Ao transformar o secretário de Estado americano em peça da campanha adversária, Lula desloca o eixo de outubro para um confronto entre soberania nacional e influência estrangeira.
O presidente Lula (PT) elevou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao posto de adversário eleitoral ao desafiá-lo, em tom de deboche, a "montar um comitê" de campanha para Flávio Bolsonaro (PL).
A provocação ocorreu em ato do PDT na última segunda-feira (20) e marca uma mudança decisiva na estratégia do petista, segundo a Folha de S.Paulo.
Até então, Lula atacava a interferência americana de forma difusa, misturando tarifas, sanções e acusações de subordinação dos Bolsonaros a uma agenda estrangeira.
Agora, ele nomeia Rubio como peça central de uma coalizão adversária, deslocando o confronto de outubro para um eixo internacional. O embate deixa de ser Flávio versus Lula e passa a ser o candidato nacional contra uma potência estrangeira.
Ao mirar o secretário, Lula amplifica o discurso soberanista sem confrontar diretamente Donald Trump, preservando canais diplomáticos com quem toma as grandes decisões em Washington. O tarifaço americano prestes a ser implementado torna o movimento oportuno, já que parte da opinião pública atribui a Flávio alguma responsabilidade pelo novo protecionismo dos EUA.
A provocação repete um expediente com tradição na América Latina. Em 2002, o embaixador americano Manuel Rocha advertiu que uma vitória de Evo Morales custaria a ajuda dos EUA à Bolívia, e o efeito foi o contrário: o candidato disparou nas pesquisas. No Brasil, a memória do apoio do embaixador Lincoln Gordon ao golpe de 1964 ainda ecoa, dando lastro histórico à estratégia.
O palco escolhido carrega simbolismo adicional. O ato do PDT, partido que tem o nacionalismo trabalhista como mote fundador, exibia um retrato de Leonel Brizola ao fundo. Foi ali que Lula testou a mecânica de transformar a disputa eleitoral num embate por soberania.
A jogada força Flávio a se posicionar diante de uma aliança explícita com Washington. Não se trata de defesa contra uma interferência já consumada, mas de uma provocação calculada para obrigar o adversário a entrar em campo com o vínculo estrangeiro escancarado.