Menu

Dilma diz que Sul Global não pode ser só “consumidor” de IA

0 Comentários🗣️🔥 A presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco dos BRICS, Dilma Rousseff, defendeu nesta sexta-feira (17), durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai, que os países do Sul Global precisam deixar de ser apenas consumidores de tecnologias de IA desenvolvidas por poucas potências e passar a protagonizar sua […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
DIVULGAÇÃO

A presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco dos BRICS, Dilma Rousseff, defendeu nesta sexta-feira (17), durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai, que os países do Sul Global precisam deixar de ser apenas consumidores de tecnologias de IA desenvolvidas por poucas potências e passar a protagonizar sua própria produção tecnológica. Em entrevista à agência Sputnik, Dilma afirmou que “não podemos permitir que apenas alguns poucos controlem a produção e o desenvolvimento” de toda a tecnologia de inteligência artificial, deixando o restante do mundo relegado ao papel de mero usuário.

A resposta institucional: nasce a WAICO

O discurso de Dilma ecoou o anúncio central feito pelo presidente chinês Xi Jinping na abertura do evento: a criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), sediada em Xangai, com acordo constitutivo já assinado por 29 países fundadores — entre eles o Brasil. A proposta se apoia formalmente nos princípios da Carta das Nações Unidas, com promessa de consultas amplas, investimento conjunto e benefício mútuo, e mira problemas concretos: segurança sistêmica, impacto no mercado de trabalho, decisões automatizadas por algoritmos e redução das desigualdades tecnológicas regionais.

A ironia que merece nota: quem lidera o discurso “antimonopólio”

Vale um contraponto que o entusiasmo diplomático do evento não costuma explicitar: a China, país-sede e principal arquiteta da nova organização, é hoje uma das duas maiores potências tecnológicas do mundo em inteligência artificial — não exatamente um representante neutro do “Sul Global” tentando escapar da dependência tecnológica, mas um dos dois polos que hoje concentram boa parte da produção global de modelos de linguagem, semicondutores e infraestrutura de IA. Isso não invalida o mérito do discurso sobre democratização tecnológica — a China de fato oferece treinamentos técnicos e cooperação com blocos como a Associação de Nações do Sudeste Asiático e a União Africana —, mas é importante notar que a proposta também reforça a posição de Pequim como polo organizador dessa cooperação, e não apenas como doadora desinteressada de tecnologia.

O pano de fundo: guerra comercial de chips entre EUA e China

A criação da WAICO também precisa ser lida dentro do contexto da disputa tecnológica mais ampla entre Washington e Pequim: os Estados Unidos vêm ampliando restrições à exportação de semicondutores avançados para empresas chinesas, sob justificativa de segurança nacional, enquanto a China responde com investimento maciço em pesquisa própria, modelos de código aberto e agora também com uma arquitetura multilateral de governança que ela mesma lidera. A proposta de “multipolaridade tecnológica” defendida por Dilma e por Xi, portanto, é também uma resposta estratégica direta à tentativa americana de conter o avanço chinês — o que não a torna menos legítima como aspiração para países como o Brasil, mas explica por que ela nasce justamente agora, em meio a essa disputa específica.

Um teste real: intenção declarada versus resultado concreto

A pergunta que fica em aberto é a mesma que qualquer novo organismo multilateral de governança tecnológica enfrenta: transformar declarações de intenção — compartilhamento técnico, plataformas abertas, cooperação científica — em ganho real de capacidade tecnológica própria para países como o Brasil, historicamente mais consumidores do que produtores de tecnologia de ponta.

Iniciativas semelhantes em outras áreas, do comércio à governança climática, mostram que esse tipo de arquitetura institucional costuma levar anos para produzir resultados tangíveis, e frequentemente esbarra em interesses distintos entre os próprios países-membros. Se a WAICO vai efetivamente ajudar o Brasil e outros países do Sul Global a deixar de ser apenas consumidores de IA — ou se vai apenas formalizar, sob nova estrutura multilateral, uma relação de dependência tecnológica que simplesmente troca de polo dominante — é algo que só a execução prática do acordo, ao longo dos próximos anos, poderá responder.

Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes