Café despenca 34,8%, petróleo cai 30,4%: como o tarifaço de Trump atinge produto a produto as exportações brasileiras

Daniel Torok/Casa Branca

Nesta quarta-feira (22), entra em vigor uma nova sobretaxa de 25% imposta pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros, resultado de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). A medida chega em um momento particularmente simbólico: as exportações do Brasil para os Estados Unidos já haviam recuado, no primeiro semestre de 2026, ao menor patamar da série histórica iniciada em 1997, segundo levantamento da Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham Brasil) publicado pelo jornal O Globo.

As vendas brasileiras ao mercado americano somaram US$ 17,4 bilhões entre janeiro e junho — queda de 13% frente ao mesmo período de 2025 — reduzindo a participação dos EUA no total exportado pelo Brasil para apenas 9,4%, o índice mais baixo já registrado. A corrente de comércio bilateral (soma de importações e exportações) encolheu 12,8% no semestre, para US$ 36,4 bilhões.

Uma queda que não é uniforme: o retrato produto a produto

O dado mais revelador do levantamento da Amcham, porém, está no detalhamento por categoria. Entre os dez principais produtos da pauta exportadora brasileira para os EUA, exatamente os cinco que sofreram tarifação direta registraram quedas acentuadas: café não torrado despencou 34,8%, petróleo bruto recuou 30,4%, semi-acabados de ferro ou aço caíram 21,7%, celulose perdeu 9,4% e o ferro-gusa teve retração de 1,2%.

Do outro lado, os cinco produtos que ficaram fora da lista de tarifação — aeronaves, carne bovina, equipamentos de engenharia, máquinas de energia elétrica e óleos combustíveis — não apenas resistiram, como cresceram: carne bovina liderou com alta de 41%, seguida por aeronaves (+32,9%), equipamentos de engenharia (+23,8%), máquinas de energia elétrica (+16%) e óleos combustíveis (+13,7%).

O contraste estatístico confirma o padrão: segundo a Amcham, os produtos diretamente sobretaxados tiveram queda média de 16,6% no semestre, quase o dobro do recuo de 8,7% registrado pelos itens isentos — evidência de que a tarifa, e não uma desaceleração genérica da demanda americana, é o fator determinante por trás da retração.

A nova sobretaxa que entra em vigor hoje

A tarifa que passa a valer nesta quarta-feira é adicional às medidas já aplicadas desde agosto de 2025, e nasce de uma investigação da Seção 301 — mecanismo do comércio americano usado para punir práticas consideradas desleais por parte de parceiros comerciais. Embora exista uma lista de isenções que cobre cerca de 60% da pauta exportadora brasileira aos EUA, os produtos manufaturados ficaram majoritariamente fora dessa proteção — o que, na prática, concentra o novo impacto justamente nos setores industriais que já vinham amargando as maiores quedas.

Em nota, o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, classificou o cenário como preocupante e defendeu a urgência de um acordo bilateral. Segundo ele, o primeiro semestre confirma que o comércio entre os dois países atravessa forte pressão, e a ausência de negociação pode agravar ainda mais as trocas caso a nova rodada de tarifas da Seção 301 seja de fato implementada.

Diversificação: o outro lado da equação

O recuo com os EUA não impediu o Brasil de ampliar suas exportações totais em 11,5% no semestre — puxadas por China (+21,9%) e União Europeia (+12,8%). Levantamento anterior, baseado em dados da ApexBrasil, já havia mostrado que o ganho adicional de vendas para China, Europa e Índia somou R$ 16,1 bilhões no mesmo período — mais de seis vezes o prejuízo registrado nas exportações aos Estados Unidos. Das cerca de 2,4 mil empresas exportadoras que receberam apoio da agência para se reposicionar, aproximadamente 72% conseguiram abrir novos mercados ou ampliar vendas para outros destinos.

Sinais mistos e incertezas à frente

Apesar do tombo acumulado no semestre, junho trouxe o primeiro sinal de reação: as exportações brasileiras para os EUA subiram 3,7% em valor no mês, embora tenham recuado em volume físico — alta puxada mais por preço do que por demanda real. As importações brasileiras de produtos americanos também caíram 12,5% no período, impulsionadas por uma retração de 76% nas compras de máquinas e motores.

O horizonte segue incerto. Além da iminência de novas tarifas da investigação da Seção 301, a Amcham cita como risco adicional a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, que já vem encarecendo derivados de óleo e gás — outro fator externo que pode se somar à pressão já exercida diretamente pelas tarifas americanas sobre a relação comercial entre os dois países.


Leia Mais: O Brasil já venceu o tarifaço, parte 4: quem corre risco de verdade e a rendição de Flávio em Washington

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