ASML pretende ampliar em 30% a capacidade de produção de suas máquinas EUV para acompanhar os investimentos da indústria de tecnologia.
O apetite do mundo por poder computacional de inteligência artificial não para de crescer, e isso já se traduz em números concretos para quem fabrica as máquinas por trás dos chips mais avançados do planeta. Nesta quarta-feira, a ASML, gigante holandesa de equipamentos para produção de semicondutores, elevou sua previsão de vendas anuais pela segunda vez neste ano.
Segundo a companhia, a expectativa agora é fechar o ano com vendas líquidas totais entre € 43 bilhões e € 45 bilhões. Esse patamar supera com folga a projeção anterior dos analistas, que apontava para algo em torno de € 39,6 bilhões, de acordo com dados da S&P Visible Alpha.
Essa nova perspectiva otimista não surgiu do nada. Ela veio logo depois de a ASML reportar um crescimento de 21% nas vendas na comparação anual, alcançando € 9,3 bilhões apenas no segundo trimestre. Esse resultado já superou as previsões do mercado, puxado principalmente pela atualização de equipamentos já existentes nas fábricas dos clientes.
Além disso, o lucro líquido da empresa somou € 2,9 bilhões no período, também acima da estimativa dos analistas, que esperavam algo próximo de € 2,6 bilhões. Ou seja, tanto a receita quanto a lucratividade vieram acima do previsto, reforçando a força do momento vivido pela companhia.
Empresa aposta em expandir produção de máquinas de ponta
Christophe Fouquet, CEO da ASML, revelou planos ambiciosos para acompanhar essa demanda crescente. Segundo ele, a empresa pretende aumentar em 30% a capacidade de produção de suas máquinas de litografia ultravioleta extrema, conhecidas como EUV, já no próximo ano. Além disso, a companhia também avalia repetir um aumento parecido em 2028.
Fouquet foi ainda mais direto ao comentar a carteira de pedidos da empresa. Segundo ele, a ASML já está “perto de [receber] todos os pedidos de EUV de que precisamos para 2027”. Essa fala, por si só, mostra o tamanho da fila de clientes disputando acesso a essas máquinas essenciais para a fabricação de chips modernos.
Vale entender por que essa tecnologia importa tanto. A ASML ocupa uma posição praticamente insubstituível no centro da indústria global de semicondutores, o que a transformou na maior beneficiária europeia direta do boom da inteligência artificial. Não à toa, ela também se tornou a empresa mais valiosa de toda a região, com valor de mercado superior a € 600 bilhões.
Contudo, existe um detalhe curioso nessa história: apesar de toda essa relevância estratégica, a ASML consegue fabricar apenas algumas dezenas dessas máquinas complexas por ano. Essa produção limitada, aliás, já preocupa parte do Vale do Silício, que enxerga nesse gargalo um possível entrave ao crescimento acelerado da própria indústria de inteligência artificial — um setor que depende diretamente de chips como as unidades de processamento gráfico fabricadas pela Nvidia.
Memória em alta puxa parte da receita
Fouquet também comentou os fatores que explicam o desempenho recente da empresa. Segundo ele, os resultados do último trimestre refletem a “demanda contínua e muito forte de nossos clientes”, somada à capacidade da ASML de conseguir atender esse volume crescente de pedidos.
Um segmento específico chama atenção nessa equação: os fabricantes de chips de memória. Esse grupo de clientes viu suas ações dispararem nos últimos meses, e agora a projeção é de que a receita da ASML proveniente justamente desses fabricantes cresça 75% neste ano, um salto expressivo mesmo dentro de um mercado já aquecido.
Grandes clientes reforçam sinais de expansão
Os números divulgados pela ASML não vieram isolados. Pelo contrário, eles seguem uma sequência de sinais fortes vindos justamente de dois de seus maiores clientes, ambos divulgados nesta mesma semana.
A Intel, por exemplo, anunciou um investimento de € 5 bilhões destinado a expandir sua capacidade de produção na Irlanda. Já a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, mais conhecida como TSMC, reportou um crescimento de 36% em suas vendas trimestrais, reforçando ainda mais o cenário positivo para toda a cadeia de semicondutores.
Por fim, a ASML também revelou nesta quarta-feira um marco relevante para o setor: a Intel começou a implantar, já em produção, sua mais recente máquina de fabricação de chips, apelidada de “High NA” EUV.
Esse equipamento, vale destacar, custa até US$ 400 milhões por unidade, um valor que só reforça o tamanho dos investimentos que grandes empresas de tecnologia estão dispostas a fazer para não ficar para trás na corrida da inteligência artificial. Enquanto isso, cabe observar que boa parte desses ganhos bilionários segue concentrada em um grupo relativamente pequeno de gigantes tecnológicas, o que levanta debates cada vez mais frequentes sobre como distribuir de forma mais equilibrada os frutos dessa revolução tecnológica entre trabalhadores, consumidores e o restante da economia global.