Menu

Irã acusa EUA de ‘pirataria de Estado’ e pede ao Conselho de Segurança que condene apreensão de petroleiros

48 Comentários🗣️🔥 Ilustração editorial sobre Irã acusa EUA de ‘pirataria de Estado’ e pede ao Conselho de Segurança que condene apreensão de petroleiros. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro) O embaixador da República Islâmica do Irã na ONU, Amir Saeid Iravani, enviou carta urgente ao Conselho de Segurança denunciando a captura dos navios M/T Majestic e […]

48 comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
Ilustração editorial sobre Irã acusa EUA de 'pirataria de Estado' e pede ao Conselho de Segurança que condene apreensão de petroleiros. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O embaixador da República Islâmica do Irã na ONU, Amir Saeid Iravani, enviou carta urgente ao Conselho de Segurança denunciando a captura dos navios M/T Majestic e M/T Tifani por forças norte-americanas.

Na avaliação do diplomata, a operação que confiscou 3,8 milhões de barris de petróleo iraniano configura, nas suas próprias palavras, ‘pirataria de Estado’ e viola o artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a soberania de outro país.

Iravani argumentou ainda que a ação norte-americana contraria a Resolução 3314 da Assembleia-Geral, aprovada em 1974, que classifica interceptações forçadas em alto-mar como ato de agressão. O embaixador destacou que um procurador dos Estados Unidos divulgou nota pública exaltando a operação, o que, segundo ele, constitui prova de conduta ilícita deliberada por parte de Washington.

Na carta, Iravani afirmou que a dependência dos EUA à ilegalidade mina os princípios elementares do direito internacional e estimula a proliferação de práticas de pirataria disfarçadas de procedimentos judiciais domésticos. Teerã sustenta que as apreensões integram o que o governo iraniano chama de ‘bloqueio ilegal’ imposto pelos Estados Unidos contra o país.

Conforme relatou a agência Mehr News, o embaixador solicitou formalmente que o Conselho de Segurança condene a captura dos petroleiros e exija a devolução imediata da carga. A carta também adverte que a continuidade das apreensões tensiona toda a região do Golfo e pode colocar em risco rotas energéticas que abastecem grande parte do planeta.

Especialistas consultados por veículos regionais lembram que o estreito de Ormuz responde por cerca de um quinto do comércio global de petróleo. Qualquer escalada naquela rota representa uma ameaça direta à estabilidade dos mercados energéticos internacionais.

O episódio ocorre em meio a negociações nucleares entre Irã e Estados Unidos em andamento, o que torna a carta ao Conselho de Segurança um sinal de pressão paralela, não necessariamente uma ruptura definitiva do diálogo. Analistas diplomáticos apontam que Teerã busca, ao mesmo tempo, manter abertos os canais de negociação e elevar o custo político das ações unilaterais de Washington no plano multilateral.

Com a carta já protocolada, a expectativa em Nova York é de pressão crescente sobre Washington por parte de Rússia, China e outras potências para que os EUA justifiquem juridicamente as apreensões. O impasse expõe uma tensão estrutural: o Conselho de Segurança, onde os Estados Unidos detêm poder de veto, dificilmente emitirá uma condenação formal, mas o debate público em torno da legalidade das operações já representa, por si só, um desgaste diplomático para Washington.

O governo iraniano reforçou patrulhas navais no Golfo Pérsico e reiterou que não busca conflito, mas que não admitirá novas apropriações de seus navios. A posição oficial de Teerã é de que qualquer escalada será de inteira responsabilidade dos Estados Unidos.


Leia também: Irã exige controle sobre Estreito de Ormuz e levantamento total de sanções em proposta de dez pontos enviada aos Estados Unidos


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


, ,
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Laura Silva

04/05/2026

A discussão proposta por Julia Andrade sobre as assimetrias do direito internacional é, de fato, o ponto central que deveria nortear este debate, mas infelizmente vejo que alguns comentários aqui, como os do Celio e do Luiz Carlos, preferem o atalho fácil do moralismo seletivo. Reduzir a denúncia iraniana a uma questão de “regime que enforca gay” é um truque retórico rasteiro que serve apenas para desviar a atenção do que realmente importa: a ilegalidade flagrante da apreensão de petroleiros em águas internacionais por parte dos Estados Unidos. Não se trata de defender a teocracia iraniana, que tem suas contradições internas gravíssimas, mas sim de reconhecer que o direito internacional não pode ser um instrumento de uso exclusivo do Ocidente. Quando os EUA confiscam um navio sob o pretexto de sanções unilaterais, estão praticando o que o embaixador iraniano chamou com propriedade de “pirataria de Estado” — e isso é um fato jurídico, não uma opinião sobre costumes locais.

O que me incomoda profundamente nessa histeria anticomunista e antirreligiosa que domina parte da esquerda e da direita brasileira é a incapacidade de enxergar o sistema como um todo. O Conselho de Segurança da ONU, lembremos, foi desenhado pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial para perpetuar suas zonas de influência. Não é à toa que os EUA têm o poder de veto e usam e abusam dele para proteger Israel e a si mesmos de qualquer condenação. O Irã, por mais autoritário que seja, está exercendo um direito elementar de qualquer Estado soberano ao recorrer ao mesmo órgão que os EUA ignoram quando lhes convém. A hipocrisia é tão escancarada que chega a ser cômica: os mesmos que aplaudem sanções econômicas como “defesa da democracia” são os primeiros a chamar de “terrorista” qualquer país que ouse retaliar.

Outro ponto que passa batido nessa gritaria moralista é a materialidade do petróleo. O petróleo iraniano não é um recurso qualquer; é a base da economia de um país que sofre um bloqueio econômico ilegal há décadas, condenando milhões de pessoas à pobreza. Apreender um petroleiro iraniano não é um ato isolado de “aplicação de sanções” — é um roubo de recursos que pertencem a uma nação, um ato de guerra econômica que viola a Carta da ONU e os princípios mais básicos do direito dos mares. Enquanto isso, a mídia hegemônica trata o assunto como se fosse uma briga de vizinhos, quando na verdade estamos diante de mais um capítulo da doutrina Monroe aplicada ao Oriente Médio: os EUA decidem quem pode ou não comercializar petróleo, e quem discorda é taxado de “pária”.

