Escândalo do “Dark Horse” ganha nova camada: deputado pede ao STF investigação sobre elo entre financiadores do filme e o PCC

REPRODUÇÃO

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou nesta terça-feira (7) um pedido ao Supremo Tribunal Federal para que seja apurada uma possível conexão entre a estrutura financeira que bancou a produção do filme Dark Horse — cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada pelo ator americano Jim Caviezel — e uma empresa apontada pela Polícia Civil de São Paulo como parte de uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

O fio que liga o “laranja” de pipas ao esquema

Segundo apurou a colunista Andreza Matais, do Metrópoles, o pedido de Lindbergh se apoia num repasse de R$ 26 milhões identificado pela Operação Saturno, do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc): a Entre Investimentos — empresa já no centro das investigações sobre o financiamento do filme — transferiu esse valor para a ACX ITC Tecnologia, companhia que a Polícia Civil aponta como peça de uma rede de lavagem ligada à facção. A ACX está formalmente registrada em nome de um vendedor de pipas e rabiolas que, em depoimento, admitiu ter atuado como “laranja” da empresa em troca de R$ 5 mil.

A investigação estadual sobre esse repasse específico será incorporada à Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que já apura o Banco Master — sinal de que as duas apurações, embora tratem de fatos distintos, convergem para o mesmo núcleo empresarial: o da Entre Investimentos.

Lindbergh pediu ainda que o STF determine ao Coaf, ao Banco Central, à Receita Federal e à própria Polícia Federal o levantamento de dados fiscais e financeiros da ACX ITC, da Entre Investimentos, das empresas ligadas ao projeto Dark Horse, do Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro e de Antônio Carlos Freixo Júnior — o “Mineiro”, sócio da Entre que aparece nas mensagens interceptadas de Vorcaro como intermediário das transferências.

Para quem não acompanhou: como um filme sobre Bolsonaro virou o centro do maior escândalo bancário do país

Vale reconstruir a cronologia para dimensionar a gravidade do episódio de hoje. Em maio, o Intercept Brasil revelou áudios e documentos mostrando que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou diretamente com Daniel Vorcaro — então dono do Banco Master, hoje preso — um financiamento de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões à época) para a produção de Dark Horse. Do valor total negociado, ao menos US$ 10,6 milhões (aproximadamente R$ 61 milhões) já teriam sido efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025.

O caminho do dinheiro é o que torna o caso tão complexo: os recursos saíram da Entre Investimentos — que nega qualquer vínculo societário com Vorcaro — e foram enviados, via transferências internacionais registradas no sistema SWIFT, ao Havengate Development Fund LP, um fundo sediado no Texas controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram o corretor de imóveis Altieris Santana como outro nome ligado ao fundo. A suspeita central levantada por investigadores é que esse dinheiro, batizado nas mensagens internamente de “Filme!”, pode ter sido usado também para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde vive desde que passou a ser alvo de investigações no Brasil.

Em uma das mensagens obtidas pela reportagem, Flávio chegou a escrever a Vorcaro: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. Questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento, o senador inicialmente negou tudo, mas depois, em entrevista à GloboNews, admitiu que o dinheiro havia sido repassado ao fundo administrado pelo advogado do irmão — reconhecendo, na sequência, ter mentido anteriormente ao negar qualquer relação com o ex-controlador do Master, alegação que atribuiu a uma cláusula de confidencialidade.

Vorcaro foi preso em novembro de 2025, acusado de comandar um esquema de fraude que provocou um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito — a mesma estrutura que protege depósitos bancários dos brasileiros. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central logo em seguida. A produtora do filme, GoUp, e o próprio deputado federal Mário Frias, corroteirista da obra, chegaram a negar publicamente ter recebido qualquer valor de Vorcaro — versão que se tornou insustentável diante dos documentos bancários revelados posteriormente.

Um caso que já tramita no STF — e que ganha nova frente com o PCC

O episódio de hoje não é o primeiro pedido de investigação relacionado ao caso: em maio, Lindbergh já havia apresentado notícia-crime pedindo que a apuração sobre o financiamento do filme fosse tratada como extensão do processo que condenou Eduardo Bolsonaro por integrar a trama golpista contra o Brasil nos Estados Unidos — pedido que acabou sob análise do presidente do STF, Edson Fachin, em meio a uma disputa interna da própria Corte sobre quem teria condições de relatar o caso, dado o número de ministros com algum grau de proximidade a investigados ligados ao escândalo do Master.

O novo elemento levantado agora — a suspeita de que uma das empresas do mesmo grupo financeiro também movimentou recursos para uma rede de lavagem de dinheiro associada ao PCC — eleva o caso a um patamar ainda mais sensível: não se trata mais apenas de uma investigação sobre financiamento eleitoral ou uso de recursos de um banco fraudulento para custear uma cinebiografia, mas de uma possível conexão, ainda a ser apurada, entre essa mesma engrenagem financeira e o crime organizado.

Procurados pela reportagem original na semana passada e novamente nesta terça-feira, a Entre Investimentos, a ACX ITC Tecnologia, o gabinete do senador Flávio Bolsonaro e a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestaram até a publicação. A reportagem seguirá acompanhando os desdobramentos.

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