O filho mais velho do ex-presidente parece ter aprendido a lição do pai — mas não a boa. Na última semana, Flávio Bolsonaro reuniu 42 embaixadores em Brasília para, em vez de vender soja ou atrair investimentos, repetir a velha cantilena golpista contra as urnas eletrônicas. O PT já acionou o TSE, e os ministros da corte eleitoral, junto com os do Supremo, avaliam o caso com lupa. Mas, como mostrou o Novo Dia da CNN Brasil, há uma diferença crucial entre esse ataque e o que levou Jair Bolsonaro à inelegibilidade: a ausência da máquina pública.
O apresentador Théo Cury resumiu o sentimento dos magistrados: ‘Os ministros, tanto do TSE quanto do Supremo, obviamente uma ala desses dois tribunais, avaliam que as falas deles são graves porque é uma reincidência em uma mentira que já foi desmentida.’ A mentira em questão é a associação das urnas brasileiras com a empresa Smartmatic, que teria supostamente fabricado equipamentos no Brasil e na Venezuela — informação já desmentida pelo TSE em 2020 e 2022. Flávio, mesmo sabendo disso, resolveu reaquecer o discurso em plena campanha eleitoral de 2026.
Mas os ministros não tratam os dois casos como iguais. ‘No caso do Jair Bolsonaro, a gravidade ficou latente naquele momento, mas também meses depois, quando ficou constatado que havia um cenário de construção de tentativa de golpe de Estado’, explicou Théo. Jair usou a estrutura da Presidência, os canais oficiais de comunicação e o peso do cargo para semear dúvidas sobre o sistema eleitoral. Flávio, por enquanto, é apenas um pré-candidato — o que, para alguns juristas, reduz o potencial de desestabilização imediata. Mas não elimina o perigo.
O PT, claro, não deixou barato. A legenda entrou com representação no TSE pedindo multa e a remoção do conteúdo do evento. A estratégia é judicializar para conter a repetição do roteiro que levou o Brasil à beira de um golpe em 2022. Mas a cautela dos ministros sugere que a punição pode não ser tão dura quanto a aplicada a Jair. Afinal, Flávio não tem o mesmo alcance nem os mesmos recursos. Ainda assim, o estrago pode ser grande.
Théo Cury destacou um ponto que acendeu o alerta no Planalto e no Judiciário: ‘Há um receio de interferência externa de outros países na eleição brasileira, em especial dos Estados Unidos, porque ele usa um relatório da CIA, relatório que já foi desmentido, mas que ao mesmo tempo vai basear discursos no exterior sobre o sistema eletrônico de votação do Brasil e algo que se retroalimenta.’ Flávio, ao repetir a narrativa para diplomatas estrangeiros, não está apenas mentindo para o público interno — está exportando desinformação. E, com isso, dando munição para setores da direita internacional que adorariam ver o Brasil desacreditado.
O mais curioso é que a própria direita brasileira começou a rachar. Ronaldo Caiado, governador de Goiás e também pré-candidato, não poupou críticas: ’42 embaixadores numa sala dava para vender soja, dava para abrir mercado para a indústria, dava para atrair investimento. Escolheram falar de urna eletrônica.’ A fala de Caiado, citada pelos apresentadores, mostra que nem todos no campo conservador engolem a estratégia bolsonarista. Renan Santos, outro nome da direita, foi na mesma linha: ‘Foi novamente ficar falando de urna. Qual a imagem que a gente passa para o mundo? Candidato que ainda está em segundo colocado nas pesquisas falando que a urna não funciona.’
Enquanto isso, a Federação União Progressista — que reúne PP e União Brasil — declarou neutralidade na disputa presidencial. E Ciro Nogueira, presidente do PP, teria se ressentido do distanciamento de Flávio. O bolsonarismo, que já foi um bloco monolítico, agora enfrenta fissuras. Mas o perigo não diminui: a repetição de mentiras sobre as urnas, mesmo sem a máquina pública, pode corroer a confiança no processo eleitoral — especialmente se ecoada por aliados internacionais.
Os ministros do TSE e do STF, segundo Théo Cury, ‘veem gravidade nesse fato, mas eles também sabem separar muito bem esses dois casos, o do Flávio Bolsonaro e o de Jair Messias Bolsonaro.’ A separação é técnica, mas o efeito prático pode ser perigoso. Se a punição for branda, o sinal será de que a corte tolera ataques recorrentes ao sistema, desde que não venham do ocupante do Palácio do Planalto. O PT acertou ao judicializar, mas o sistema precisa de respostas mais duras contra a repetição de mentiras.
Assista ao vídeo acima e tire suas próprias conclusões. O que está em jogo não é apenas a candidatura de Flávio Bolsonaro — é a credibilidade do processo eleitoral brasileiro. E, como já vimos, quando se começa a duvidar das urnas, o próximo passo pode ser a ruptura democrática.