Por fim, quero deixar claro que não estou fazendo apologia ao regime iraniano. Sou marxista, e minha crítica ao capitalismo não me impede de reconhecer que o Irã tem um Estado teocrático que oprime minorias e mulheres. Mas a esquerda brasileira precisa parar de cair na armadilha do “menos pior” e aprender a fazer a crítica concreta da situação concreta. Apreender petroleiros não é “defesa da liberdade dos mares” — é a expressão brutal da lei do mais forte, exatamente como Marx descreveu a acumulação primitiva do capital. Se o Conselho de Segurança não condenar essa pirataria, estará apenas confirmando que o direito internacional é uma farsa a serviço do imperialismo. E aí, meus caros, não adianta chorar pelos direitos humanos no Irã enquanto se aplaude o roubo de petróleo dos mesmos iranianos que sofrem com as sanções.

Julia Andrade

04/05/2026

O debate sobre a acusação iraniana de “pirataria de Estado” contra os EUA é um prato cheio para quem estuda as assimetrias do direito internacional. O que me chama atenção, lendo os comentários do Celio e do Luiz Carlos, é como rapidamente a discussão escorrega para uma espécie de “quem é pior”, como se a validade de uma denúncia dependesse da pureza moral do denunciante. Sim, o Irã tem um histórico brutal de violações de direitos humanos, especialmente contra mulheres e dissidentes. Mas isso torna a ação dos EUA menos ilegal? O direito do mar e as resoluções da ONU não funcionam com base em “fulano é pior, então pode tomar o petróleo dele”. Se aceitamos que potências ocidentais apreendam ativos de países com regimes autoritários sob o pretexto de sanções unilaterais, estamos criando um precedente perigoso que pode ser usado contra qualquer nação do Sul Global que desafie os interesses hegemônicos.

O Cláudio Ribeiro tocou num ponto central ao lembrar do caso Nicarágua na CIJ. A seletividade do direito internacional é um tema clássico nas relações internacionais, especialmente quando olhamos pela ótica pós-colonial. Os EUA construíram a ordem liberal internacional baseada em regras, mas sempre se reservaram o direito de ignorá-las quando conveniente. A apreensão de petroleiros iranianos não é um ato isolado; é parte de uma política de máxima pressão que viola o espírito do acordo nuclear (JCPOA), do qual os próprios EUA se retiraram unilateralmente em 2018. O Irã, por sua vez, responde com retórica inflamada e ações igualmente questionáveis no Estreito de Ormuz. O problema é que, enquanto um lado age com a chancela de “comunidade internacional”, o outro é tratado como pária, independentemente do mérito jurídico de suas queixas.

O que me incomoda nessa thread é a dificuldade de sustentar uma crítica complexa sem cair em maniqueísmo. Não precisa defender a teocracia iraniana para reconhecer que a ação dos EUA é uma violação da soberania de um Estado-membro da ONU. Da mesma forma, não precisa ser um defensor do imperialismo americano para criticar a hipocrisia de Teerã em pedir socorro ao Conselho de Segurança, um órgão que eles mesmos desrespeitam quando lhes convém. A questão de fundo é estrutural: enquanto o direito internacional for um instrumento de poder nas mãos de poucos, casos como esse vão se repetir. O Irã não é vítima inocente, mas também não está errado em apontar a hipocrisia. Ambos os lados jogam o mesmo jogo de poder; a diferença é que um deles dita as regras.

Luiz Carlos

04/05/2026

Irã pedindo moral no Conselho de Segurança é piada pronta. O regime que enforca gente em praça pública e oprime mulher quer falar de pirataria? EUA erram, sim, mas comparar com esses mulás é brincadeira. O mundo virou um circo mesmo.

Diego Fernández

04/05/2026

Cara, o Cláudio Ribeiro mandou bem demais. A hipocrisia do direito internacional é escancarada: quando é um país do Sul Global que faz alguma coisa, é terrorismo; quando são os EUA tomando petroleiro dos outros, é “defesa da liberdade dos mares”. O Irã tem seus problemas graves, claro, mas isso não anula o fato de que os EUA agem como império e ninguém no Conselho de Segurança tem coragem de chamar pelo nome.

Celio Fazendeiro

04/05/2026

Esse povo defensor de ditadura teocrática é de cair o cu da bunda. Irã persegue mulher, enforca gay e ainda vem pedir moral no Conselho de Segurança. EUA erram muito mas comparar com esses mulás é piada.

Cláudio Ribeiro

04/05/2026

João Martins tocou num ponto crucial ao lembrar do caso Nicarágua na CIJ. O que estamos vendo aqui é a aplicação seletiva do direito internacional: quando convém aos EUA, sanções são “legítimas”; quando um país do Sul Global reage, é tratado como pária. A verdadeira questão é quem tem o poder de nomear o que é crime.

João Batista Alves

04/05/2026

Meus irmãos, essa história de “pirataria de Estado” é mais um capítulo dessa novela sem fim entre potências que só pensam em seus interesses. O Irã, que persegue cristãos e oprime suas mulheres, não tem moral pra acusar ninguém. E os EUA, que se dizem defensores da liberdade, agem como verdadeiros donos do mundo. Cadê o respeito ao direito internacional e à soberania das nações? O Brasil precisa ficar longe dessa briga e lembrar que a verdadeira paz vem de Deus, não de petroleiros ou sanções.

    Tiago Mendes

    04/05/2026

    Irmão João Batista, você tem razão ao apontar a hipocrisia de ambos os lados, mas acho perigoso usar a perseguição a cristãos no Irã como argumento para deslegitimar a crítica à pirataria de Estado. A verdadeira paz que vem de Deus exige que denunciemos injustiças onde quer que ocorram, seja em Teerã ou em Washington, e não que escolhamos um lado menos pior. O Brasil deveria sim se afastar dessa briga, mas não por omissão — e sim para defender o direito internacional com coerência.

João Martins

04/05/2026

A discussão nos comentários já expôs o essencial: o termo “pirataria de Estado” não é um chavão de retórica iraniana, é um conceito com lastro jurídico. Em 1986, a Corte Internacional de Justiça condenou os EUA por minar portos na Nicarágua — uma ação que, na prática, se enquadrava perfeitamente nessa definição. O que vemos hoje no Golfo é uma repetição do padrão: sanções unilaterais que, na ausência de mandato multilateral, são executadas via apreensão de cargas em águas internacionais. Não estou defendendo o regime iraniano — os dados sobre repressão interna e financiamento de milícias são públicos e preocupantes — mas é objetivamente falso que os EUA estejam agindo dentro de um quadro legal consensual. O Conselho de Segurança não autorizou essa operação, e a própria legalidade das sanções secundárias americanas é contestada por juristas de comércio internacional.

