A presença militar do EUA no Golfo Pérsico

Artigo sustenta que o conflito com o Irã evidenciou vulnerabilidades das bases militares dos EUA e reacendeu o debate sobre sua eficácia estratégica.

Por João Claudio Platenik Pitillo

A fracassada “Operação Fúria Épica” reacendeu o debate sobre o valor estratégico das bases militares estadunidenses no Oriente Médio. Durante a guerra, o Irã atacou pelo menos 20 instalações militares estadunidenses em oito países, causando danos significativos e forçando as tropas ianques a se realocarem em hotéis e prédios de escritórios por toda a região. Teerã danificou ou destruiu pelo menos 228 estruturas e equipamentos militares, incluindo hangares, quartéis, aeronaves, depósitos de combustível e sistemas de defesa aérea. A guerra com o Irã ressaltou uma realidade simples, a expansão militar dos EUA no Oriente Médio é contraproducente.

A forte presença militar dos Estados Unidos no Oriente Médio é um fenômeno relativamente recente. Ela foi construída em paralelo com o aumento da relação política da Casa Branca com as monarquias do petróleo, principalmente depois da guerra contra o Iraque. Os níveis de tropas estadunidenses flutuaram ao longo das décadas, mas hoje os EUA mantêm uma média de 40.000 a 45.000 militares em bases conhecidas na Ásia Ocidental.

Os defensores de uma presença estadunidense significativa na região do Golfo Pérsico, geralmente a justificam citando dois interesses-chave de Washington: garantir o fornecimento ininterrupto de petróleo e impedir a ascensão de uma potência hegemônica regional. No entanto, nenhum desses objetivos exige uma presença militar direta dos EUA na região. Foi justamente a “Operação Fúria Épica” que desencadeou o cenário de crise petrolífera mais perigosa dos últimos tempos. Teerã fechou efetivamente o Estreito de Ormuz, interrompendo 20% do fornecimento global. Fazendo fracassar os objetivos primazes do EUA na região.

Mais importante ainda, essa interrupção sem precedentes foi resultado direto da decisão estadunidense de atacar o Irã. Teerã fechou o estreito como último recurso, concluindo que sua sobrevivência estava em risco. No entanto, Washington não estava disposto a arcar com os enormes custos de tentar abrir à força essa via navegável, já que seus interesses não foram diretamente afetados. O EUA partilhou o seu fracasso com o Ocidente Coletivo, transferindo para ele parte do peso de suas consequências.

Seguindo essa “lógica do petróleo”, Washington há muito acredita que o surgimento de uma potência hegemônica regional na Ásia Ocidental poderia criar uma ameaça à segurança em longo prazo. Sendo assim, os argumentos para manter uma presença militar na região baseiam-se na crença de que as tropas estadunidenses são uma força estabilizadora, dissuadindo potenciais agressores. Mas essa afirmação também se mostra falsa.

Não há nenhuma potência hegemônica na Ásia Ocidental até o momento, porque nenhum ator individual possui a influência política, econômica e militar combinada necessária para garantir tal domínio. Isso é uma realidade que independe de os EUA estarem presentes na região ou não. A região é politicamente fragmentada, economicamente dispersa e sua geopolítica dificulta a centralização. Nenhum país da região possui poder militar suficiente para superar essas barreiras e subjugar seus rivais. Assim, a hegemonia regional permanecerá fora do alcance de qualquer Estado da Ásia Central por um bom tempo.

Isso também se aplica ao Irã. A República Islâmica carece de penetração política, de riqueza econômica e da superioridade militar necessárias para hegemonizar a regional. A “Operação Fúria Épica” não alterou essa realidade. Certamente, o Irã demonstrou sua capacidade de resistir à enorme pressão, exercer influência no Estreito de Ormuz e impor custos significativos ao agressor, forçando Washington a mudar de rumo. Mas, a capacidade de resistir à coerção não é o mesmo que a capacidade de dominar a região. Teerã permanece politicamente isolada e sob o peso de restrições econômicas muito duras, impostas pelo Ocidente Coletivo.

O atual conceito militar-estratégico do EUA privilegia o uso da força militar como primeira opção, e não como última. Ao constituir uma rede de bases militares na região do Golfo Pérsico, o EUA eliminou inúmeros problemas logísticos e políticos, que poderiam complicar ou mesmo dificultar as suas ações militares. Tal coisa favorece a política estadunidense de coerção em detrimento da diplomacia. Como resultado, os Estados Unidos frequentemente iniciam ou intervêm diretamente em guerras desnecessárias por toda a Ásia Ocidental se estendendo até o Norte da África. Isso pode ser dito de praticamente todos os principais conflitos recentes na região: Níger, Nigéria, Somália, Líbia, Iêmen, Iraque, Síria, Líbano e Irã.

A extensa e antiga presença militar estadunidense na região do Golfo Pérsico arrasta Washington para conflitos que poderiam ser evitados. Isso limita a flexibilidade estratégica, muitas vezes resultando em uma reação dos Estados Unidos aos eventos à medida que surgem e se desenrolam. Os parceiros de Washington reconhecem isso e frequentemente agem de forma mais arriscada do que agiriam na ausência dos Estados Unidos, confiantes de que o EUA os protegerão das consequências. Os resultados da “Operação Fúria Épica” devem levar a uma reavaliação há muito esperada da presença militar dos EUA na Ásia Ocidental, não só pelos próprios estadunidenses, mas também por aqueles que hospedam essas bases.

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

 

 

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