Em meio à reta final de articulação para a convenção nacional do PL, marcada para o dia 25 de julho, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, fez uma admissão pública rara sobre o processo que lançou Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato à Presidência da República. Em entrevista à CNN Brasil nesta terça-feira (21), o dirigente reconheceu que o senador “não estava preparado para ser candidato” e que sua indicação partiu diretamente de Jair Bolsonaro, sem qualquer construção prévia de base política nacional. “Ele foi escolhido, o Bolsonaro escolheu o Flávio, e agora que nós estamos conseguindo andar nesse assunto”, disse Valdemar, ao comentar as dificuldades do partido em fechar alianças com o Centrão.
A fala não é um detalhe menor. Ela chega no momento em que a campanha do PL enfrenta o pior cenário de isolamento partidário desde o lançamento da pré-candidatura, com as principais siglas de centro-direita mantendo distância pública do senador — mesmo às vésperas da convenção que deve oficializar sua candidatura.
Uma admissão que confirma o diagnóstico dos bastidores
O reconhecimento de Valdemar reforça o que colunistas políticos já vinham descrevendo havia dias. Segundo relato do jornalista Ricardo Noblat, aliados do próprio PL vêm reclamando que Flávio conduz a campanha de forma centralizada, ouvindo apenas o núcleo bolsonarista mais próximo — do qual, segundo os relatos, o próprio Valdemar estaria excluído. A tarefa de costurar alianças foi delegada ao coordenador de campanha, Rogério Marinho, que também colhe críticas internas por dificuldades de diálogo com dirigentes partidários.
Na entrevista, porém, Valdemar tentou equilibrar autocrítica com otimismo, listando conversas em andamento com PP, União Brasil, Republicanos e Podemos, além de tratativas de aliados mineiros com o PSDB. Uma reunião estava prevista para a tarde desta terça-feira entre o próprio Valdemar, Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho, justamente para tentar destravar essas negociações.
Isolamento visível na convenção estadual
O contexto por trás da fala de Valdemar ficou evidente na segunda-feira (20), durante a convenção estadual da federação União Brasil-PP em São Paulo. Flávio Bolsonaro compareceu ao evento na tentativa de se aproximar das siglas — e recebeu apoio das lideranças paulistas dos dois partidos, além do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas o gesto expôs um contraste incômodo: os presidentes nacionais das três legendas — Antonio Rueda (União Brasil), Ciro Nogueira (PP) e Marcos Pereira (Republicanos) — nem sequer compareceram ao evento, alegando compromissos em outras agendas.
Segundo a coluna de Igor Gadelha, publicada no Metrópoles, a ausência dos três dirigentes nacionais foi deliberada: o receio era que suas presenças no mesmo palanque de Flávio fossem interpretadas como um aceno de apoio nacional das legendas à candidatura do senador — o que nenhuma delas está, por ora, disposta a assumir formalmente.
Sem vice e sem federação fechada, a poucos dias da convenção
A quatro dias da convenção nacional do PL, Flávio também segue sem vice definido. Entre os nomes avaliados internamente estiveram a senadora Tereza Cristina (PP-MS), apoiada por Valdemar mas dependente de um acordo hoje distante com a União Progressista, além de Simone Marquetto e Clarissa Tércio, ambas do PP, que não tiveram bom desempenho em pesquisas internas de aceitação. Mais recentemente, o deputado Eduardo Bolsonaro sugeriu o nome da deputada Júlia Zanatta (PL-SC), mas o perfil mais ideológico da parlamentar encontra resistência entre os partidos do Centrão que o PL tenta atrair.
Um padrão que se repete desde maio
O episódio de hoje se soma a uma sequência de crises que já vinham corroendo a capacidade de articulação da campanha — do vazamento dos áudios envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, em maio, ao desentendimento público entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que também abalou o PL Mulher e interrompeu o processo de escolha de candidatas ao cargo de vice. Some-se a isso o próprio custo político das tarifas anunciadas pelo governo Trump contra produtos brasileiros — medida associada, na opinião pública, à articulação de aliados do senador com Washington.
Some-se a isso o fato, já noticiado, de que a falta de uma coligação fechada até o fim do prazo das convenções pode custar a Flávio até 20% menos tempo de propaganda gratuita em rádio e TV do que o presidente Lula (PT) — um prejuízo concreto que, segundo analistas, tende a se agravar justamente pela dificuldade de diálogo que o próprio presidente do PL, agora, admite publicamente.


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