O que me incomoda nessa thread é o maniqueísmo. De um lado, gente tratando o Irã como vítima inocente — o que é risível, dado que Teerã usa a mesma tática de apreensão de petroleiros no Estreito de Ormuz e já foi condenada por tribunais internacionais por violar direitos humanos. Do outro, quem acha que sanção americana é automaticamente legítima só porque vem de Washington. Dados do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) mostram que os EUA aplicaram mais de 13 bilhões de dólares em multas por violação de sanções entre 2000 e 2020, muitas vezes contra empresas europeias que operavam dentro da legalidade de seus próprios países. Isso não é “fazer valer sanções”, é exercer jurisdição extraterritorial que a maioria da comunidade internacional rejeita.

A ironia maior é ver a direita brasileira, que prega Estado mínimo e não intervenção, aplaudindo de pé o confisco de petróleo por uma potência estrangeira. O mesmo Roberto Lima que critica o Irã por “financiar terrorismo” silencia quando a Arábia Saudita, aliada dos EUA, faz o mesmo no Iêmen com bombas americanas. Se o critério é “quem financia terrorismo”, o gráfico de vendas de armas dos EUA para o Oriente Médio nos últimos 20 anos é constrangedor. A hipocrisia não é de esquerda nem de direita — é de quem escolhe qual violação do direito internacional quer enxergar com base no alinhamento geopolítico.

No fim, o que temos é um teatro para consumo interno. O Irã sabe que o Conselho de Segurança não vai condenar os EUA por causa do veto americano. Os EUA sabem que a apreensão não vai quebrar a economia iraniana — o país já contorna sanções há décadas via triangulação com China e Rússia. O que me irrita como leitor de dados é ver gente tratando isso como se fosse um jogo de futebol, onde você torce pelo time e ignora os fatos. A pergunta que fica é: em que mundo um país pode confiscar a propriedade de outro em alto-mar sem mandato da ONU e ainda chamar isso de “Estado de Direito”? Se a resposta for “no mundo onde o país mais forte define as regras”, então paremos com o moralismo e admitamos que vivemos sob lei do mais forte, não sob direito internacional.

Roberto Lima

04/05/2026

Karina, com todo respeito, mas você caiu na narrativa. Os EUA estão fazendo valer sanções legítimas contra um regime que financia terrorismo e desestabiliza o Oriente Médio. Chamar isso de pirataria é ignorar que o Irã é o maior patrocinador do terror no mundo. Aqui no Brasil, a esquerda adora criticar os americanos, mas fecha os olhos pros mullahs enforcarem mulher por causa de um lenço na cabeça. O estado mínimo que eu defendo é pra respeitar contratos e propriedade, não pra deixar terrorista roubar petróleo e vender na surdina.

    Luisa Teens

    04/05/2026

    Roberto, “sanção legítima” é o nome que o imperialismo dá pra roubar petróleo alheio enquanto prega estado mínimo — hipocrisia nível hard #ForaBolsonaro

Clarice Historiadora

04/05/2026

Karina, lamento informar que “pirataria de Estado” não é invenção iraniana — é categoria clássica do direito internacional desde Grotius, usada inclusive pelo governo dos EUA contra a Nicarágua em 1986, quando a Corte de Haia condenou Washington por minar portos alheios. Mas claro, é mais fácil repetir bordão de regime e oprimir mulher do que abrir um livro de relações internacionais.

Karina Libertária

04/05/2026

Irã chamando os EUA de piratas é de um ridículo sem tamanho. Enquanto isso, o regime iraniano financia terrorismo e oprime mulheres. Quem precisa de petróleo iraniano que compre, mas parem de choramingar quando os americanos fazem valer as sanções. Aqui em Miami a gente sabe bem o que é liberdade de verdade.

Maura Santos

04/05/2026

Marcos, falou tudo. Enquanto a extrema-direda chora com “intervenção mínima do Estado”, os EUA tão lá metendo a mão no petróleo alheio sem dó. É o mesmo pessoal que defendeu a Lava Jato como se fosse moralizadora e hoje passa pano pra pirataria de tio Sam. Hipocrisia tem nome, e não é Irã não.

João Batista

04/05/2026

Marcos, você tocou num ponto que ecoa o que o profeta Amós denunciava: “vendem o justo por prata e o pobre por um par de sandálias”. Os EUA pregam ordem internacional com uma Bíblia numa mão e um canhão na outra, enquanto o Brasil abandona os seus. O Irã não é exemplo de justiça, mas a hipocrisia imperial é maior que Golias.

Marcos Andrade Niterói

04/05/2026

O Irã não é santo, mas a hipocrisia dos EUA falando em “ordem internacional” enquanto confisca petroleiro alheio é de cair o cu da bunda. Enquanto isso, aqui no Rio o governo estadual abandona Niterói e a extrema-direita passa pano pra imperialismo.

Beatriz Lima

04/05/2026

É sempre fascinante ver o circo armado quando o direito internacional vira um campo de futebol onde cada time só respeita as regras quando a bola está a seu favor. A carta do Irã ao Conselho de Segurança tem uma ironia tão densa que daria para extrair petróleo bruto dela. Sim, os EUA institucionalizaram sanções extrajudiciais e usam a marinha como braço armado do Departamento do Tesouro — isso não é novidade para ninguém que acompanha geopolítica sem filtro ideológico. Mas ver a República Islâmica, que sequestra navios no Estreito de Ormuz com regularidade quase sazonal, posando de vítima da pirataria de Estado é um exercício de cinismo digno de Oscar.

O problema aqui não é apontar quem está mais errado na escala moral — isso é jogo de torcida, não análise. O ponto relevante, que o Carlos Henrique Silva bem colocou, é que o direito internacional virou um cardápio à la carte: as grandes potências escolhem os artigos que lhes convêm e ignoram o resto com a desculpa de que a carta da ONU é um documento do século passado. O Irã, por sua vez, adora invocar tratados quando lhe interessa e manda às favas as resoluções que condenam seu programa nuclear ou o financiamento de milícias. É uma simbiose perversa de hipocrisia bilateral.

