Flavio Bolsonaro ignora herança fiscal de seu pai e diz que Lula é pior que uma guerra

24/06/2019 Reunião com Wilson Witzel, Governador do Estado do Rio de Janeiro; Senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ); Chase Carey, Diretor Executivo da Fórmula 1; e José Antonio Pereira Junior, Presidente da Rio Motorsports. (Foto: Palácio do Planalto), em Brasília, em 24 de junho de 2019. Foto: Foto: Carolina Antunes/PR.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, declarou nesta segunda-feira (22 de junho) que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ‘faz mais mal ao país do que a guerra entre Rússia e Ucrânia’. A fala, proferida durante evento em Brasília, foi registrada pelo Poder360 e representa mais um lance da campanha de hiperbolização que a extrema-direita adotou para tentar esconder os danos causados pela própria gestão de Jair Bolsonaro (PL) entre 2019 e 2022.

Flávio Bolsonaro sustentou que a taxa de juros brasileira, hoje entre as mais altas do planeta, só não supera a da Rússia — país que enfrenta um conflito armado de grandes proporções há mais de três anos. O raciocínio, porém, desmorona diante da realidade econômica: a Selic elevada não nasceu no governo Lula, mas sim da combinação explosiva entre desequilíbrio fiscal crônico, desmonte institucional e sucessivas crises de credibilidade acumuladas ao longo do mandato de seu pai.

A inflação que o Brasil combate hoje foi semeada durante a pandemia, quando o governo Bolsonaro promoveu uma gastança eleitoreira sem contrapartida fiscal. Foram mais de R$ 500 bilhões em medidas emergenciais descoordenadas, renúncias fiscais sem critério e um teto de gastos estourado por pedaladas orçamentárias. O Banco Central, cuja autonomia formal foi concedida exatamente naquela gestão, passou a reagir com juros altos a um quadro de incerteza que o próprio Executivo da época ajudou a construir.

Comparar os efeitos da Selic com a devastação de uma guerra — que já matou centenas de milhares de pessoas, deslocou milhões e destruiu cidades inteiras no leste europeu — não é apenas uma distorção grosseira. É um insulto deliberado à inteligência do eleitor, moldado para alimentar o ressentimento da militância bolsonarista e criar um clima de caos permanente que favorece o radicalismo político.

O senador do PL-RJ, no entanto, evita mencionar que a própria legenda foi uma das principais patrocinadoras da crise fiscal que agora aponta como drama nacional. O partido comandou o Ministério da Economia por quatro anos e deixou como legado um rombo fiscal estrutural, uma dívida pública que beirou 80% do PIB e uma série de calotes contra credores do setor produtivo — tudo sob a retórica vazia de ‘responsabilidade fiscal’.

Enquanto o bolsonarismo encena indignação com os juros altos, é útil lembrar que a Rússia, citada na comparação de Flávio, enfrenta uma taxa básica de 16% ao ano — em parte porque conseguiu preservar fundamentos macroeconômicos sólidos, reservas internacionais robustas e um superávit comercial expressivo mesmo sob sanções do Ocidente. O Brasil, por outro lado, ainda paga o preço de anos de irresponsabilidade e sabotagem das contas públicas.

A estratégia retórica de Flávio Bolsonaro é conhecida: deslocar o debate da realidade para o terreno da emoção, onde fatos perdem relevância diante do grito de guerra. Ao superdimensionar os problemas do governo Lula — que, apesar das dificuldades, conseguiu reduzir o desemprego a mínimas históricas, aprovar a reforma tributária e retomar programas sociais —, o pré-candidato busca unificar sua base em torno do inimigo comum e desviar a atenção dos escândalos que perseguem o clã Bolsonaro, como as investigações sobre o Banco Master e as articulações do PL com milícias digitais.

Também não é coincidência que o discurso tenha sido desferido justamente no momento em que o governo federal anuncia novos investimentos em infraestrutura, amplia o Bolsa Família e colhe resultados positivos da retomada da política industrial. A reação do bolsonarismo é inversamente proporcional ao medo de que Lula consolide um ciclo de crescimento com inclusão social, o que isolaria definitivamente a extrema-direita no campo da pura demagogia.

O choque de realidade que Flávio Bolsonaro tenta evitar é simples: a Selic alta não decorre de um suposto ‘mal’ intrínseco do governo Lula, mas de um passivo fiscal monumental deixado por quem hoje posa de fiscal da pátria. A inflação que o Banco Central combate é, em larga medida, produto de um ambiente de desconfiança semeado justamente por aqueles que, agora, exploram o sofrimento do crédito caro para inflamar o discurso de ódio.

Ao comparar um governo democraticamente eleito a uma guerra de agressão, Flávio Bolsonaro não apenas desrespeita a liturgia do cargo de senador. Ele rebaixa o debate público a um nível de irracionalidade que serve unicamente aos interesses de uma família política que, sem poder real, só sobrevive da fabricação incessante de crises imaginárias.

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