A crise que já rendeu duas versões contraditórias sobre a saída de Leandro Demori do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) ganhou nesta segunda-feira (14) uma terceira camada. Em entrevista ao canal Galo Preto, o jornalista Luis Costa Pinto, integrante da equipe do ICL, ofereceu um relato que reforça a versão do fundador Eduardo Moreira, mas com detalhes adicionais sobre o que teria motivado o rompimento.
Um salário alto que vinha com responsabilidades de gestão
Segundo Costa Pinto, o problema não estava relacionado à qualidade do trabalho jornalístico de Demori, mas a atribuições administrativas que fariam parte do cargo de diretor de Jornalismo e que, segundo ele, deixaram de ser cumpridas durante o processo de reestruturação da empresa — motivado, segundo a versão de Moreira, por prejuízos financeiros acumulados neste ano. Costa Pinto afirma que, no momento em que o ICL iniciou o corte de custos, Demori foi convocado a definir e depois executar a nova estratégia administrativa da área de jornalismo — e que a saída partiu do próprio Demori, ao recusar assumir esse papel executivo.
“Redação não é democracia”
Ao comentar de forma mais ampla o funcionamento de redações jornalísticas, Costa Pinto expôs uma visão hierárquica da profissão: “Redação não é democracia. Na melhor das hipóteses, redação é uma monarquia parlamentarista”. Para ele, toda organização de imprensa opera sob uma linha editorial e uma filosofia empresarial que os profissionais precisam respeitar — argumento usado para sustentar que funções de gestão, mesmo dentro de uma redação, não são negociáveis simplesmente porque o profissional prefere se concentrar apenas na atividade jornalística.
Costa Pinto também rejeitou a leitura de que o episódio revele uma crise mais profunda na condução do ICL, argumentando que a instituição segue reunindo um grupo de jornalistas relevantes.
Três versões, cada vez mais distantes uma da outra
O relato de Costa Pinto se soma a duas narrativas já divergentes: a de Demori, que diz ter sido retirado do ar por decisão unilateral da direção após receber a ordem de cortar 30% do orçamento da própria área de jornalismo; e a de Eduardo Moreira, que atribui o desligamento a dificuldades financeiras da empresa, agravadas pelo alto custo de publicidade digital nas big techs. A versão de Costa Pinto tenta unir as duas pontas: reconhece a reestruturação financeira citada por Moreira, mas atribui a saída de Demori a uma escolha pessoal de não assumir a função executiva que o cargo exigiria diante desse cenário — não a uma decisão arbitrária da cúpula da empresa.
O episódio, que já teria rendido solidariedade pública de nomes como o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, ao próprio Demori, ilustra como disputas de bastidores em veículos de jornalismo independente tendem a se tornar públicas e contestadas peça por peça — cada personagem envolvido oferecendo sua própria versão dos fatos, num processo que, à medida que se arrasta, deixa mais dúvidas do que certezas sobre o que de fato motivou o rompimento.