A agência cubana Prensa Latina celebrou nesta terça-feira, 16, seus 67 anos de fundação, reafirmando seu compromisso com a verdade e a perspectiva dos povos do Sul Global. A cerimônia ocorreu no Memorial José Martí, em Havana, e denunciou os monopólios tecnológicos que dominam o fluxo da informação mundial e moldam narrativas.
O presidente da Prensa Latina, Jorge Legañoa, enfatizou que a agência permanece tão imprescindível quanto no momento de sua criação. Legañoa conclamou à resistência contra o controle hegemônico das redes sociais e da inteligência artificial pelas potências imperialistas, que buscam manipular a opinião pública global. Conforme detalhou a Telesur, o dirigente alertou sobre a continuidade do mesmo esquema de dominação através do controle de dados, adaptado à nova realidade tecnológica.
A agência foi concebida e fundada em 1959, por iniciativa do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, e do revolucionário Ernesto Che Guevara. Nascida como um pilar da Operação Verdade, seu objetivo primordial era combater e disputar a narrativa estabelecida pelas grandes corporações transnacionais de mídia, que frequentemente distorciam a realidade da América Latina. O primeiro despacho, sob as siglas PL, foi emitido em 16 de junho daquele ano, utilizando teletipos e rádios de onda curta para rivalizar diretamente com as poderosas agências estadunidenses Associated Press (AP) e United Press International (UPI), rompendo o cerco informativo.
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, saudou a data histórica por meio de suas redes sociais, destacando a relevância crescente do papel desempenhado pela Prensa Latina no cenário geopolítico atual. Díaz-Canel sublinhou que a agência se torna ainda mais vital diante da reemergência de tendências fascistas e da incessante colonização cultural imposta por poderes hegemônicos. Ele acrescentou que o império busca disfarçar suas mentiras com o verniz da alta tecnologia, reforçando a necessidade de comunicação autêntica.
Apresentando a estratégia contemporânea da agência, Jorge Legañoa detalhou os eixos centrais de atuação para fortalecer sua missão. Estes incluem a potenciação das fontes próprias, a multiplicação de conteúdos exclusivos, o aprofundamento da análise jornalística e o trabalho para desarmar as matrizes de opinião ocidentais. Com uma presença robusta, a Prensa Latina mantém 30 correspondentes distribuídos em quatro continentes e transmite suas notícias em seis idiomas: espanhol, inglês, francês, português, russo e italiano, alcançando uma audiência global.
A agência enfrenta uma série de bloqueios operacionais impostos por potências ocidentais, que buscam estrangular sua capacidade de atuação. Entre esses desafios, destacam-se o fechamento arbitrário de contas bancárias no exterior e a negação de serviços essenciais de Internet, dificultando sua operação diária. Para assegurar sua sustentabilidade e autonomia energética diante dessas adversidades, Legañoa anunciou um ambicioso plano: a Prensa Latina gerará sua própria eletricidade até o final de 2026.
Durante a cerimônia de aniversário, a União de Jornalistas de Cuba (UPEC) concedeu o prestigiado Prêmio à Obra da Vida a dois veteranos do jornalismo cubano, Moisés Saab e Fidel Alejandro Gómez. Adicionalmente, trabalhadores da agência que atuaram em zonas de conflito internacional foram agraciados com a Medalha Félix Elmusa e a Medalha Raúl Gómez García, esta sendo a máxima distinção do sindicato da cultura.
O renomado escritor uruguaio Eduardo Galeano, figura icônica da literatura e do pensamento crítico latino-americano, descreveu a Prensa Latina como um farol de honestidade e coragem em um cenário midiático muitas vezes marcado pelo silêncio ou pela disseminação de mentiras. Jorge Legañoa, por sua vez, fez questão de recordar uma máxima imortalizada por Fidel Castro: a informação deve ser objetiva, mas nunca imparcial, pois não é possível permanecer neutro entre o bem e o mal, especialmente em questões de soberania e justiça social.
