Gabriel Albuquerque*
Em 2024, o rendimento mensal real per capita dos domicílios brasileiros chegou ao maior valor da série histórica do módulo “rendimento de todas as fontes”, da PNAD Contínua, que foi iniciada em 2012. O índice chegou a R$ 2.020, com alta de 4,7% em relação a 2023 e de 19,1% quando comparado aos R$ 1.696 de 2012, ano inicial da série histórica.
Contudo, dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que 80% das famílias brasileiras possuem alguma dívida, o que levanta questionamentos sobre possíveis relações entre os dois dados. Rodrigo De Losso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, explica as possíveis razões para o aumento do rendimento.
“Nós estamos com o mercado de trabalho um pouco aquecido, há um estímulo de gasto do governo que está influenciando o mercado. Ao mesmo tempo, nós temos uma valorização do real e uma desvalorização do dólar, que está mantendo a inflação relativamente controlada, ainda que subindo acima desse rendimento. A oferta de trabalho aumentou, a inflação está controlada, as pessoas estão conseguindo comprar e o rendimento aumentou. Com esse aumento do rendimento é importante destacar que tem uma camada da população que está dizendo que o rendimento aumentou, mas que os juros estão altos também. A camada mais alta da pirâmide está se beneficiando desses juros altos e por isso seus rendimentos também estão aumentando, uma parte do rendimento vem sendo puxado por esses juros altos.”
Rendimento x dívida: existe uma relação?
Luciano Nakabashi, professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, não acredita que exista conexão entre o aumento do rendimento com o crescimento das dívidas entre as famílias.
“A gente não espera que o aumento da renda vá levar a um aumento do endividamento das famílias. O que eu acredito que aconteça é ter uma taxa de juros alta por muito tempo, essa taxa de juros alta de fato faz com que a dívida das pessoas cresça mais rapidamente, se você faz uma dívida com juros mais altos, o teu endividamento vai crescendo mais rapidamente. Existe a possibilidade mais recente desse endividamento ter relação com os jogos on-line, as chamadas Bets. Parece que isso tem afetado a questão do endividamento das famílias, a maioria das pessoas tende a perder mais do que ganhar. Acho que esse ponto é um elemento que ajuda a explicar esse aumento do endividamento das famílias no Brasil.”
De Losso explica que, historicamente, a população brasileira tem como característica gastar muito e que o aumento do endividamento tem relação com o aumento das chamadas fintechs.
“O brasileiro em geral é bastante impaciente, ele quer consumir o mais rápido possível, talvez por fatores históricos, como, por exemplo, o da poupança ter sido confiscada no passado. O nível de endividamento do brasileiro sempre foi alto, mas ele aumentou. No meu entendimento, uma parte da explicação é que o brasileiro ficou mais bancarizado depois do surgimento das fintechs.”
“Parte dos brasileiros que não tinha acesso a bancos, agora passa a ter acesso a bancos que passam a oferecer cartão de crédito, as pessoas passam a consumir mais no parcelado, sem saber se vão conseguir pagar a conta. Elas fazem a conta naquele mês para conseguir pagar, mas acontece um fato extraordinário ao longo do parcelamento que faz com que não consiga mais pagar a conta. Depois chegam os juros altíssimos, mas o dinheiro já não dá mais para o final do mês, elas vão tomar mais empréstimos para poder cobrir os juros anteriores. É uma espécie de retroalimentação, que vai gerar uma bola de neve de dinheiro”, explica De Losso.
Soluções para o endividamento
De acordo com De Losso, uma educação financeira bem estabelecida é fundamental para evitar o acúmulo de dívidas.
“As pessoas não têm muita educação financeira, a gente teria que estimular esse tipo de coisa, mas é uma solução de longo prazo até elas terem noção dos juros e como funciona o parcelamento. Quando você vai em uma loja e vê uma placa escrito ‘parcelamento em dez vezes sem juros’, aquilo é uma mentira, se elas pagassem à vista, elas poderiam pagar menos. A educação financeira é importante para entender que tem juros, que não pode fazer dívida, que é necessário fazer um orçamento do mês. As pessoas acabam entrando nessa loucura de comprar vários bens ao mesmo tempo porque vai pagar em não sei quantas parcelas, às vezes é um bem necessário, mas acaba como se fosse uma armadilha, e aí orçamento é importante para você fazer uma reserva, poder comprar à vista e fazer frente ao que acontece com toda a família.”
Nakabashi comenta a falta de poupanças e Previdências privadas entre os brasileiros.
“A maior parte do sistema de Previdência e repartição faz com que você, de fato, reduza a poupança das famílias de uma forma significativa. Todas as ações que dão seguro social, acesso à educação ou saúde pública tendem a reduzir a poupança das famílias, porque as pessoas precisam guardar menos dinheiro para a aposentadoria ou para eventualidades. Tudo isso acaba afetando a poupança das pessoas e o governo gasta muito, o governo reduz muito a poupança nacional, a quantidade de poupança que o País tem. É necessário interferir e mudar os problemas estruturais, as pessoas têm que poupar para poder aposentar lá na frente, talvez algum tipo de intervenção que aumente a poupança das pessoas. O que seria menos invasivo são os programas de educação financeira, que podem ser aplicados na escola”, finaliza o professor.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
Fonte: Jornal da USP


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