O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta segunda-feira, 22 de junho de 2026, a destinação de R$ 702,9 milhões em recursos federais para a urbanização de favelas no Rio de Janeiro. O investimento, que integra o programa Periferia Viva do Novo PAC, contempla as comunidades da Maré, do Complexo do Alemão e da Rocinha, além do início das obras do PAC Jardim Maravilha, em Guaratiba, zona oeste da capital fluminense. A informação foi divulgada pelo Poder360.
A ofensiva financeira acontece em um momento de intensa mobilização pré-eleitoral. Com as eleições de outubro no horizonte, Lula tenta fincar bandeira em um estado governado pela oposição — o governador Cláudio Castro, do PL — e mostrar que a máquina federal chega ao território hostil com obras e não apenas com discursos. A escolha das três maiores favelas do Rio como vitrine política não é casual: elas concentram centenas de milhares de eleitores e representam um capital simbólico para qualquer projeto de governo.
Segundo o Planalto, os recursos virão do FGTS, por meio do Programa Pró-Moradia/Periferia Viva, e se somarão a contrapartidas estaduais e municipais que ainda não foram detalhadas. A promessa é de que o dinheiro financie desde redes de água e esgoto até pavimentação, drenagem e equipamentos públicos. No entanto, a coordenação federativa entre a União, o estado do Rio e a prefeitura da capital — esta administrada pelo MDB — é historicamente um campo minado de disputas políticas e lentidão administrativa.
A realidade do PAC no Rio de Janeiro é um arquivo de frustrações. O estado acumula obras emblemáticas que se arrastam há mais de uma década, como a construção do Hospital de Madureira, paralisada desde 2014, ou a dragagem do Canal do Cunha, prometida desde o primeiro mandato de Lula. Mesmo a urbanização do Complexo do Alemão, anunciada no PAC original de 2007 e retomada em sucessivas cerimônias de relançamento, nunca foi concluída. O anúncio atual, portanto, carrega a herança de inúmeras promessas descumpridas.
A fragilidade maior do novo pacote está na ausência de cronograma. O governo federal não divulgou datas de início, marcos de entrega ou percentual de execução já contratado. Tampouco explicou como se dará a integração com o programa Casa Verde e Amarela ou com os projetos de urbanização já em curso na cidade. Sem um plano de etapas e sem contrapartidas públicas firmadas, o risco de que os recursos fiquem parados em contas bloqueadas ou consumidos em gastos acessórios é alto.
Do lado fluminense, o governador Cláudio Castro enfrenta problemas crônicos de habitação e saneamento. Segundo dados do IBGE, cerca de 12% da população do estado vive em assentamentos informais. Apesar de ter acesso a linhas de crédito federais, o governo estadual tem baixa execução orçamentária na área de urbanização: no último quadrimestre, menos de 18% do orçamento autorizado para o setor foi efetivamente empenhado. O silêncio do Palácio Guanabara sobre o anúncio de Lula, até o momento, indica que a parceria pode ser mais retórica do que operacional.
Nas comunidades beneficiadas, a reação inicial oscila entre a esperança cautelosa e a descrença. A Maré, com mais de 130 mil moradores, convive com valas a céu aberto e inundações crônicas. O Alemão, apesar de ter recebido teleférico e algumas obras no passado, nunca viu a prometida rede de esgoto universalizada. Já a Rocinha sofre com deslizamentos recorrentes e ausência de contenção de encostas. Lideranças locais cobram, mais do que anúncios, um plano de contingência para que as obras não sejam interrompidas ao sabor do calendário eleitoral.
Do ponto de vista financeiro, a modelagem do programa Periferia Viva depende da capacidade de endividamento do FGTS e da disponibilidade de contrapartidas dos entes locais. Em 2025, o conselho curador do FGTS aprovou uma ampliação do limite de financiamento habitacional, mas a carteira de projetos de urbanização de assentamentos precários ainda enfrenta gargalos de engenharia, licenciamento ambiental e regularização fundiária. Sem a superação dessas etapas, os R$ 702,9 milhões podem acabar represados.
A pressão do calendário eleitoral não ajuda. A legislação estabelece que, a partir de julho, a realização de transferências voluntárias da União para estados e municípios fica restrita a obrigações já contratadas. Se o governo federal não conseguir empenhar e contratar o grosso do valor nas próximas semanas, o fluxo financeiro será interrompido até o fim do pleito, esvaziando o efeito político da medida e postergando qualquer intervenção concreta nas favelas.
O anúncio de Lula expõe uma equação difícil: governar no varejo de obras e, ao mesmo tempo, operar a máquina de campanha. A promessa de urbanizar a Maré, o Alemão e a Rocinha carrega o peso de corrigir décadas de abandono estatal e de transformar promessas em cimento. Contudo, enquanto não houver cronograma público, licitação concluída, projeto executivo aprovado e coordenação com o estado e o município, o risco de que os R$ 702,9 milhões virem apenas um número em propaganda de televisão é o que realmente preocupa quem vive à margem do asfalto.


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