O que parecia ser apenas uma pedra sem valor em um quintal de Nova Orleans, nos Estados Unidos, revelou-se uma peça singular da história antiga. Durante uma reforma no jardim de sua residência histórica, a antropóloga da Universidade de Tulane, Daniella Santoro, e seu marido, Aaron Lorenz, encontraram uma laje de mármore com inscrições em latim que remontam ao século II.
Movida pela curiosidade, Santoro procurou especialistas para decifrar o texto gravado, entre eles a arqueóloga D. Ryan Gray, da Universidade de Nova Orleans, e a classicista Susann S. Lusnia. A tradução revelou que se tratava de uma lápide funerária dedicada a Sextus Congenius Verus, um soldado romano da frota pretoriana de Misenum, originário da Trácia, que serviu 22 anos a bordo de um navio chamado Asclepius.
O epitáfio continha a inscrição “Dis Manibus”, uma fórmula latina que pode ser traduzida como “aos espíritos dos mortos”, e mencionava dois herdeiros, Atilius Carus e Vettius Longinus, responsáveis pelo monumento. A autenticidade da peça foi confirmada quando registros do Museo Archeologico Nazionale di Civitavecchia, na Itália, identificaram uma lápide idêntica catalogada antes da Segunda Guerra Mundial.
Civitavecchia, um porto histórico ao noroeste de Roma, sofreu intensos bombardeios durante a guerra, resultando na destruição e dispersão de artefatos de seu museu. É provável que a lápide tenha sido retirada por um soldado americano durante o conflito e, décadas depois, esquecida como simples decoração no quintal de uma casa.
Reconhecendo a relevância histórica do artefato, o FBI, por meio de sua Art Crime Team, assumiu a custódia da peça para garantir sua repatriação à Itália. Desde sua criação em 2004, essa equipe especializada já recuperou mais de 20 mil itens arqueológicos e artísticos, colaborando frequentemente com parceiros internacionais para combater o tráfico de bens culturais.
Esse episódio não apenas levanta questões sobre a ética da repatriação, mas também destaca os desafios de preservar o patrimônio cultural em um mundo cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas. Feita de mármore, uma rocha composta principalmente por calcita, a lápide é suscetível à corrosão devido à exposição a ácidos presentes em chuvas e poluição.
A localização em Nova Orleans, uma cidade costeira com uma das maiores taxas de elevação do nível do mar nos Estados Unidos, agrava os riscos de deterioração. Da mesma forma, cidades portuárias italianas enfrentam ameaças semelhantes, como a exposição ao sal e a erosão, reforçando a necessidade de conservação em ambientes controlados.
Especialistas ressaltam que descobertas arqueológicas acidentais, como esta, devem ser tratadas com cuidado e responsabilidade. Ao encontrar objetos que possam ter valor histórico, é recomendável interromper qualquer movimentação, documentar o local com fotografias e acionar as autoridades ou instituições acadêmicas competentes.
Agora, a lápide de Sextus Congenius Verus está a caminho de retornar ao porto italiano onde foi registrada antes de ser dispersa pela guerra. Conforme destacou o portal EcoTicias, o caso conecta não apenas histórias de conflito e saque, mas também a ciência e a preservação, reforçando os laços culturais entre continentes separados por milênios.
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