Exportações para China, Europa e Índia crescem seis vezes mais do que o Brasil perdeu com o tarifaço de Trump

O governo Lula (PT) conseguiu compensar, com folga, o prejuízo comercial provocado pelas tarifas americanas contra produtos brasileiros. Segundo levantamento sobre o desempenho recente do comércio exterior e as ações da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), as vendas adicionais para China, Europa e Índia somaram R$ 16,1 bilhões no primeiro semestre — mais de seis vezes o valor perdido nas exportações aos Estados Unidos, que recuaram R$ 2,6 bilhões no mesmo período por conta das tarifas de Donald Trump.

A conta que sustenta o discurso oficial

A relação entre os dois números é o dado central do levantamento: para cada real perdido no mercado americano, o Brasil conseguiu gerar mais de seis reais em vendas adicionais para os três polos comerciais que mais cresceram. É esse resultado que o governo usa para sustentar a tese de que a resposta ao protecionismo de Trump não deveria ser concessão em pontos como Pix e etanol — como já registrado em coberturas anteriores sobre a negociação tarifária —, mas diversificação de parceiros comerciais.

Quem sentiu a tarifa também sentiu o efeito da diversificação

Um dado que dá mais concretude ao argumento: das cerca de 2,4 mil empresas que exportavam para o mercado americano e receberam apoio da ApexBrasil, aproximadamente 72% conseguiram abrir novos mercados ou ampliar vendas para outros países. Ou seja, a maior parte das exportadoras diretamente expostas ao tarifaço não ficou refém do impacto americano — conseguiu, em algum grau, redirecionar produção e receita para outros compradores.

R$ 130 milhões para acelerar a mudança de rota

Para aprofundar esse movimento, a ApexBrasil anunciou um pacote de R$ 130 milhões voltado a apoiar empresas brasileiras na conquista de novos destinos de exportação — recursos que devem financiar participação em feiras internacionais, missões empresariais, certificações e identificação de compradores estrangeiros. O foco declarado inclui União Europeia, China, países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e economias da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão — mercados que, segundo o levantamento, registram taxas de crescimento do PIB na casa de 7% a 8%, bem acima do ritmo de economias mais tradicionais.

Da diplomacia à prateleira: o papel das missões presidenciais

O levantamento credita parte desse resultado à diplomacia mais ativa adotada por Lula desde o início do terceiro mandato — viagens presidenciais, reuniões bilaterais e participação em fóruns como Brics e G20 — combinada a um trabalho mais técnico e menos visível: habilitação de frigoríficos, reconhecimento de certificados sanitários e redução de barreiras técnicas, etapas que precisam ser cumpridas para que acordos políticos se transformem, de fato, em vendas concretas. É esse processo que explica por que a expansão nos mercados asiático e europeu não é resultado apenas de uma viagem ou assinatura de acordo isolada, mas de uma sequência de negociações técnicas construída ao longo de meses.

Uma leitura que merece equilíbrio

Vale o contraponto de sempre a esse tipo de balanço oficial: os números divulgados tratam do primeiro semestre e comparam apenas os efeitos diretos já mensuráveis das tarifas americanas contra o total de novas vendas conquistadas — sem detalhar, por exemplo, se toda a expansão para China, Europa e Índia teria ocorrido de qualquer forma, independentemente do tarifaço, dado o crescimento já observado nesses mercados em outras análises recentes sobre comércio exterior brasileiro. Ainda assim, o dado de que 72% das empresas afetadas conseguiram compensar parte da perda é o elemento mais difícil de contestar: sugere que a política de diversificação, ainda que beneficiada por ventos favoráveis externos como preços elevados de commodities, tem correspondência real na vida concreta de exportadores brasileiros, e não apenas na retórica do governo sobre soberania comercial.

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