O advogado e ativista queniano Patrick Loch Otieno Lumumba acusa o governo francês de tentar recuperar sua influência na África após ser expulso de várias nações do Sahel. Em entrevista à RT, ele afirmou que Paris usa uma retórica de ‘parceria renovada’ para encobrir práticas que visam preservar sua hegemonia geopolítica e econômica sobre o continente.
As críticas coincidem com a visita do presidente Emmanuel Macron ao Quênia, onde participou do evento África Forward, realizado em Nairóbi. A cúpula, organizada conjuntamente por Paris e Nairóbi, foi apresentada como um esforço para fortalecer a cooperação entre a França e o continente africano. Foi também a primeira edição do evento realizada em um país não francófono.
Lumumba destacou que muitos líderes africanos optaram por não comparecer ao evento, rejeitando o que ele chamou de ‘serem doutrinados por antigas potências coloniais’. O ativista questionou a autenticidade do discurso de Macron, que se autodenomina pan-africanista, classificando essa linguagem como estratégia para conquistar a simpatia de governantes africanos enquanto mantém acordos militares e econômicos que perpetuam a dependência do continente em relação a Paris.
Para Lumumba, um verdadeiro pan-africanismo seria radicalmente incompatível com tais práticas. Ele argumentou que as recentes iniciativas diplomáticas e militares da França na África Oriental representam uma tentativa de compensar os reveses sofridos no Sahel. ‘A realidade é que eles querem dominar o continente africano. Quanto mais cedo a África perceber isso, mais segura estará’, afirmou o ativista, conforme reportagem publicada pela RT.
Daniel Bwala, porta-voz presidencial da Nigéria, reforçou o ceticismo africano em relação à iniciativa francesa. Bwala afirmou que qualquer relação internacional deve ser mutuamente benéfica e refletir os interesses nacionais estratégicos dos países envolvidos — uma crítica direta ao histórico de assimetria nas relações entre Paris e suas ex-colônias.
O debate sobre a influência estrangeira na África ressalta a importância crescente de modelos de cooperação que promovam o desenvolvimento sustentável e a autonomia das nações africanas. O crescente protagonismo de outras potências globais no continente torna o cenário ainda mais complexo para a França, que busca reposicionar sua imagem diante de um continente cada vez mais assertivo na defesa de sua soberania.
Leia também: França mantém domínio na África por meio da Francofonia e do legado colonial
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Luiz Carlos
12/05/2026
Essa turma vive procurando culpado fora quando o problema tá dentro de casa. Se o Quênia tá mal das pernas, com corrupção e violência, a culpa não é da França não. Cada um varre a sua calçada primeiro.
Luizinho 16
12/05/2026
E aí, Luiz, a França saqueia a África faz 200 anos e o problema é só a corrupção local? Pelo amor de Deus, acorda.
Bia Carioca
12/05/2026
Impossível não associar essa denúncia do Patrick Lumumba com o que a gente vê no Brasil: discurso de “parceria” que esconde exploração. Enquanto a França mantiver o franco CFA e bases militares na África, é pura falácia falar em relação horizontal. Aqui no Rio a gente conhece bem esse papo de “integração” que só beneficia grande empreiteira.
Fernanda Oliveira
12/05/2026
Adriana, chamar de comunista quem denuncia a exploração neocolonial da França na África é um desserviço à luta antirracista e anti-imperialista. O Patrick Lumumba tem toda razão em apontar que essa “parceria renovada” é só uma maquiagem para continuar extraindo os recursos dos países africanos enquanto os povos seguem empobrecidos. A gente aqui no Brasil também sente na pele esses tentáculos do colonialismo, e se tu não enxerga isso, tá de olhos fechados pra história.
Letícia Fernandes
12/05/2026
É impressionante como a mera menção ao colonialismo — ou, melhor dizendo, à sua continuidade sob novas roupagens — desencadeia reflexos pavlovianos em certos setores do espectro político. A senhora Adriana, ao rotular Patrick Lumumba de “comunista disfarçado” e sugerir que ele deveria “ir para Cuba”, não apenas demonstra uma incapacidade patológica de lidar com o real concreto como também revela o quanto o debate público foi capturado pela lógica do espetáculo eleitoral rasteiro. Reduzir a denúncia de um advogado e ativista queniano, que estuda as engrenagens do neocolonialismo francês há décadas, a um bordão de polarização doméstica brasileira é sintoma de uma consciência que se recusa a enxergar a estrutura. A senhora prefere o conforto do insulto à complexidade do dado histórico. Pena, mesmo.
