Sem aliados e sem tempo de TV: isolamento de Flávio Bolsonaro se traduz em alta desvantagem contra Lula

Vinicius Loures/Câmara dos Deputados e Ricardo Stuckert/PR

O desgaste político acumulado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao longo dos últimos meses já não é apenas uma questão de pesquisas de opinião — está prestes a se converter em prejuízo eleitoral mensurável e de efeito direto sobre a campanha. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o senador e pré-candidato à Presidência pode ter 20% menos tempo de propaganda gratuita em rádio e TV do que o presidente Lula (PT), caso não consiga fechar uma coligação até o fim do prazo das convenções partidárias.

A diferença não é cosmética. Nas simulações obtidas pela reportagem, Lula teria 5 minutos e 32 segundos por bloco de propaganda contra 4 minutos e 20 segundos de Flávio — uma vantagem de mais de um minuto por inserção, multiplicada ao longo de semanas de campanha na televisão aberta, ainda hoje o principal canal de comunicação política com o eleitorado de baixa renda. É justamente nessa faixa da população — até dois salários mínimos — que Lula mais precisa preservar vantagem: pesquisa Datafolha de meados de junho mostrou o petista à frente de Flávio por 53% a 38% em cenário de segundo turno entre esse público.

Um isolamento que já vinha sendo construído

A desvantagem no horário eleitoral é sintoma de um processo mais amplo de isolamento político que atinge a pré-candidatura de Flávio desde maio. O estopim foi o chamado caso “Dark Horse” — nome da superprodução hollywoodiana sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, estrelada por Jim Caviezel, que se transformou em um dos maiores passivos da campanha bolsonarista. Áudios divulgados pelo Intercept Brasil mostraram Flávio cobrando pessoalmente do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, repasses bilionários para financiar o filme — negociação que teria girado em torno de R$ 89,7 milhões, valor bem superior aos cerca de R$ 75 milhões que a produtora Go Up Entertainment declarou oficialmente à Justiça paulista. A Polícia Civil de São Paulo chegou a apontar “consistentes suspeitas” de desvio de dinheiro público municipal para a produção.

O episódio custou caro nas pesquisas. Levantamento Genial/Quaest de julho mostrou Flávio perdendo 20 pontos percentuais de apoio entre eleitores de direita não bolsonarista — de 74% em maio para 54% — justamente o segmento que precisaria conquistar para transformar sua candidatura de nicho em ameaça real à reeleição de Lula em outubro. Entre o núcleo bolsonarista mais fiel, o apoio permanece estável e acima de 90%, o que reforça a leitura de analistas de que o desgaste é seletivo, mas concentrado exatamente onde mais dói.

Centrão se afasta, Republicanos vira tábua de salvação

O afastamento do Centrão tradicional agravou o quadro. A Federação União Progressista, que reúne União Brasil e PP sob comando de Ciro Nogueira, vem sinalizando neutralidade na disputa presidencial, avaliando que uma aliança formal com Flávio se tornou politicamente onerosa após o escândalo Vorcaro. A prisão do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella, aliado de Flávio no Rio e pré-candidato ao Senado em sua chapa, aprofundou o desconforto dentro do bloco.

Diante desse cenário, a articulação da campanha do PL concentra esforços em uma aliança com o Republicanos — partido que abriga tanto Damares Alves quanto o governador paulista Tarcísio de Freitas, until há pouco cotado como alternativa preferida do mercado financeiro e da Faria Lima para enfrentar Lula. Caso o acordo se concretize, a simulação da Folha mostra Flávio recuperando a dianteira no horário eleitoral: 5 minutos e 16 segundos contra 4 minutos e 51 segundos de Lula. A disputa por essa coligação, portanto, deixou de ser apenas estratégica e passou a ser aritmética: cada minuto a mais de TV representa, potencialmente, milhões de eleitores de baixa renda a mais alcançados diretamente em suas casas.

Vale lembrar que, num eventual segundo turno, as coligações deixam de importar: os dois candidatos mais votados dividem o tempo de propaganda de forma igualitária, 50% para cada lado — o que significa que a vantagem de tempo de tela, hoje tão disputada, só terá peso decisivo na fase de primeiro turno, mas pode ser justamente o que garanta ou não a Flávio um lugar nessa etapa final.


Leia Mais: “Dark Horse” cobra seu preço: Flávio Bolsonaro desaba 20 pontos entre a direita não bolsonarista

Redação:
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