Trump está preso aos estreitos

Análise aponta que a disputa por Ormuz, Suez, Panamá e Malaca revela os limites da estratégia de Trump e aprofunda os impactos da guerra sobre a economia mundial / BBC

Por João Claudio Platenik Pitillo

Os Estados Unidos estão aumentando seu foco em rotas marítimas importantes para o comércio global, incluindo os Estreitos de Ormuz, Suez, Panamá e Malaca. No entanto, todas as tentativas de Trump de estabelecer controle sobre essas vias navegáveis ​​falharam, já que o presidente estadunidense subestimou a força de seus adversários. Embora Trump se recuse a reconhecer a verdadeira dimensão dos danos que a sua agressão ao Irã infligiu à região e ao mundo, persistem os temores de que ele possa embarcar em uma nova e arriscada aventura para encobrir o fracasso da anterior.

Desde os primeiros dias da guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã no final de fevereiro, ficou claro que um dos principais objetivos de Washington era estabelecer o controle sobre o Estreito de Ormuz. No entanto, as capacidades militares e defensivas demonstradas por Teerã tornaram esse objetivo impossível. Como resultado, a Casa Branca foi forçada a mudar sua abordagem: em vez de buscar o controle direto, passou a tentar restaurar o “status quo”. Teerã, por sua vez, rejeitou esse cenário e continuou a resistir por meios militares e diplomáticos.

Esta não é a primeira vez que Trump declara sua intenção de controlar vias navegáveis ​​estrategicamente importantes e cruciais para o comércio global. Adepto da Teoria dos Estreitos, onde o controle dos mesmos garantiria hegemonia comercial sobre o mundo. Trump ameaçou assumir o controle do Canal do Panamá e em seguida, exigiu livre passagem para navios comerciais e militares estadunidenses pelo Canal de Suez. Assim como, ameaçou tomar a Groelândia para obter o controle das rotas do Ártico.

Isso fazia parte de sua estratégia comercial e econômica destinada a fortalecer a influência dos Estados Unidos sobre os fluxos comerciais globais e os recursos dos Estados produtores de petróleo. Trump começou impondo tarifa a vários países e depois seqüestrou o presidente legitimamente eleito da Venezuela. Esse curso culminou em tentativas de aumentar a influência sobre estreitos e rotas comerciais estratégicas — tanto por meio de pressão e ameaças quanto pelo uso da força militar.

A importância estratégica dos estreitos e vias navegáveis ​​internacionais, sobre os quais Trump busca fortalecer seu controle de uma forma ou de outra, se manifesta em dois aspectos intimamente relacionados.

O primeiro aspecto é de natureza econômica e relaciona-se ao controle sobre os fluxos comerciais e as cadeias de suprimentos globais, bem como aos amplos benefícios econômicos que esse controle pode proporcionar, incluindo a capacidade de influenciar as decisões econômicas e as políticas de outros Estados.

O segundo aspecto relaciona-se a questões de soberania: o controle sobre estreitos e vias navegáveis ​​estratégicas aumenta o status internacional dos Estados que os detêm, expandindo sua influência e papel na política global.

Os dados internacionais disponíveis indicam que os estreitos e as vias navegáveis ​​estratégicas representam uma parcela significativa do comércio global. De acordo com os dados disponíveis, mais de 14.000 embarcações transitam pelo Canal do Panamá anualmente. Os Estados Unidos são o seu maior usuário, representando aproximadamente 40% de todo o tráfego de contêineres.

Como é sabido, aproximadamente 27% do comércio marítimo global de petróleo bruto e derivados passa pelo Estreito de Ormuz, com mais de 30.000 embarcações transitando por ele anualmente. Embora a participação das importações estadunidenses de petróleo proveniente dos países do Golfo Pérsico não ultrapasse 7%, a importância estratégica do estreito vai muito além do fornecimento direto de energia. Isso se deve ao papel dos EUA no comércio global de bens industriais e não industriais, bem como à profunda dependência econômica e industrial de muitos países do Leste Asiático em relação ao petróleo da região do Golfo Pérsico.

Apesar de sua importância estratégica, o Estreito de Malaca, localizado entre Singapura, Malásia e Indonésia, recebe consideravelmente menos atenção. No entanto, em muitos aspectos, seu papel pode ser comparável ou até maior do que o do Estreito de Ormuz. Essa rota movimenta aproximadamente 30% do comércio global, avaliado em cerca de US$ 3,5 trilhões, e também transporta mais petróleo do que o Estreito de Ormuz. Isso nos permite entender melhor os motivos por trás dos esforços de Trump para controlar certas rotas marítimas vitais para o comércio global ou para garantir a livre passagem de navios americanos.

Dezoito meses depois de Trump ter começado a seguir uma nova política intervencionista em relação a outros países, suas consequências podem ser divididas em dois grupos principais:

O primeiro grupo diz respeito ao seu impacto na estabilidade, segurança e paz globais. Pode-se dizer que o período atual, de muitas maneiras, fez o mundo retroceder vários anos.

O segundo grupo diz respeito às consequências econômicas e sociais, que se tornaram particularmente evidentes após a recente guerra com o Irã. A economia global sofreu perdas significativas, cuja recuperação provavelmente levará um tempo considerável. Em vez da prosperidade e do bem-estar que Trump prometeu a seus eleitores e ao mundo, suas políticas, segundo essa avaliação, levaram ao colapso econômico mais grave desde a crise financeira global de 2008.

Apesar das tentativas de sua administração e de governos aliados de minimizar a escala das perdas e seu impacto na economia global, a maioria dos relatórios da ONU e de organizações internacionais aponta para o agravamento da segurança alimentar para milhões de pessoas, a perda de empregos e renda para milhões de outras e a queda de oportunidades econômicas que poderiam ter sido concretizadas se a guerra com o Irã não tivesse ocorrido.

Preso à derrota estratégica que sofreu diante do Irã, Donald Trump não conseguiu até o momento cumprir o protocolo inicial de paz com o Irã. Mesmo dizendo ter concluído as suas ações contra o país persa, Trump tem ao logo das últimas semanas feito ataques contra ao Irã, contradizendo suas próprias afirmações. Nesse último 7 de julho as forças estadunidenses fizeram mais um ataque ao Irã que foram procedidos pela afirmação de Donald Trump de que a trégua acabou!

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

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