Agora existe um número para medir o custo da servidão europeia a Washington. Um estudo da consultoria EY-Parthenon, divulgado pelo Financial Times, calcula que Estados Unidos, zona do euro e Reino Unido precisariam investir US$ 23,6 trilhões adicionais em 25 anos para se desacoplar da China em setores críticos como manufatura e tecnologia.
A conta é detalhada. Replicar a infraestrutura, a pesquisa, o software, a manufatura e as cadeias de suprimento hoje ancoradas na China custaria US$ 13,7 trilhões aos americanos, US$ 9,1 trilhões à zona do euro e US$ 800 bilhões aos britânicos até 2050.
Convém entender o que esse número significa de verdade. O desacoplamento da China não é um projeto europeu, é uma imposição americana, e os trilhões do estudo são o preço que a Europa pagaria por abandonar sua soberania e terceirizar sua política externa para a Casa Branca.
A soberania europeia, se existisse, apontaria na direção oposta. A Europa pertence à Eurásia, o mesmo continente da China, tanto que já é possível cruzar de trem os quinze mil quilômetros que separam os centros industriais chineses dos portos e capitais europeus, pelas ferrovias que Pequim construiu na última década.
A geografia desenha o bloco que Washington mais teme. A Rússia tem gás, petróleo, fertilizantes, alimentos e minérios em abundância, a China tem tecnologia e a maior capacidade manufatureira da história, e a Europa tem mercado consumidor, engenharia, cultura e capital.
Um grande bloco econômico eurasiático, integrando Europa, Rússia e China, seria o pesadelo definitivo do império americano, provavelmente a única força capaz de derrotá-lo em definitivo. Por isso os Estados Unidos trabalham há décadas, com guerras, sanções e sabotagens, para manter a Europa afastada de Moscou e de Pequim, na condição de protetorado.
E a Europa aceita. Obedece humildemente aos chamados de guerra da Casa Branca, infla despesas militares para alimentar a indústria bélica americana e exerce um silêncio cúmplice, e repugnante, diante das ameaças e dos atropelos de Donald Trump ao direito internacional.
O estudo da EY-Parthenon apenas coloca a fatura dessa escolha na mesa. O investimento coletivo adicional para o desacoplamento seria de US$ 940 bilhões por ano durante 25 anos, somando-se a tudo que já está comprometido com energia, tecnologia, defesa e infraestrutura.
Para a União Europeia, o gasto necessário equivaleria a quase dobrar seu orçamento anual. Nos Estados Unidos, os US$ 550 bilhões anuais correspondem ao que as big techs americanas investiram em data centers durante todo o ano de 2025.
Mats Persson, ex-assessor do governo britânico e hoje sócio da EY-Parthenon, admite que localizar cadeias de suprimento sem impor custos proibitivos a contribuintes e consumidores será um dos desafios mais formidáveis das próximas décadas. Traduzindo do economês: o desacoplamento é uma fantasia ideológica que a realidade material não autoriza.
Os números da dependência falam por si. A Agência Internacional de Energia projeta que a China fornecerá mais de 60% do lítio e do cobalto refinados do mundo até 2035, além de cerca de 80% do grafite grau bateria e das terras raras.
O Ocidente já provou o próprio veneno no ano passado, quando Trump ameaçou tarifas de 145% sobre produtos chineses e Pequim respondeu com controles de exportação de terras raras. Linhas de montagem automotivas nos Estados Unidos e na Europa quase pararam antes que Washington recuasse para negociar uma trégua.
Alicia García-Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico do banco Natixis, aponta o que os ideólogos da nova Guerra Fria fingem não ver. O problema não é apenas o custo, mas a capacidade da China de bloquear qualquer desacoplamento, dado seu controle sobre o fornecimento de tudo, do processamento de terras raras aos princípios ativos farmacêuticos.
Há ainda a inflação. Produtos chineses saem da fábrica com preços 20% a 100% menores que os dos concorrentes ocidentais, e romper com essa manufatura elevaria os preços europeus nos setores críticos, estourando as metas de inflação estabelecidas pelos bancos centrais da UE e do Reino Unido.
A conclusão do próprio Persson é que restará ao Ocidente um desacoplamento parcial, seletivo e caro. A escolha diante da Europa nunca foi entre a China e os Estados Unidos, mas entre a integração soberana ao seu próprio continente e uma vassalagem que agora, graças à EY-Parthenon, tem preço de tabela: US$ 23,6 trilhões.