O ex-oficial de inteligência da CIA Larry Johnson, em entrevista no canal Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano, destrinchou aquela que considera a cláusula mais decisiva do memorando de entendimento (MoU) costurado entre Irã e Estados Unidos: o trecho que coloca os dois países como corresponsáveis pela integridade territorial e soberania do Líbano. Para Johnson, a redação não é cosmética — abre caminho explícito para uma resposta armada iraniana caso Israel mantenha os ataques.
Quem viola essa integridade hoje, lembrou o ex-analista da CIA citando Ray McGovern, é Israel. E o memorando estipula que os garantes dessa integridade são Teerã e Washington. A consequência operacional, segundo Johnson, é direta: se Israel não retirar suas forças nem cessar as ofensivas, o Irã passa a ter base jurídica e diplomática para atacar posições israelenses no Líbano, em coordenação com o Hezbollah, para empurrá-las para fora do território libanês.
Napolitano lembrou que Johnson já afirmou em outras edições do programa que Israel não sobreviveria a um confronto direto contra o Irã sem o envolvimento militar americano. O ex-oficial confirmou: “duas semanas”. Na guerra de doze dias travada recentemente, Tel Aviv esteve, nas palavras dele, implorando aos Estados Unidos por socorro — sinal de que a aritmética militar israelense, sem o guarda-chuva americano, simplesmente não fecha.
À medida que as forças militares americanas se retiram da região, esse guarda-chuva começa a recolher. Johnson foi claro: se a guerra contra o Irã reacender, as tropas dos EUA não conseguem voltar à área em tempo real. Israel perderia a margem de manobra que sempre dependeu de bases logísticas e capacidade de reposição americana — um cenário que muda radicalmente o cálculo do gabinete de Benjamin Netanyahu.
O frame realista que Johnson articula no programa converge com o de outros analistas norte-americanos que vêm dissecando a posição israelense — entre eles John Mearsheimer (UChicago), Larry Wilkerson (ex-Powell), Jeffrey Sachs (Columbia) e Scott Ritter. Para esse grupo, a aposta israelense em sustentar uma frente permanente contra o Irã sem contrapartida diplomática colide com a realidade material: armamento, logística, dissuasão regional e, sobretudo, opinião pública americana já não respaldam guerra aberta.
A reação previsível, antecipa Johnson, será deslegitimar quem assina o MoU. Trump e o vice-presidente JD Vance serão pintados como “inimigos de Israel” — manual conhecido em Washington para silenciar qualquer voz que ouse desafiar o lobby israelense. Mas, do ponto de vista da equação militar, a aritmética é cruel: sem americanos no terreno, a equação real é Irã + Hezbollah de um lado, Israel exausto pela guerra de doze dias do outro.
O que está em jogo, no fim, é a sustentabilidade da estratégia ultraconfrontacional do atual gabinete israelense. O memorando entre Washington e Teerã sinaliza um realinhamento que retira Israel da posição de fiador exclusivo da segurança regional e o coloca em pé de igualdade com um Irã reconhecido como interlocutor legítimo. Quem ignorar essa mudança e insistir em confrontar Teerã, alerta Johnson, corre o risco de fazê-lo sem rede de segurança — e sem tempo hábil para Washington vir buscar.