O que me irrita profundamente nesse tipo de discussão é a falsa simetria que muitos tentam construir. Não, não é a mesma coisa. Os EUA têm poder de fogo e influência diplomática para tornar a pirataria deles mais limpa e burocrática — assinam papéis, invocam leis domésticas como o IEEPA e chamam de apreensão administrativa. O Irã faz a mesma coisa com métodos mais toscos e discursos religiosos. Ambos estão errados, mas errados de formas diferentes e com consequências desiguais. Reduzir a um ambos são hipócritas e encerrar o debate é preguiça intelectual.

No fim das contas, o Conselho de Segurança vai arquivar a carta iraniana com a mesma elegância com que arquiva denúncias semelhantes contra Israel ou os EUA. E o Irã vai continuar usando o teatro diplomático para desviar atenção do que realmente importa: a economia doméstica deles está um desastre, as sanções apertam, e o regime precisa de um inimigo externo para justificar o autoritarismo interno. Enquanto isso, o petróleo continua fluindo — ou não — dependendo de quem tem o maior navio e a caneta mais pesada.

Carlos Rocha

04/05/2026

Irã pedindo pra condenar pirataria alheia é dose. O regime deles financia terrorista, persegue mulher e ainda quer dar lição de direito internacional. Os EUA podem até exagerar, mas comparar com um Estado que enforca gente na praça é forçar a barra. Foco no que importa: menos sanção e mais liberdade econômica pra todo mundo.

    João Carvalho

    04/05/2026

    Carlos, você tem razão ao apontar o autoritarismo do regime iraniano, mas o problema é que ao reduzir o debate a uma competição de quem é pior, você perde de vista o que realmente importa: a lógica imperial que usa o direito internacional como escudo para seus próprios interesses econômicos, enquanto pune seletivamente os mesmos Estados que ajudou a armar. Liberdade econômica sem regulação multilateral é só o nome bonito para a lei do mais forte.

Carlos Henrique Silva

04/05/2026

A carta do embaixador Iravani ao Conselho de Segurança tem o mérito de expor, em linguagem jurídica formal, o que a prática imperial já revela há décadas: o direito internacional é um instrumento que o centro do capitalismo invoca quando lhe convém e viola quando lhe interessa. Não se trata de uma “pirataria de Estado” no sentido metafórico, como bem apontou a Mariana Santos nos comentários. Estamos diante daquilo que o jurista soviético Evgeny Pashukanis chamaria de “forma jurídica burguesa” — o direito como expressão da relação de forças entre classes e nações. Os EUA, ao apreenderem petroleiros iranianos sob o pretexto de sanções unilaterais que sequer passaram pelo crivo do Conselho, estão simplesmente exercendo a violência extrajurídica que sempre sustentou a hegemonia do dólar-petróleo.

O que me impressiona é a naturalidade com que certos setores da esquerda ainda tratam o Conselho de Segurança como uma instância capaz de arbitrar conflitos com imparcialidade. O Caio Vieira tem razão ao lembrar que o Leviatã hegemônico usa o direito internacional como clava, mas precisamos ir além: a própria composição do Conselho, com cinco potências nucleares dotadas de poder de veto, é a institucionalização da desigualdade entre nações. O Irã sabe disso melhor que ninguém. Ao recorrer a esse foro, Teerã não está pedindo justiça — está fazendo política, expondo a hipocrisia do sistema para a opinião pública global e para os países do Sul Global que acompanham o caso.

A comparação rasteira do Rick Ancap, equiparando a denúncia iraniana à corrupção do Lula, é típica do pensamento liberal que reduz relações geopolíticas complexas a moralismos individuais. O Irã não é um regime democrático nos termos ocidentais, e cometo críticas severas à teocracia dos aiatolás, especialmente na repressão às mulheres e às minorias. Mas isso não invalida a denúncia contra o imperialismo estadunidense. Pelo contrário: a natureza autoritária do regime iraniano não torna a agressão dos EUA menos violenta. A esquerda precisa sustentar essa contradição sem cair no maniqueísmo de quem acha que apoiar a autodeterminação do Irã significa endossar o regime de Khamenei.

No fim das contas, o que vemos é a crise de hegemonia do capitalismo estadunidense se manifestando na forma mais primitiva: a apropriação direta de recursos alheios pela força. Quando o soft power e as instituições multilaterais já não garantem a subordinação desejada, o império recorre ao que sempre foi seu fundamento último — a coerção. O Conselho de Segurança não condenará os EUA, evidentemente. Mas o gesto iraniano, ao jogar luz sobre essa contradição, cumpre um papel pedagógico importante para os movimentos antimperialistas e para todos que ainda acreditam na possibilidade de um direito internacional verdadeiramente democrático e emancipatório.

Rick Ancap

04/05/2026

Irã reclamando de pirataria é tipo o Lula reclamando de corrupção, piada pronta.

    Mariana Ambiental

    04/05/2026

    Rick, comparação rasteira. O Irã cometeu irregularidades, sim, mas os EUA institucionalizaram a pirataria como política de Estado com sanções extrajudiciais. Tenta de novo com um argumento que não seja manjado.

Caio Vieira

04/05/2026

Caro Cafezinho, e demais debatedores desta thread tão profícua, permitam-me adentrar este rico caldo de análises com a perspectiva de quem já viu o direito internacional ser usado como clava pelo Leviatã hegemônico em mais de uma ocasião. A carta do embaixador Iravani, ao invocar o Conselho de Segurança, não é mero exercício retórico, mas sim a explicitação de uma aporia fundamental: como recorrer ao guardião da ordem quando o guardião é o próprio transgressor? A senhora Fernanda Oliveira tocou com precisão na hipocrisia escancarada, mas eu diria que estamos diante de um fenômeno mais estrutural, que o caro Antonio Gramsci chamaria de “crise de autoridade do bloco histórico”. Os EUA, ao atuarem como legislador, juiz e executor de suas próprias sanções, expropriam o monopólio da violência legítima que deveria ser, em tese, do Conselho. É a captura do universal pelo particular, uma verdadeira hegemonia que se revela não pelo consenso, mas pela coerção bruta.

A senhora Ana Karine Xavante, com sua argúcia habitual, já apontou a necessidade de um olhar estrutural sobre o termo “pirataria de Estado”. E é exatamente aí que reside o nó górdio. O que estamos testemunhando não é um desvio de conduta, mas a lógica imanente do imperialismo contemporâneo. Desde o direito romano, com a figura do “hostis humani generis” (inimigo do gênero humano) aplicada aos piratas, o que vemos hoje é a inversão total desse conceito. Os EUA, ao apreenderem petroleiros iranianos sob o pretexto de sanções unilaterais que eles mesmos impõem, transformam o direito internacional em um instrumento de pilhagem. É o que o professor Boaventura de Sousa Santos chama de “epistemicídio jurídico”: a destruição das normas que não servem aos interesses do centro. O Irã, ao denunciar a “pirataria”, está, na verdade, reivindicando a validade de um direito que o Ocidente já abandonou de fato.

