O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou nesta quinta-feira (23) a instauração de um inquérito da Polícia Federal para investigar os repasses financeiros feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme “Dark Horse” — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estrelada pelo ator americano Jim Caviezel. A decisão atende a pedido formulado pela própria Polícia Federal e teve parecer favorável do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que avaliou haver elementos probatórios suficientes para justificar a apuração formal.
A investigação será conduzida dentro da Operação Compliance Zero, que já resultou na prisão de Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. O cerne da apuração está no destino de recursos que a Polícia Federal suspeita terem sido usados como fachada: em vez de financiar integralmente a produção do filme, parte do dinheiro poderia ter sido desviada para custear despesas pessoais do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), hoje residente nos Estados Unidos, além de articulações políticas de aliados do ex-presidente junto ao governo de Donald Trump.
Uma cronologia que já se estende por meses
O caso Dark Horse veio a público em maio, quando o site The Intercept Brasil revelou áudios em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, cobrava pessoalmente de Vorcaro parcelas do financiamento — negociação total estimada em US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões à época, para uma produção que se tornaria a mais cara já registrada no mercado audiovisual brasileiro. Do valor total, ao menos US$ 10,6 milhões (aproximadamente R$ 61 milhões) já teriam sido efetivamente repassados entre fevereiro e maio de 2025, segundo apurações da Polícia Federal.
Documentos obtidos pela investigação apontam que os recursos foram enviados ao exterior pela empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a Vorcaro, com destino a um fundo sediado no Texas controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro — a mesma estrutura financeira que, segundo os investigadores, pode ter sido usada para mascarar a real destinação do dinheiro.
Dois pedidos, um só inquérito
A abertura do inquérito consolida duas frentes que corriam em paralelo no STF. Em julho, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) já havia protocolado pedido para que a Corte apurasse uma possível conexão entre a estrutura financeira do filme e uma rede de lavagem de dinheiro associada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), identificada pela Polícia Civil de São Paulo através da empresa ACX ITC. Neste caso específico, porém, a PGR recomendou o arquivamento do pedido de Lindbergh, concentrando a investigação formal no requerimento apresentado diretamente pela própria Polícia Federal — sinal de que a corporação já dispõe de elementos próprios suficientes para conduzir a apuração, independentemente da provocação parlamentar.
A defesa de Flávio e o histórico de negativas
Em nota, a assessoria de Flávio Bolsonaro classificou como falsa qualquer insinuação de que os recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro, sustentando que os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos. A resposta reproduz a mesma linha de defesa usada em maio, quando o senador negou peremptoriamente qualquer contato com Vorcaro — versão que se mostrou insustentável semanas depois, quando o próprio Flávio confirmou, em entrevista, ter se reunido pessoalmente com o banqueiro em pelo menos duas ocasiões na residência dele em Brasília.
Uma perícia privada contratada pela produtora do filme, a Go Up Entertainment, já havia tentado antecipar a defesa jurídica, atestando que a obra não recebeu incentivos públicos como a Lei Rouanet — mas o laudo, segundo análises anteriores, evitou qualquer menção a Vorcaro ou à origem privada dos recursos, justamente o ponto central do escândalo.
Um inquérito sob sigilo, mas com prazo à vista
O processo tramita sob sigilo de nível 3 no STF, classificação usada para preservar diligências e proteger informações sensíveis durante a fase investigativa. Com a abertura formal do inquérito, a Polícia Federal poderá colher provas, ouvir testemunhas e solicitar à Corte medidas como quebra de sigilo bancário e telefônico, e até operações de busca e apreensão, caso considere necessário. Segundo apurações da imprensa, a corporação já sinalizou pretender entregar o relatório final da investigação sobre o Banco Master em agosto — o que pode antecipar, ainda este ano eleitoral, um novo capítulo de repercussão direta sobre a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.