A mais recente pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada nesta semana, traz um alívio estratégico para o Palácio do Planalto ao mesmo tempo em que acende um alerta decisivo para o campo político: a rejeição pura e simples ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está se diluindo, mas o eleitor que emerge desse movimento não vai diretamente para a aprovação, e sim para uma zona cinzenta de indecisão. O levantamento, que ouviu 2 mil eleitores em 130 municípios entre os dias 13 e 17 de junho, mostra a avaliação negativa da gestão recuando de 40% em março para os atuais 38%. A migração desse contingente, no entanto, não foi para a avaliação positiva, que se manteve estatisticamente estável, mas para a faixa dos que consideram o governo ‘regular’, um segmento que se consolida como o principal terreno de disputa para as eleições de 2026.
Os dados, analisados com exclusividade pela Revista Fórum, apontam para uma profunda reconfiguração do tabuleiro eleitoral, onde o voto de protesto cede espaço a um pragmatismo difuso, mas ainda não convertido em apoio. A chamada ‘avaliação regular’ funciona como um abrigo temporário para eleitores cujo descontentamento extremo diminuiu, mas que permanecem céticos quanto à efetividade do governo em melhorar suas vidas. Para o presidente Lula, que busca a reeleição, essa é a boa e a má notícia ao mesmo tempo: a aversão frontal cedeu, mas a confiança para um novo voto de aprovação ainda não foi construída.
Este eleitor ‘regular’ — que representa cerca de 28% do eleitorado segundo o instituto — é particularmente sensível a um indicador que vai além dos grandes números da macroeconomia: o custo de vida. Embora a inflação oficial esteja próxima do teto da meta e os índices de desemprego tenham cedido, a percepção de ‘apertamento’ no orçamento doméstico é avassaladora. Pesquisas recentes indicam que 70,4% da população percebe um aumento no custo de vida. Mais grave: 40% dos eleitores afirmam estar mais endividados do que no ano anterior, com o endividamento familiar atingindo um pico histórico em março deste ano.
O fenômeno do empobrecimento da percepção de consumo cria um eleitor volátil e de difícil fidelização. Ele não está mais convencido de que a situação está ‘péssima’, como poderia afirmar no auge da crise econômica, mas sente na prática que seu poder de compra está sendo severamente corroído toda vez que vai ao supermercado. A pressão inflacionária sobre itens básicos da cesta de consumo, como a alta de 45,4% no preço do tomate, 28,1% no feijão carioca e 14% na batata nos 12 meses encerrados em março, transforma a economia de gestão em economia de experiência pessoal, minando a aprovação entusiástica que o governo precisa para se reeleger.
A complexidade do cenário atual é amplificada pela fragilidade da base governista no Congresso Nacional. A conversão dessa faixa de indecisos em apoio político não depende apenas de melhoras econômicas abstratas, mas da capacidade real do Palácio do Planalto em entregar um pacote legislativo que produza impacto social direto, rápido e perceptível. A anomalia institucional é evidente: o governo Lula enfrenta a menor taxa de aprovação de propostas de iniciativa exclusiva da Presidência desde a redemocratização, com apenas 28% das matérias aprovadas entre 2023 e 2025. Para piorar, uma percepção majoritária de 70% da população, medida pelo Datafolha em maio, vê a relação entre Planalto e Legislativo como sendo de confronto, não de cooperação.
Esta equação política força uma redefinição de rota. Sem um eleitor apaixonado ou ideologicamente mobilizado, e com um ‘centro-indeciso’ em forte expansão, a chave para a reeleição não está em discursos polarizadores, mas na aprovação de medidas que gerem benefícios palpáveis: novos programas robustos de transferência de renda, grandes projetos de infraestrutura com geração massiva de empregos formais e políticas de incentivo que aqueçam a economia popular. A grande aposta do governo terá que ser, necessariamente, uma política de resultados materiais e uma negociação muito mais pragmática e ampla com as forças do Congresso, sob o risco de ver a agenda legislativa continuar desidratada.
A autonomia conquistada pelo Legislativo nos últimos anos, que avançou sobre o orçamento e a definição de pautas, coloca Lula diante do dilema de ampliar a coalizão para destravar a ‘entrega’ que o eleitor regular tanto exige. A falha em converter esse segmento não apenas comprometerá o projeto de reeleição, como também pode fragilizar ainda mais a autoridade do Executivo frente a um Congresso empoderado. A geografia do voto que se desenha é clara: o eleitor não está indeciso entre ‘esquerda’ e ‘direita’ no campo abstrato, mas entre a frustração com o presente e uma esperança difusa de que as coisas possam funcionar de forma melhor e mais justa.
A dinâmica atual expõe uma mutação sociológica do eleitorado. Nos extratos de renda mais baixa, historicamente a fortaleza do lulismo, a percepção de que a situação econômica piorou é mais aguda. Mesmo com setores específicos esboçando uma melhora na formalização do trabalho, a realidade do orçamento familiar comprometido por dívidas básicas e pela comida cara transforma a ida às compras do mês em um pesadelo constante. É nesse microcosmo — na fila do açougue e na gôndola do supermercado — que a eleição de 2026 começará a ser decidida, muito antes do início da campanha oficial.
Para o campo progressista, a leitura estratégica que emerge da pesquisa Ipsos-Ipec é de que a disputa não se dará sobre a rejeição ao bolsonarismo, mas sobre a capacidade de transformar a trégua do eleitor em um contrato de confiança renovada. A baixa da rejeição não é uma vitória: é uma janela de oportunidade que exige do governo uma transição urgente da retórica de defesa institucional para a execução agressiva de uma política de bem-estar econômico popular. O tempo entre a ‘avaliação regular’ e a ‘aprovação convicta’ é medido em meses, e a moeda de troca será, cada vez mais, a dignidade material do povo brasileiro.


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