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Guinada à esquerda?

Por Miguel do Rosário

01 de fevereiro de 2012 : 15h10

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Os grandes jornais brasileiros amanheceram histéricos nesta quarta-feira. A razão seria uma suposta guinada à esquerda da presidente. Sua decisão de não participar do Fórum Econômico em Davos, para o qual enviaram seus principais colunistas, e participar do Fórum Social em Porto Alegre, lhes provocou um profundo mal estar. Merval Pereira há dias escreve entediantes artigos sobre a crise na Europa.

E agora, para culminar, a presidente critica os EUA em pleno solo cubano!

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As capas são praticamente idênticas. Confira:

 

Na verdade, Dilma soube escapar de uma armadilha diplomática montada pela imprensa. Se ela fizesse qualquer crítica aos direitos humanos em Cuba ou recebesse dissidentes, estaria montada uma crise diplomática, e os jornais abririam espaço para pesadas críticas à esquerda. As portas seriam abertas para os representantes do PSOL.

A presidente, no entanto, agiu conforme sua história. A surpresa nem foi a ausência de críticas à Cuba e sim as alfinetadas que deu nos EUA, ao mencionar a prisão de Guantánamo.

Ao dizer que ninguém possui teto de vidro, e que o Brasil também tem seus próprios problemas com direitos humanos, e que não se deve usar essa bandeira para fazer o combate político-ideológico, a presidente sintetizou a sua política externa nesse campo.

Matéria no Estadão, no Globo e na Folha.

Entretanto, mais do que escapar de uma armadilha diplomática, Dilma fez um importante gesto à esquerda brasileira, muito afeita à história de Cuba e crítica aos desmandos imperalistas dos EUA. Num momento em que o Planalto passa por momentos de atrito com a centro-direita da base aliada, sobretudo com setores do PMDB, uma aproximação com a esquerda lhe garante apoio dos sindicatos, movimentos sociais e importantes franjas vermelhas dos partidos progressistas.

Confira as seguintes notas publicadas hoje no Panorama Político:

Essa nota revela um problema que pode se tornar sério para o governo Dilma, e ao mesmo tempo aponta mudanças mais profundas na orientação política do governo que só seriam totalmente resolvidas em 2014, com a eleição de um parlamento mais afinado com uma nova configuração ideológica.

Também publicada no Panorama, a informação abaixo revela o abalo profundo que o livro de Amaury Ribeiro provocou na intelectualidade. A grande imprensa primeiramente ignorou a obra, depois escalou seus mais importantes colunistas para denegri-lo. E ele continua aparecendo em suas páginas. A privataria tornou-se uma das armas políticas mais poderosas das forças progressistas contra seus adversários, e elas parecem bastante calejadas para não disperdiçar a oportunidade.

Essa nova conjuntura política, criada meio que subitamente pela violência estadual em Pinheirinho, repercussão do livro de Amaury, e gestos de Dilma à esquerda, acabam por dificultar a argumentação dos defensores de uma aliança com Gilberto Kassab. A militância de esquerda encontra-se pintada de guerra, entusiasmada, e não verá sentido em participar de uma campanha ao lado de um adversário.

O raciocínio de Berzoini é correto. De fato, Kassab está usando a possibilidade de aliança com o PT para chantagear o PSDB, e forçá-lo a apoiar seu candidato, Guilherme Afif.  O governador Geraldo Alckmin, inclusive, já começou a piscar, segundo informa o Estadão:

Voltando ao tema Cuba, temos hoje Dora Kramer e Noblat vocalizando a opinião dos barões da mídia.

Interessante ver como ambos tentam desconstruir a tese de Dilma, segundo a qual não se deve imiscuir em assuntos domésticos de outros países (tese que é, aliás, um dos primeiros itens de nossos Princípios Constitucionais), lembrando os constrangimentos que o então presidente Jimmy Carter trouxe ao governo militar quando fez críticas aos direitos humanos no Brasil. É muita cara de pau mostrar os EUA como críticos à ditadura brasileira, quando todos sabemos que eles foram os seus maiores fiadores, e que todo o processo que culminou no golpe de Estado contou com descarada colaboração da CIA e da Casa Branca. Jimmy Carter pode ter feito alguma irrelevante observação crítica sobre a tortura praticada no Brasil, mas não moveu uma palha, em termos concretos, para acabar com ela. Fez apenas um jogo de cena para agradar a esquerda de seu próprio país. O que Carter deveria ter feito, em primeiro lugar, era admitir em público a participação de seu país na preparação e deflagração do golpe.

A postura de Dilma, em verdade, não é tanto uma guinada à esquerda. Representa antes o fim de uma fantasia criada pela mídia, com ajuda de setores (sempre) oportunistas da extrema esquerda, de que Dilma usaria o tema “direitos humanos” para fazer o jogo do imperialismo.  Arrancaram uma declaração anti-tortura de Dilma numa de suas viagens à Washington, e daí construíram um castelo de cartas. O esquema ganhou contornos de verdade absoluta quando o Brasil votou a favor do envio de um relator da ONU ao Irã, no âmbito da Conselho de Direitos Humanos da entidade.

Lembro que eu ponderei que, sempre que o Brasil se negava a condenar o Irã nas votações da Assembléia Geral e do Conselho de Segurança, a representante brasileira explicava que o lugar certo para criticar o país nesse tema era o Conselho dos Direitos Humanos da ONU. O Brasil, no entanto, nunca negou que houvesse violações de direitos humanos no Irã.

Dito e feito, quando houve nova votação na Assembléia Geral da ONU para condenar o país, em dezembro passado, usando o tema DH, o Brasil se manteve coerente e se negou a condenar o país.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Fabio

22 de fevereiro de 2012 às 19h30

Porra porque não pode privatizar aeroporto,não é serviço estrategico o faturamento não existe, prefiro que façam escolas e hospitais.

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Filipe Rodrigues

06 de fevereiro de 2012 às 11h27

E a privatização dos aeroportos?
Isso é Dilma indo para a esquerda?

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