A produção de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, voltou ao centro de uma teia de suspeitas que mistura dinheiro público, contratos de tecnologia, investigação criminal e possíveis vínculos com o PCC. O novo capítulo envolve uma empresa contratada pelo Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, também dona da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme.
Segundo a investigação revelada pelo G1, um dos sócios da empresa contratada pelo instituto é apontado pelo Ministério Público de São Paulo como integrante do PCC e está preso por feminicídio. A defesa nega ligação com a facção. A entidade, por sua vez, afirma que desconhecia os supostos vínculos do empresário.
O caso amplia a crise em torno da estrutura empresarial e associativa ligada ao filme sobre Bolsonaro. O Instituto Conhecer Brasil já era alvo de apurações sobre contratos com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades periféricas. A Polícia Civil investiga suspeitas de irregularidades, sobrepreço e pagamentos antecipados. Em uma das frentes, apura-se se os valores contratados ficaram muito acima dos parâmetros de mercado.
O ponto politicamente sensível é que a investigação deixa de tratar apenas de um contrato administrativo e passa a encostar em um ambiente mais grave: a possível presença de personagens ligados ao crime organizado em uma cadeia de contratação envolvendo uma entidade associada à produtora do filme bolsonarista.
A Go Up Entertainment ganhou projeção nacional justamente por anunciar Dark Horse, apresentado como uma cinebiografia internacional de Jair Bolsonaro. O projeto, porém, passou a ser cercado por questionamentos sobre financiamento, estrutura empresarial e conexões com organizações sem histórico consolidado no mercado cinematográfico.
A entrada do nome de um investigado por ligação com o PCC nesse circuito eleva o desgaste. Não significa, por si só, que a produtora ou o instituto tenham participação em crimes atribuídos ao empresário. Mas expõe uma fragilidade central: a ausência de filtros rigorosos em contratos envolvendo dinheiro público, organizações privadas e projetos politicamente sensíveis.
O caso também pressiona a Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes, porque os contratos investigados envolvem políticas públicas municipais. A gestão afirma que a relação jurídica era com o instituto e que a empresa subcontratada não atua no projeto desde 2025.
Ainda assim, a sucessão de revelações transforma Dark Horse em algo maior do que um filme. A obra, planejada para construir uma narrativa heroica em torno de Bolsonaro, acabou sendo arrastada para um enredo de suspeitas sobre uso de recursos públicos, subcontratações nebulosas e possíveis conexões com personagens do submundo criminal paulista.
No centro da apuração está uma pergunta decisiva: como uma entidade ligada à produtora de uma cinebiografia política chegou a contratar uma empresa associada a um homem apontado pelo Ministério Público como integrante do PCC?
Enquanto essa resposta não aparece, o caso se consolida como mais um capítulo incômodo para o bolsonarismo — e como um alerta sobre a zona cinzenta entre propaganda política, contratos públicos e estruturas privadas pouco transparentes.