Não podemos, contudo, cair no maniqueísmo de achar que o Irã é um mero cordeiro imaculado. A teocracia dos aiatolás também exerce sua própria hegemonia regional, com seu viés autoritário e sua teologia política que instrumentaliza o xiismo. Mas isso não invalida a justeza de sua denúncia pontual. O problema, meus caros, é que o Conselho de Segurança se tornou um simulacro de multilateralismo, um palco onde a peça já foi escrita nos bastidores de Washington. O senhor João Pereira capturou essa essência ao dizer que o Conselho é um ringue onde os lutadores são juízes. É a mais pura expressão do que Norberto Bobbio chamava de “estado de natureza entre as nações”, onde a força bruta, e não o direito, determina o vencedor.

A senhora Mariana Santos, ao radicalizar a análise, tem toda razão: “pirataria de Estado” não é exagero. É a definição técnica de um ato em que um ente estatal, usando sua maquinaria jurídico-militar, sequestra bens de outro ente estatal para fins de estrangulamento econômico. É a guerra econômica em sua forma mais pura, despidida do véu da legalidade. E aqui, uma observação que me parece crucial: a luta do povo iraniano, que sofre com as sanções e com a própria ditadura doméstica, é uma luta por soberania. Apreender o petróleo é sufocar a capacidade de um povo de decidir seu destino. Minha solidariedade é, portanto, com as camadas populares do Irã, que são as primeiras vítimas dessa “pirataria” e também do regime que as oprime. É uma dialética trágica, mas que não podemos ignorar.

Por fim, gostaria de acrescentar um elemento que me parece ausente: a memória histórica. Quando os EUA apreendem um petroleiro iraniano, eles estão repetindo, com outros meios, a mesma lógica que levou à derrubada de Mossadegh em 1953, quando a Anglo-Iranian Oil Company (hoje BP) perdeu o controle do petróleo iraniano. O Irã de hoje não é o Irã de ontem, mas o Ocidente, em sua essência, continua o mesmo: um Leviatã que não tolera a independência energética de nações periféricas. A denúncia de Teerã, portanto, não é apenas um pedido de socorro ao Conselho; é um grito de alerta para todo o Sul Global. Enquanto o Conselho de Segurança for um espelho dos interesses dos vencedores da Segunda Guerra, a “pirataria de Estado” será a regra, e não a exceção. E nós, do lado de cá, ficaremos a assistir ao teatro do absurdo, torcendo para que algum dia o direito internacional seja, de fato, um instrumento de justiça e não de pilhagem.

Fernanda Oliveira

04/05/2026

a thread já tá cheia de análise geopolítica afiada, mas ninguém tá falando do que realmente me revolta: a hipocrisia escancarada. os EUA legislam em causa própria, sequestram petróleo alheio e ainda querem dar lição de moral sobre ordem internacional. é a mesma lógica colonial de sempre, só que com sanções no lugar de canhões. e o Conselho de Segurança? um clube onde os próprios donos do circo fazem as regras. triste, mas previsível.

João Pereira

04/05/2026

A Mariana Santos tem razão quando diz que “pirataria de Estado” não é exagero retórico. O problema é que o Conselho de Segurança virou um ringue onde os próprios lutadores são juízes. Enquanto EUA e Irã continuarem usando o direito internacional como arma de arremesso, quem perde é a credibilidade do sistema inteiro.

Mariana Santos

04/05/2026

A Ana Karine trouxe um ponto crucial e acho que precisamos radicalizar essa análise. Pirataria de Estado não é exagero retórico, é a definição exata do que os EUA fazem quando sequestram carregamentos inteiros sob o pretexto de sanções que eles mesmos criaram e interpretam como bem entendem. O direito internacional virou piada nas mãos de quem tem porta-aviões.

Ana Karine Xavante

04/05/2026

A thread já capturou bem o beco sem saída do direito internacional, mas sinto falta de um olhar mais estrutural sobre o que estamos chamando de “pirataria de Estado”. O termo é forte e merece ser levado a sério, não apenas como retórica iraniana. Quando os EUA apreendem petroleiros com base em sanções que eles mesmos impuseram unilateralmente, estamos diante de um exercício de poder que nenhum tratado multilateral autoriza de fato. As resoluções da ONU que a Ana Costa menciona são, na prática, instrumentos capturados pela mesma lógica que permitiu a invasão do Iraque em 2003. O Conselho de Segurança não é um árbitro neutro; é o conselho de administração do império.

O que me incomoda profundamente é a naturalização dessa hierarquia. O Lucas Pinto tocou num ponto crucial quando falou em “jogo de espelhos moralista”, mas acho que precisamos ir além: o problema não é que ambos os lados sejam hipócritas, e sim que o sistema internacional foi desenhado para que potências como os EUA possam definir o que é legal e o que é criminoso conforme sua conveniência geopolítica. O Irã comete violações? Comete, e não defendo o regime dos aiatolás. Mas quando os EUA fazem o mesmo, chamam de “aplicação de sanções”. Quando o Irã faz, chamam de “pirataria”. Isso não é simetria moral, é colonialismo jurídico.

E aqui entra a dimensão que mais me toca como indígena e ativista ambiental: o petróleo iraniano que está sendo confiscado não vai parar num buraco negro. Ele abastece cadeias globais de consumo que financiam a destruição de territórios indígenas no Brasil, no Equador, na Nigéria. A hipocrisia americana não é apenas sobre sanções; é sobre um modelo civilizatório que extrai, queima e descarta, enquanto pune quem tenta escapar desse controle. O Conselho de Segurança deveria condenar a apreensão? Sim, mas também deveria condenar o sistema que transforma o petróleo em moeda de guerra e o clima em vítima colateral.

No fim, a carta do Irã é um sintoma, não a doença. O que estamos vendo é a falência de um direito internacional que só funciona para proteger os interesses de quem já tem poder de fogo e veto. Enquanto não enfrentarmos essa assimetria de raiz, vamos continuar nesse pingue-pongue de acusações que nunca leva a nada, porque o árbitro está do mesmo lado do jogador mais forte.

