A extrema-direita da Europa explodiu nas urnas. Agora é a vez da extrema-esquerda reagir com força.
Alguns partidos de esquerda que pareciam moribundos há poucos anos voltam a crescer nas pesquisas e nas eleições recentes. O centro político, que dominava o jogo, agora luta para conter os avanços tanto da direita quanto da esquerda.
Segundo o Wall Street Journal, a virada é mais acentuada entre os eleitores mais jovens e nas grandes cidades. Os motivos incluem a crise de moradia cara, o crescimento econômico lento, o sentimento antiamericano crescente, a revolta com as ações militares de Israel em Gaza e no Irã, além da perda de confiança nos partidos tradicionais para resolver os grandes problemas do dia a dia, segundo analistas e institutos de pesquisa.
Em alguns países, essa onda já se transformou em vitórias eleitorais concretas. Em outros, como França e Itália, onde a esquerda radical ainda é menor, o crescimento vem acompanhado de um aumento da violência política de grupos de extrema-esquerda.
Na Inglaterra, o Partido Verde se reinventou como movimento populista: quer nacionalizar serviços públicos, legalizar drogas e retirar o país da Otan. Na Alemanha, o Die Linke, sucessor do antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental, viu sua popularidade disparar. A legenda hoje aparece em segundo lugar nas pesquisas gerais, com apoio acima de 10% — acima do SPD e dos Verdes, e próximo do resultado que pode obter nas eleições de 2025.
O partido se apresenta como um baluarte contra a extrema-direita e a AfD. Mas o que realmente anima seus eleitores, segundo a reportagem, são questões econômicas concretas: justiça social, custo de vida e o peso dos aluguéis altíssimos.
Na França, a união frouxa de partidos de esquerda surpreendeu ao terminar em segundo lugar nas eleições legislativas de 2024. Desde então, no entanto, o bloco vem perdendo fôlego por causa de acusações de que incentiva a violência.
Em fevereiro, ativistas de um grupo antifascista fundado por um ex-deputado foram indiciados por assassinato e cumplicidade na morte de uma ativista de extrema-direita de 23 anos.
Na Alemanha, grupos de extrema-esquerda violentos também voltaram a agir. Em janeiro, o grupo clandestino Volcano reivindicou ataques de sabotagem na rede elétrica de Berlim que deixaram mais de 100 mil pessoas sem luz e aquecimento por dias no meio do inverno.
Autoridades alemãs disseram acreditar que o grupo estava por trás dos atentados, embora não haja provas de envolvimento russo. “Estamos nos armando para lutar contra o extremismo de esquerda”, disse o ministro do Interior Alexander Dobrindt após oferecer uma recompensa de 1 milhão de euros (cerca de R$ 6,16 milhões) por informações que levem aos responsáveis.
Na França, o líder de esquerda Jean-Luc Mélenchon e sua coalizão Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES) têm feito campanha com foco em aluguéis mais baixos, imposto sobre grandes fortunas e aposentadoria aos 60 anos para alguns trabalhadores.
Entre os eleitores de 18 a 29 anos, a esquerda radical é hoje a força mais popular nas pesquisas, segundo o instituto Forsa. Em Berlim, a candidata do partido à prefeitura tem chance real de vencer.
O que estamos vendo, segundo Manfred Güllner, fundador do instituto Forsa, é “o renascimento da esquerda clássica”. Ela preenche o vácuo deixado pela social-democracia e pelos verdes, e cresce especialmente entre os jovens.
Nas margens do parlamento, a extrema-esquerda continua fragmentada e sem apoio suficiente para chegar ao poder na maioria dos países. Mas o vento mudou — e o centro europeu agora precisa olhar para os dois lados.


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