Governo Lula diz que acordo com Trump é “quase nenhum” diante das exigências sobre Pix e Etanol

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A um dia da data prevista para o anúncio da decisão americana sobre a nova etapa do tarifaço, o governo Lula (PT) admite que a chance de um acordo com os Estados Unidos antes do prazo é praticamente nula. Segundo apuração da Folha de S.Paulo junto a autoridades envolvidas nas negociações, Brasília se recusa a fazer concessões em dois temas que classifica como estratégicos para a soberania econômica do país: o Pix e o etanol.

“Não vai ter tarifaço” — mas a diplomacia técnica discorda do otimismo do próprio presidente

Questionado sobre o risco da sobretaxa durante um evento em São José dos Campos, Lula respondeu com confiança: “não vai ter tarifaço”. O tom contrasta, porém, com a avaliação mais sóbria transmitida por seus próprios ministros à imprensa. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, foi direto ao resumir o cenário: “a expectativa de um acordo é quase nenhuma, ou nenhuma mesmo” — atribuindo a dificuldade tanto ao prazo apertado quanto às exigências americanas, que o governo considera abusivas e incompatíveis com a realidade das relações comerciais entre os dois países.

Os dois pontos inegociáveis

A investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), baseada na Seção 301 da legislação comercial americana, recomendou uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros — embora o relatório inclua uma lista extensa de mercadorias que poderiam ficar de fora da nova taxação. O impasse mora exatamente nos itens que Washington quer negociar e Brasília recusa discutir: o Pix, tratado pelo governo como política pública soberana de inclusão financeira e não como prática comercial discriminatória; e o etanol, cuja liberação tarifária o Brasil só aceita debater em conjunto com a revisão das barreiras americanas contra o açúcar brasileiro — item que afeta diretamente a economia nordestina, região que concentra boa parte da produção sucroenergética do país.

A ironia do timing: Flávio já havia oferecido o que o governo recusa

É aqui que o episódio ganha uma camada de contradição política difícil de ignorar. Enquanto o Planalto trata Pix e etanol como linhas vermelhas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, já havia encaminhado ao próprio USTR uma proposta de acordo “zero a zero” sobre etanol e açúcar — eliminação recíproca das tarifas entre os dois países — semanas antes desta reta final de negociação. O governo reagiu classificando a movimentação como interferência indevida de um parlamentar em uma negociação que é prerrogativa do Poder Executivo, e emitiu nota de repúdio formal contra a atuação do senador.

O contraste entre as duas posturas resume a disputa de narrativas que já vem sendo travada há semanas: enquanto Brasília tenta se apresentar como defensora intransigente da soberania econômica em pontos estratégicos, Flávio construiu, em Washington, a imagem de quem estaria disposto a ceder justamente onde o governo brasileiro recusa — ao mesmo tempo em que pede publicamente que a decisão final seja adiada para depois das eleições de outubro, argumento que o próprio Planalto já usou para reforçar a tese de que a interferência do senador tem motivação política, não comercial.

O que vem depois do prazo

Caso a sobretaxa de 25% seja confirmada nesta quarta-feira (15) sem uma ampliação relevante da lista de exceções, o governo brasileiro sinaliza que pode acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, em vigor desde o ano passado, que permite ao país adotar medidas proporcionais contra nações que imponham barreiras comerciais consideradas injustificadas. A orientação dentro do Planalto é manter o canal diplomático aberto — inclusive com uma possível conversa de última hora com o representante comercial americano, Jamieson Greer —, mas sem qualquer concessão nos dois pontos que o governo já classificou publicamente como inegociáveis.

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