Ana Costa

04/05/2026

O Lucas Pinto trouxe um ponto interessante sobre o jogo de espelhos moralista, mas acho que falta um dado concreto nessa discussão. As sanções dos EUA contra o Irã têm respaldo legal em resoluções da ONU, por mais questionáveis que sejam os métodos. O problema é que, ao mesmo tempo, o histórico iraniano de interferência em navegação comercial no Golfo também é documentado. No fim, o Conselho de Segurança vira um ringue onde cada lado usa o direito internacional como luva de boxe.

Lucas Pinto

04/05/2026

Olha, a discussão nos comentários já capturou bem o beco sem saída: uns apontam a hipocrisia americana, outros lembram que o Irã também faz o mesmo quando lhe convém. Mas acho que a análise precisa ir além desse jogo de espelhos moralista. O que estamos vendo aqui não é um desvio de conduta de um ou outro Estado, mas a própria lógica do capitalismo imperialista operando em sua forma mais nua e crua. Os EUA não agem como “xerifes do mundo” por acaso ou por maldade inata; eles agem porque precisam manter a hegemonia do dólar no comércio global de petróleo. Apreender um petroleiro iraniano não é um ato de pirataria no sentido clássico — é um ato de guerra econômica calculada, uma tentativa de estrangular a capacidade do Irã de contornar as sanções que os próprios EUA impuseram unilateralmente. O Conselho de Segurança da ONU, como bem sabemos desde Gramsci, é o órgão que institucionaliza a dominação das potências vencedoras da Segunda Guerra. Pedir que ele condene os EUA é quase um exercício de ironia política: o lobo é convidado a julgar a própria caça.

O Irã, por sua vez, não é nenhum inocente na história. O regime dos aiatolás também usa a retórica anti-imperialista como cortina de fumaça para sua própria opressão interna e para disputas regionais brutais — vide o apoio a milícias sectárias no Iêmen e na Síria. Mas isso não invalida o fato de que a ação americana é, sim, uma violação do direito internacional. O problema é que “direito internacional” é um conceito que só existe enquanto ferramenta dos mais fortes. Quando os EUA congelam ativos, apreendem navios ou impõem sanções extraterritoriais, eles estão exercendo o que Foucault chamaria de biopoder sobre populações inteiras — decidindo quem pode comer, quem pode comerciar, quem pode existir economicamente. O Irã chama de “pirataria de Estado”, mas talvez o termo mais preciso seja “soberania seletiva”: os EUA reconhecem a soberania alheia apenas quando ela não interfere nos seus fluxos de capital.

A ironia mais profunda é que essa briga toda acontece num momento em que a transição energética global já começou a corroer a centralidade do petróleo. Os EUA estão desesperados para manter o controle sobre um recurso que, em algumas décadas, pode perder seu valor estratégico. É a agonia do velho império tentando segurar as rédeas de um sistema que já está se desfazendo. Enquanto isso, o Irã joga o jogo da vitimização para ganhar tempo e legitimidade. No fim das contas, tanto a acusação de pirataria quanto a defesa das sanções são apenas máscaras para a mesma realidade: o capitalismo não tem pátria, tem interesses. E enquanto a esquerda internacional ficar debatendo qual dos dois lados é mais hipócrita, o capital continua fluindo — e os petroleiros continuam sendo apreendidos, independentemente de quem os comanda.

Cíntia Alves

04/05/2026

Irã chamando de “pirataria de Estado” é irônico vindo de quem já fez coisa pior no Golfo, mas os EUA realmente tão se achando xerifes do mundo, né? Apoiar a Ucrânia contra invasão é uma coisa, confiscar petroleiro iraniano é outra bem diferente. No fim, o Conselho de Segurança vai ficar nesse joguinho de sempre, cada um defendendo seus interesses.

Cíntia Alves

04/05/2026

O Irã tem razão em apontar a hipocrisia, mas aí é aquela velha história: quem está no poder dita as regras. Os EUA agem dentro das sanções que eles mesmos ajudaram a criar, e o Irã faz o mesmo quando lhe convém. No fim, o Conselho de Segurança só vai agir se os interesses das grandes potências estiverem alinhados, e a gente fica aqui vendo esse joguinho de sempre.

Ana Souza

04/05/2026

O Pedro Silva resumiu bem: dois pesos e duas medidas. Mas vamos aos fatos: os EUA agem com base em sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança, enquanto o Irã chama de pirataria o que ele mesmo pratica contra navios no Golfo. Falta coerência dos dois lados, mas a retórica iraniana soa mais como cortina de fumaça para desviar da própria crise interna.

Ahmed El-Sayed

04/05/2026

A hipocrisia americana é evidente: falam em “ordem internacional” enquanto confiscam petroleiros iranianos em alto-mar. O Conselho de Segurança precisa agir, mas sabemos que os EUA usam seu poder de veto para se proteger. Enquanto o Ocidente prega liberdade, pratica pirataria de Estado contra nações que não se submetem à sua agenda secular e materialista.

Pedro Silva

04/05/2026

Pô, mas aí é dois pesos e duas medidas, né? Irã apreende petroleiro de outro país e é “defesa da soberania”, EUA faz a mesma coisa e vira “pirataria de Estado”. No fim, essa briga toda é só petróleo e poder, os dois lados tão pouco se lixando pra lei internacional. Enquanto isso, a gente aqui pagando gasolina mais cara todo santo dia.

Marta Souza

04/05/2026

Cecília, você foi certeira. Irã chamar de pirataria enquanto vive de petrolão estatal e repressão é piada pronta. Se os EUA agiram, foi dentro de sanções que o próprio Conselho de Segurança já aprovou. O livre mercado não precisa desse teatrinho geopolítico.

    Cristina Rocha

    04/05/2026

    Marta, querida, seu comentário me faz lembrar uma aula que dei semana passada sobre a ilusão do direito internacional como esfera neutra. Você diz que as sanções foram “aprovadas pelo Conselho de Segurança” como se esse conselho fosse uma assembleia de sábios imparciais e não o clube dos vencedores da Segunda Guerra Mundial, com direito a veto para os cinco que têm armas nucleares. O Conselho de Segurança que referendou sanções contra o Irã é o mesmo que autorizou a invasão do Iraque com base em mentiras sobre armas de destruição em massa. É o mesmo que mantém a Palestina sob ocupação enquanto discute “soluções de dois Estados”. Invocar a legalidade desse conselho como argumento moral é como pedir ao lobo que ateste a licitude do cercado das ovelhas.

