primeiras investigações sobre rachadinhas vieram à tona, ainda no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. À época, o caso levou à quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador e revelou movimentações financeiras atípicas incompatíveis com sua renda declarada, mas acabou arquivado em circunstâncias controversas.
A agressão verbal funciona como substituto do argumento quando o patrimônio milionário e a origem dos recursos se tornam difíceis de explicar. O modus operandi é conhecido: diante de questionamentos incômodos, a família reage com hostilidade, tentando constranger o profissional de imprensa e desviar o foco da investigação. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) registra que políticos lideram consistentemente o ranking de agressores a profissionais de imprensa no Brasil, e que o assédio judicial é uma tática em franca ascensão.
O grau de blindagem que Flávio Bolsonaro desfruta no gabinete de André Mendonça se tornou insustentável diante de um conjunto probatório robusto. O ministro resiste a autorizar mandados de busca e apreensão ou a instaurar inquérito formal contra o senador, mesmo após sucessivas contradições públicas do parlamentar e indícios de lavagem de dinheiro apontados em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Enquanto isso, o Banco Master e Daniel Vorcaro amargam uma deterioração acelerada de imagem e de negócios.
A pressão sobre Mendonça não vem apenas de fora do tribunal. Ministros da Corte avaliam reservadamente que a omissão do relator constrange a instituição e alimenta a percepção de que há dois pesos e duas medidas no STF — um tratamento rigoroso para adversários políticos e uma leniência constrangedora com aliados. O risco, apontam interlocutores do Judiciário, é que a demora em agir transforme a blindagem em cumplicidade por omissão.
A deterioração da confiança pública na imprensa, paradoxalmente, não favorece políticos que atacam jornalistas. De acordo com o Digital News Report 2025 do Reuters Institute, a credibilidade do jornalismo brasileiro caiu para 42%, patamar mais baixo em uma década, contra 62% registrados em 2015. A hostilidade pública de um senador da República contra uma colunista contribui para esse ambiente de descrédito, mas também escancara o desespero de quem não consegue sustentar sua versão diante dos fatos.
Em resposta à escalada de violência contra profissionais da imprensa, o governo federal instituiu, em abril de 2026, um protocolo para investigar crimes contra jornalistas. O documento reconhece que ataques dessa natureza não são crimes comuns, mas violações à liberdade de expressão e ao direito da sociedade de ser informada — exatamente o bem jurídico que se degrada quando um parlamentar usa seu mandato para intimidar repórteres.
O bate-boca com Eliane Cantanhêde revela um senador que ficou sem álibi, encurralado entre o silêncio do relator e o volume de provas que se avoluma. Enquanto André Mendonça não se manifestar sobre as medidas cautelares, a agressão continuará sendo a única resposta pública de Flávio Bolsonaro — e o preço institucional dessa paralisia seguirá sendo pago pela credibilidade do Supremo.


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