Um estudo conduzido por pesquisadores da Northwestern University demonstra que resíduos do antisséptico clorexidina, amplamente utilizado em hospitais, podem promover cepas bacterianas tolerantes e potencialmente resistentes.
Essas bactérias não se limitam à transmissão por contato direto e conseguem se dispersar também pelo ar. A investigação, publicada no periódico Environmental Science & Technology, analisou o uso rotineiro da substância em unidades de terapia intensiva e constatou que traços dela persistem em superfícies por mais de 24 horas, criando condições favoráveis à seleção natural de linhagens mais adaptadas, conforme detalhado pelo portal Live Science.
Foram coletadas 219 amostras em uma UTI médica em Illinois, a partir de grades de leito, botões de chamada, batentes de portas, teclados, interruptores de luz e ralos de pias.
Os pesquisadores isolaram cerca de 1.400 bactérias, das quais aproximadamente 36% demonstraram tolerância à clorexidina. Algumas cepas apresentaram concentração inibitória mínima tão elevada quanto 512 µg/mL.
Mesmo após limpezas com água e outros desinfetantes, os resíduos da clorexidina permanecem nas superfícies por pelo menos 24 horas em quantidades subletais que não eliminam os microrganismos, mas estimulam o crescimento daqueles portadores de genes de tolerância.
Um dos achados mais graves é a detecção dessas bactérias tolerantes em batentes de portas — locais raramente tocados por mãos —, o que indica dispersão aérea via aerossóis gerados por respingos em pias, queda de água ou partículas de poeira que carregam os microrganismos.
Os ralos de pia surgem como pontos críticos nesse processo, pois acumulam umidade, servem de abrigo aos microrganismos resistentes e liberam aerossóis quando a água flui, transportando bactérias para o ambiente hospitalar.
Embora a clorexidina mantenha eficácia em concentrações clínicas padronizadas usadas em procedimentos pré-operatórios e higienização da pele antes de cateterismos, o desenvolvimento de tolerância sinaliza riscos crescentes caso o emprego rotineiro da substância em superfícies não seja reavaliado.
Especialistas destacam que reduzir ou redirecionar o uso de antissépticos fora de situações de alto risco pode impedir o aceleramento indesejado da resistência microbiana.
Os mesmos mecanismos observados em hospitais podem ocorrer em residências, clínicas veterinárias e outros locais com aplicação frequente de produtos antissépticos, ainda que em escala menor. Ambientes domésticos onde sabão comum e água seriam suficientes poderiam se beneficiar de menor dependência desses agentes químicos potentes.
A preocupação central envolve o fato de que alguns genes de tolerância estão localizados em plasmídeos — fragmentos de DNA capazes de se transferir entre bactérias. Esses plasmídeos frequentemente carregam também determinantes de resistência a antibióticos críticos, como os carbapenêmicos, utilizados quando outras drogas falham.
Tal associação pode acelerar o surgimento de superbactérias resistentes tanto ao antisséptico quanto aos medicamentos empregados no tratamento de infecções graves.
Diante dos resultados, torna-se urgente a revisão de protocolos hospitalares de limpeza, ventilação e controle ambiental, especialmente no que se refere a ralos de pias geradores de aerossóis e ao uso criterioso de antissépticos.
Profissionais de saúde e gestores hospitalares precisam investir em medidas preventivas para preservar a eficácia das ferramentas disponíveis contra infecções. O estudo reforça que práticas aparentemente rotineiras de desinfecção podem gerar consequências ambientais complexas e duradouras, exigindo atualização das estratégias de controle microbiano em ambientes de saúde.
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