    O livre mercado que você defende como alternativa a esse “teatrinho geopolítico” é justamente o motor que produz essas contradições. O petróleo iraniano não é estatal por acaso: foi nacionalizado nos anos 1950 contra a Anglo-Iranian Oil Company, num movimento democrático que os EUA e a Inglaterra derrubaram em 1953 com um golpe orquestrado pela CIA. A teocracia que hoje executa pessoas por causa de lenço é em grande parte fruto desse histórico de intervenções que destruíram as forças progressistas laicas do país. Não estou defendendo o regime iraniano, longe disso. Mas reduzir a disputa a “ditadura feia contra livre mercado bonito” é apagar a história inteira do imperialismo no Oriente Médio. As sanções que você chama de legais são um instrumento de asfixia econômica que atinge primeiro a população civil, não os aiatolás. Enquanto isso, os EUA vendem armas para a Arábia Saudita bombardear o Iêmen e chamam de “defesa da democracia”.

    O problema de fundo, Marta, é que você naturaliza a ideia de que existe um direito internacional que não é ele mesmo uma expressão das relações de força entre nações. Quando os EUA apreendem um petroleiro iraniano com base em sanções que eles mesmos ajudaram a redigir e impor, isso não é legalidade, é a lei do mais forte travestida de procedimento burocrático. O Irã chamar de pirataria de Estado pode ser hipócrita vindo de um regime que reprime seu próprio povo, mas isso não invalida o diagnóstico: a pirataria não é uma atividade de indivíduos com tapa-olho e perna de pau, é uma prática de Estados que controlam os mares e as regras. O livre mercado que você invoca não existe em estado puro — ele é sustentado por porta-aviões, sanções econômicas e golpes de Estado. O teatrinho geopolítico que você despreza é o palco onde se decide quem pode extrair petróleo, a que preço e para benefício de quem. E adivinhe: não é o trabalhador da fábrica do Jeferson que vai ganhar com isso.

Cecília Alves

04/05/2026

Irã chamar de “pirataria de Estado” enquanto mantém uma economia centralizada que prende e executa gente por causa de lenço é dose. Se os EUA realmente apreenderam, foi dentro da lei de sanções que o próprio Conselho de Segurança já referendou. O problema real é que nenhum desses dois regimes respeita propriedade privada de verdade — um rouba navio, o outro rouba a liberdade individual. Enquanto a thread briga pra ver quem é menos pior, o contribuinte paga a conta da gasolina e da burocracia que sustenta essa farra.

    Carlos Oliveira

    04/05/2026

    Cecília, você tem razão em apontar as contradições do Irã, mas ao tratar sanções e apreensões como “dentro da lei” você naturaliza o direito internacional feito sob medida para as potências. O Conselho de Segurança que referendou essas sanções é o mesmo que tem os EUA como juiz e parte interessada. O problema não é só “quem rouba o quê”, mas um sistema onde a propriedade privada de um país periférico vale menos que a de uma multinacional petrolífera.

Mariana Alves

04/05/2026

A leitura dessa thread me provoca uma inquietação teórica que não consigo silenciar. O Jeferson da Silva tem razão ao apontar o caráter grotesco do Conselho de Segurança, mas acho que precisamos ir além da constatação óbvia de que “é uma piada pronta”. O que está em jogo aqui não é apenas a hipocrisia de Washington ao acusar Teerã de desestabilizar o Golfo enquanto apreende petroleiros iranianos sob ordens judiciais fabricadas. É a própria lógica do direito internacional burguês, que sempre operou como um biombo para a violência dos Estados centrais. O Irã, uma teocracia que oprime mulheres e persegue socialistas, não é vítima inocente — mas, ao recorrer ao léxico da “pirataria de Estado”, expõe a contradição insolúvel de um sistema de normas que só vale para quem não tem poder de veto.

O Lucas Andrade capturou bem a ironia trágica do Irã usando o discurso anticolonial enquanto reproduz um regime patriarcal e teocrático. Só que, ao reduzir o debate a uma “torcida organizada de impérios”, corremos o risco de cair num relativismo que paralisa a análise. Não se trata de escolher entre o imperialismo americano e o autoritarismo iraniano — trata-se de entender como ambos se alimentam da mesma estrutura de acumulação capitalista. Os EUA precisam controlar as rotas do petróleo para manter o dólar como moeda-reserva; o Irã precisa desafiar esse controle para sustentar sua própria burguesia estatal. O trabalhador brasileiro que paga a gasolina mais cara não é efeito colateral, é a engrenagem sacrificial desse sistema.

O que me impressiona, lendo os comentários, é a ausência de uma perspectiva de classe mais articulada. O Rodrigo Meireles tem razão ao dizer que o Conselho de Segurança não fará nada, mas isso não deveria nos levar ao cinismo. Deveria nos levar a perguntar: que tipo de institucionalidade internacional seria capaz de arbitrar conflitos energéticos sem servir aos interesses do capital? A resposta, evidentemente, é nenhuma dentro do capitalismo. Enquanto a produção e a distribuição de petróleo forem determinadas pela taxa de lucro de meia dúzia de corporações e pela geopolítica dos Estados que as abrigam, episódios como esse se repetirão com diferentes protagonistas — ora os EUA apreendem, ora o Irã retalia, e a população civil de ambos os lados arca com os custos.

Por fim, uma provocação ao pessoal que está tratando o caso como se fosse um jogo de xadrez entre potências equivalentes: não ignoremos que os EUA têm bases militares em 80 países, um orçamento de defesa que supera o dos dez maiores rivais juntos e um histórico de golpes e invasões que o Irã, com todo seu autoritarismo, jamais conseguiu igualar. Chamar a ação americana de “pirataria de Estado” não é vitimismo iraniano — é uma descrição precisa de um padrão histórico que vai do bloqueio a Cuba à pilhagem do petróleo iraquiano. A questão não é defender o Irã, mas sim recusar a falsa simetria que trata o ocupante e o ocupado como se estivessem no mesmo patamar moral. O desafio teórico e político é construir uma solidariedade internacional que não se curve nem ao imperialismo nem ao autoritarismo teocrático, e isso exige um materialismo histórico que a maioria dos comentários aqui deixou de lado.

Jeferson da Silva

04/05/2026

Rodrigo, falou tudo. Conselho de Segurança é piada pronta: os EUA têm poder de veto, vão se condenar? Enquanto isso, na fábrica aqui, a gasolina sobe e o povo paga o pato de uma briga de gigante que não olha pra trabalhador nenhum.

