Uma revisão das regras de comércio de armas promovida pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos pode ter efeitos que vão muito além das fronteiras americanas — inclusive fortalecendo o arsenal de facções criminosas brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho (CV). A avaliação é de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, num contraste que ironiza a própria decisão do governo americano de classificar as duas organizações como grupos terroristas em maio deste ano — mesma classificação contestada pelo governo Lula (PT), que defende o combate às facções sem esse enquadramento jurídico específico.
O que está mudando nas regras americanas
O Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF), órgão federal responsável pela regulação do setor nos EUA, apresentou no fim de abril um pacote de 34 propostas para flexibilizar a comercialização de armas no país. Entre as mudanças mais discutidas está a possibilidade de liberar a venda online com entrega direta ao comprador, dispensando o comparecimento presencial para a verificação de antecedentes criminais — checagem que passaria a ser feita inteiramente por via digital.
Por que isso preocupa quem monitora o tráfico internacional
Para John Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico, as mudanças propostas “podem, sim, afetar o tráfico internacional” de armas — avaliação que ele fundamenta no fato de os Estados Unidos seguirem entre as principais origens dos fuzis usados por organizações criminosas brasileiras. Um dos métodos mais comuns de desvio é a compra legal de armas em território americano, seguida do envio clandestino ao Brasil escondido em cargas comerciais — prática que a entrega remota sem verificação presencial, segundo o especialista, tende a facilitar ainda mais.
A pergunta que ninguém respondeu ainda: a classificação como terrorista vale para os EUA também?
Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, levanta uma dúvida que expõe a principal fragilidade da medida anunciada por Trump em maio: será que o mesmo esforço de classificar PCC e CV como organizações terroristas vai resultar em sanções concretas a lojas de armas na Flórida, que aparecem com frequência em rastreamentos de armamentos apreendidos no Brasil? Para Langeani, se essas empresas — os “grandes players” do mercado americano — não sofrerem qualquer tipo de sanção, ficará evidente que a medida tem motivação muito mais político-eleitoral do que interesse genuíno em enfraquecer as organizações criminosas.
Como o esquema de desvio costuma funcionar
Matt Schroeder, pesquisador da ONG Small Arms Survey, explica que organizações criminosas costumam recrutar pessoas sem antecedentes criminais para comprar armas legalmente dentro dos Estados Unidos, exportando-as depois de forma clandestina. Para ele, é possível que as novas regras não alterem de forma significativa esse mercado ilegal específico — mas o afrouxamento dos controles sobre exportações legais de armas tende, ainda assim, a aumentar o risco de desvio para o crime organizado internacional.
Os números que mostram a escala do problema no Brasil
Dados do Instituto Sou da Paz mostram que as apreensões de fuzis no país cresceram 167% entre 2021 e 2025, somando 2.152 unidades apenas no ano passado. Entre as armas cuja origem foi identificada entre 2019 e 2023, os Estados Unidos aparecem como principal país fabricante — à frente até da produção nacional brasileira.
A ameaça que já cresce dentro do próprio Brasil
Especialistas alertam, porém, que a fabricação clandestina de fuzis em território brasileiro vem avançando rapidamente e já se tornou, segundo a diretora de Ensino e Pesquisa da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), Michele dos Ramos, “a principal dor de cabeça” das autoridades de segurança pública. Embora essas armas produzidas artesanalmente ainda tenham qualidade inferior aos fuzis importados dos EUA, a diferença vem diminuindo de forma expressiva nos últimos cinco anos — e o custo de fabricação clandestina já é menor do que o de importação ilegal, tornando essa alternativa cada vez mais atrativa para as facções.
Um problema que se soma a outro já conhecido
O episódio se conecta a um debate mais amplo sobre a relação entre Washington e o crime organizado brasileiro: a mesma classificação de PCC e CV como organizações terroristas que o governo americano promoveu em maio — e que o Brasil rejeita formalmente por temer justificativas para ações unilaterais em território nacional — corre agora o risco de conviver, na prática, com uma flexibilização das próprias regras de venda de armas dentro dos EUA, o principal país fabricante de fuzis apreendidos com essas mesmas facções. É esse tipo de contradição — rotular como terrorista quem se abastece, ao menos em parte, de armas cuja venda o próprio país classificador está tornando mais fácil — que already levanta questionamentos entre especialistas sobre a coerência real da estratégia americana para o tema.