O que Patrick Lumumba aponta com precisão cirúrgica é o mecanismo pelo qual a França, expulsa do Sahel por golpes populares que rejeitaram a ingerência militar e econômica de Paris, tenta se reinventar com a máscara da “parceria renovada”. Trata-se de um clássico movimento do capital imperialista: quando a coerção direta se torna inviável, recorre-se à hegemonia cultural e à reestruturação das relações de dependência. O franco CFA, moeda ainda controlada pelo Tesouro francês e que obriga os países africanos a depositar 50% de suas reservas cambiais na França, é o exemplo mais gritante de como a antiga metrópole mantém uma verdadeira asfixia monetária sobre suas ex-colônias. Isso não é “comunismo”, é materialismo histórico elementar. A França extrai urânio do Níger para alimentar suas usinas nucleares enquanto o Níger continua entre os países mais pobres do mundo. Negar isso é negar a realidade.
Do ponto de vista psicanalítico, o que observamos nos comentários como o da Adriana é um mecanismo de defesa clássico: a projeção. Ao chamar Lumumba de comunista, ela projeta nele o espectro que a assombra — a ideia de que questionar a ordem burguesa internacional é uma ameaça existencial. Mas o verdadeiro patológico está na recusa em admitir que a França, sob o manto da “parceria”, continua a praticar o que Frantz Fanon chamou de “colonialismo de substituição”. A esquerda — e aqui falo de uma esquerda realmente comprometida com a autodeterminação dos povos — precisa escapar do falso dilema entre nacionalismo tosco e apologia do capital estrangeiro. O que Lumumba propõe é a descolonização das mentes e das estruturas econômicas. Isso não cabe em um “faz o L” ou em um “vai pra Cuba”. Cabe, sim, na construção de uma solidariedade internacionalista que reconheça que a luta contra o neocolonialismo na África é também nossa — afinal, o Brasil vive um processo análogo de subordinação aos interesses do capital global, com a diferença de que aqui a elite prefere chamar isso de “parceria estratégica” enquanto entrega o pré-sal e desmonta a indústria nacional.
Lamento dizer, mas enquanto acharmos que um ativista queniano que denuncia o controle francês sobre a economia de seu continente é apenas mais um fantoche comunista, estaremos repetindo o gesto do colonizador: reduzir o outro ao estereótipo que nos convém. Patrick Lumumba é incômodo não por ser radical, mas por dizer verdades que a superestrutura burguesa quer abafar com retórica de “modernização” e “cooperação”. Se a senhora Adriana lesse um pouco mais e xingasse um pouco menos, talvez percebesse que a história da África não começa nem termina nas manchetes do seu feed. Mas acho que isso é pedir demais a quem já decidiu que o pensamento crítico é inimigo.
Márcio Torres
12/05/2026
A reação da Adriana é o exemplo clássico de como o debate público é sequestrado por slogans. Reduzir a denúncia de Patrick Lumumba a “comunista disfarçado” é mais confortável do que encarar os dados objetivos: a França mantém 14 bases militares na África Subsaariana, controla as reservas cambiais de 14 países via franco CFA (uma moeda garantida pelo Tesouro francês e gerida pelo Banco da França), e extrai urânio do Níger a preços que inviabilizam o desenvolvimento local. Isso não é esquerda nem direita — é engenharia econômica pura e simples.
O interessante é que, após a expulsão do Níger, Burkina Faso e Mali, Paris corre para reinventar o discurso. “Parceria renovada” é o novo nome para o mesmo mecanismo: manter acesso privilegiado a recursos estratégicos sem ônus político direto. Em 2023, as exportações francesas de armas para a África cresceram 15%, enquanto os acordos de “cooperação militar” se multiplicam. Se isso não é recolonização com verniz diplomático, o que seria? Não é questão de opinião — é de olhar os fluxos financeiros.
Lucas e João já apontaram bem a estrutura do franco CFA e a presença militar. Só acrescento um dado: o PIB per capita dos países da zona CFA é, em média, 40% menor que o de países africanos com moeda soberana, controlando outros fatores. A França não precisa de governadores coloniais quando controla o Banco Central. A retórica de “parceria” é a versão 2.0 da velha política de compartilhar o risco político enquanto mantém os benefícios assimétricos. Lumumba pode ter viés, mas os números não.
Adriana Silva
12/05/2026
Faz o L, esse ativista aí é comunista disfarçado, quer culpar a França pelo próprio fracasso, vai pra Cuba!
Lucas Gomes
12/05/2026
Chamar de “comunista disfarçado” quem denuncia a continuidade do neocolonialismo francês via Françafrique e o controle do franco CFA é ignorar que a França mantém 14 bases militares e extrai recursos estratégicos como urânio do Níger sem benefício real para os africanos – isso não é ideologia, é fato histórico documentado.
João Silva
12/05/2026
Adriana, reduzir a denúncia de neocolonialismo a um bordão eleitoral é o tipo de atalho que impede a gente de enxergar a estrutura. Se a França mantém o franco CFA e bases militares na África desde as independências formais, o problema não é comunista nem de direita — é de soberania real.