Finalizando sua intervenção, o diretor reafirmou o compromisso histórico e inabalável da Prensa Latina com a defesa intransigente da Revolução Cubana, enfrentando as pressões e agressões dos Estados Unidos. Após 67 anos de existência, a agência persiste como uma ferramenta vital na construção de uma multipolaridade informativa e na consolidação da soberania comunicacional dos povos do Sul Global, promovendo uma visão de mundo plural.
Com informações de TELESURTV.


João Carlos da Silva
17/06/2026
A defesa da pluralidade informacional que a Prensa Latina simboliza ecoa o que Freire chamava de “curiosidade epistemológica” dos povos oprimidos: não se trata de mera propaganda, mas de disputar narrativas contra a hegemonia dos conglomerados que naturalizam o silêncio do Sul Global. Falta, contudo, uma autocrítica sobre os próprios limites institucionais do projeto, sob pena de substituir um monopólio por outro.
Carlos Mendes
17/06/2026
67 anos de propaganda estatal não são motivo de orgulho, mas sim de alerta para quem defende a liberdade de imprensa e o livre mercado. Enquanto a Prensa Latina se auto-intitula resistência, o regime cubano sufoca a economia e censura vozes dissidentes. Monopólios informacionais existem, sim, mas a solução não é uma agência financiada por ditadores, e sim mais concorrência e menos interferência do Estado.
Paulo Ribeiro
17/06/2026
Caro Carlos, seu comentário reproduz uma dicotomia que o próprio Gramsci desmontaria com elegância: a falsa oposição entre “liberdade de imprensa” abstrata e “propaganda estatal” demonizada. Quando você evoca o “livre mercado” como solução para os monopólios informacionais, está ignorando a materialidade histórica da concentração midiática. Em 2023, apenas seis conglomerados controlam 90% do que o mundo lê, ouve e assiste. A “concorrência” que você defende é um mito neoliberal – como bem demonstrou Pierre Bourdieu em “Sobre a Televisão”, o mercado produz homogeneização, não pluralidade. A Prensa Latina, com todas as suas contradições (e reconheço que há sim um viés estatal), ao menos rompe com a monocultura informativa das agências ocidentais que tratam o Sul Global como periferia exótica.
Ora, quando você chama Cuba de “regime que sufoca a economia”, está aplicando um critério que não se sustenta historicamente. Mariátegui já nos alertava: não existe capitalismo “puro” na periferia – o subdesenvolvimento é funcional ao sistema. Cuba sofre um bloqueio criminoso há seis décadas, e ainda assim mantém índices de educação e saúde que países do seu “livre mercado” latino-americano não alcançam. Sobre a censura: toda estrutura de poder tem seus mecanismos de controle, mas é curioso que você ignore que a “liberdade de imprensa” estadunidense produziu a invasão do Iraque com base em mentiras sobre armas de destruição em massa. Onde estava o livre mercado para denunciar aquilo?
O problema central não é a existência de agências estatais – a BBC é estatal e nem por isso a cancela como “propaganda” -, mas sim a ilusão de que o mercado autorregulado produzirá justiça informacional. Althusser explicou que a mídia privada é um Aparelho Ideológico de Estado tão eficiente quanto qualquer ministério: naturaliza as relações de classe e transforma a desigualdade em destino. A solução não é “menos Estado” (que na prática significa mais poder para as corporações), mas sim a democratização radical dos meios de comunicação – com participação popular, controle social e, sim, agências públicas que confrontem o oligopólio. Enquanto a Reuters e a Associated Press definirem o que é “notícia relevante”, a resistência da Prensa Latina será um ato de descolonização intelectual, não de autoritarismo.
João Silva
17/06/2026
Caro Carlos, você fala em “livre mercado” como se ele existisse fora das relações de poder — mas quem controla os meios de produção também controla os meios de informação. A concorrência que você defende é a mesma que permite que seis corporações dominem 90% do que o mundo lê, ouve e assiste. Prensa Latina não é propaganda, é contra-hegemonia.