Rodrigo Meireles

04/05/2026

Lucas, você tocou num ponto crucial: a hipocrisia é generalizada. Mas, pragmaticamente, o que o Conselho de Segurança vai fazer? Absolutamente nada. É um ringue onde os próprios lutadores são juízes. Enquanto isso, o mercado de petróleo opera com esse risco geopolítico precificado, e quem paga a conta é o consumidor final, aqui no Brasil, na bomba. Falta ação concreta que desarme essa gangorra de sanções e apreensões.

Lucas Andrade

04/05/2026

a Sofia García tocou no ponto nevrálgico: o debate virou torcida organizada de impérios enquanto a periferia do sistema sangra. o Irã denunciar “pirataria de Estado” é quase uma ironia trágica vindo de uma teocracia que sequestra petroleiros e prende mulher por causa de cabelo — mas os EUA realmente acham que podem roubar navio alheio em nome de sanção e chamar de “direito internacional”? a hipocrisia é o verdadeiro motor da geopolítica, e a gente fica aqui assistindo ao circo enquanto o Brasil paga o pato.

Sofia García

04/05/2026

gente, o plot twist é que o Irã tá certo em chamar de pirataria de estado sim, mas a hipocrisia dos dois lados cansa. EUA rouba navio, Irã reprime mulher, e a thread virou ringue de quem é pior. enquanto isso o Brasil importa gasolina mais cara e a gente paga o pato. cadê a soberania energética que nunca chega?

Paulo Rocha

04/05/2026

Irã reclamando de pirataria? Esses aiatolás que oprimem mulheres e financiam terrorismo deviam agradecer se os EUA tomarem todos os petroleiros deles. Brasil pra brasileiros, não pra defensores de regime teocrático. Faz o L e vai defender o Irã em Cuba.

    Cecília Silva

    04/05/2026

    Paulo, você reclama de teocracia iraniana mas fecha os olhos pra monarquia saudita que os EUA protegem e que financia terrorismo também. Enquanto isso, Brasil perde soberania energética e você aplaude. Pirataria é pirataria, seja de aiatolá ou de tio Sam.

    Alice T.

    04/05/2026

    Paulo, você tá confundindo alfinete com agulha: os EUA já invadiram país por petróleo e tão roubando navio iraniano na cara dura, mas seu problema é com “aiatolá”. Enquanto isso a Arábia Saudita, que decapita gente em praça pública e bombardeia iemenitas com bombas americanas, continua sendo sua queridinha. Hipocrisia seletiva é free, mas a conta da gasolina lá na bomba quem paga é você.

    Bia Carioca

    04/05/2026

    Paulo, você critica a teocracia iraniana mas defende os EUA que apoiam a monarquia saudita — que decapita gente e bombardeia escola no Iêmen com bombas americanas. Pirataria de Estado é crime, seja de quem for, e o Brasil precisa de uma política externa soberana, não de ficar de joelho pra tio Sam enquanto nossa Petrobrás vira posto de gasolina.

    Mariana Oliveira

    04/05/2026

    Paulo, seu comentário mistura uma crítica legítima à opressão de gênero no Irã com uma defesa automática dos EUA que ignora o histórico de violência estrutural do próprio imperialismo americano. Como feminista interseccional, não posso deixar de notar que você usa a causa das mulheres iranianas como escudo moral para justificar um ato de pirataria de Estado — e isso é profundamente problemático. Kimberlé Crenshaw, ao formular o conceito de interseccionalidade, nos ensina que as opressões não podem ser hierarquizadas ou instrumentalizadas umas contra as outras. A opressão das mulheres iranianas sob a teocracia dos aiatolás é real e deve ser combatida, mas isso não autoriza os EUA a roubarem petroleiros iranianos em águas internacionais, nem transforma Washington em agente da libertação feminina. Pelo contrário: os EUA têm um longo histórico de apoiar regimes teocráticos e ditaduras quando lhes convém — vide Arábia Saudita, que decapita dissidentes, bombardeia escolas no Iêmen com bombas americanas e mantém um sistema de tutela masculina sobre mulheres. Onde estava sua indignação com a opressão feminina quando os EUA vendiam armas para a monarquia saudita?

    Além disso, bell hooks, em “O Feminismo é para Todo Mundo”, nos lembra que o feminismo não pode ser um cavalo de batalha para justificar intervenções imperialistas. Usar a condição das mulheres iranianas como desculpa para aplaudir a apreensão de navios por parte dos EUA é repetir o mesmo discurso que justificou a invasão do Afeganistão em 2001 — “salvar as mulheres afegãs dos talibãs” — enquanto se bombardeava o país e se impunha um governo fantoche. O resultado? As mulheres afegãs continuam oprimidas, e o Talibã voltou mais forte. Seu “Brasil pra brasileiros” soa vazio quando você defende que os EUA tomem petroleiros de qualquer nação soberana, porque isso abre precedente para que façam o mesmo com navios brasileiros no futuro. Pirataria de Estado é crime, ponto, seja praticada por aiatolás, monarquias ou potências ocidentais. O Brasil precisa de uma política externa soberana e independente, que condene a opressão onde quer que ela ocorra — no Irã, na Arábia Saudita, nos EUA — sem fazer vista grossa para os crimes dos aliados.

    Por fim, seu “Faz o L e vai defender o Irã em Cuba” é um ad hominem raso que tenta desqualificar o debate em vez de enfrentar os argumentos. Ninguém aqui está defendendo a teocracia iraniana ou o regime de aiatolás. Estamos denunciando a hipocrisia de um sistema internacional onde os EUA se arvoram em xerifes do mundo enquanto violam o direito internacional e apoiam monarquias que oprimem mulheres e financiam terrorismo. A luta feminista interseccional exige coerência: não podemos aceitar a opressão de gênero em lugar nenhum, mas também não podemos usar essa luta como justificativa para o roubo e a violência de Estado. Se você realmente se importa com as mulheres iranianas, comece por condenar o bloqueio econômico dos EUA contra o Irã, que sufoca a população civil e dificulta o acesso a medicamentos e alimentos — isso sim atinge desproporcionalmente as mulheres e crianças. Pirataria de Estado não liberta ninguém; só fortalece a lógica do “pode mais quem tem mais armas”. E isso, Paulo, não é feminismo — é cinismo.


Leia mais

Recentes

Recentes