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Os riscos de um super STF

Por Miguel do Rosário

30 de abril de 2013 : 20h17

Montesquieu diz que “várias coisas governam os homens: o clima, a religião, as leis, as máximas do governo, os exemplos das coisas passadas, os costumes, as maneiras”.

Se vivesse hoje, o francês com certeza acrescentaria à lista essa poderosa instituição chamada mídia. Quando os teóricos da democracia escreveram seus clássicos sobre o tema, ela não havia atingido a magnitude atual. Por ser livre das amarras democráticas que regulamentam os outros poderes, todas as forças do arbítrio convergiram para o ambiente “anárquico” da mídia, como quem procura a última praia selvagem.

Em outros países, resolveu-se o problema estrutural da mídia e o desequilíbrio provocado por sua presença ao delicado sistema de pesos e contrapesos do regime democrático através de uma sólida e inteligente regulamentação, criação de respeitados canais públicos independentes (caso da BBC inglesa) e, sobretudo, incentivo à pluralidade.

No Brasil, nada foi feito para regulamentar a mídia, até porque a própria ditadura militar se constituiu no processo, por excelência, de enfraquecimento das instituições democráticas em prol das forças do arbítrio. E também porque, para os interesses imperialistas que sempre agiram no Brasil, a mídia era o único poder que escapava à incômoda influência da soberania popular.

As consequências são parecidas em toda América Latina: após décadas de ditadura, quando as democracias começam, lentamente, a emergir, os países se vêem em face de gigantescos grupos de mídia enraizados profundamente em todos os compartimentos da vida social.

É fundamental a existência de uma imprensa forte e independente. Mas ela também deve ser plural e democrática. Não é o caso do Brasil, onde não há imprensa forte nos municípios e nos estados, além daquelas empresas que redistribuem o sinal da Globo, geralmente dominadas por famílias de políticos. A independência, por sua vez, sempre foi tremendamente relativa num país onde grandes agências norte-americanas sempre ditaram as regras no mercado de publicidade. Quanto à pluralidade, bem, aí temos um quadro de desolação total.

A esse quadro se soma agora a um processo de crescente empoderamento do Supremo Tribunal Federal (STF). Em meio aos debates que temos feito sobre o tema, surgem alguns articulistas lembrando que, historicamente, não é raro que o poder judiciário avance alguns sinais.

O próprio Alexander Hamilton, em The Federalist, grande defensor da instituição da suprema corte e do judiciário, admite que há momentos em que este possa se sentir tentado a usurpar o poder das outras instituições. Mas Hamilton não demonstra receio do judiciário, ao lembrar que ele, de longe, é o poder mais fraco dentre os três da república. O Executivo tem a força física; o Legislativo controla o orçamento e os impostos; à suprema corte caberia apenas vigiar a Constituição.

Entretanto, receio que a tranquilidade de Hamilton seria bastante abalada se testemunhasse o que temos visto na América Latina, sobretudo para o que se deu em Honduras, quando a sua corte suprema ordenou a prisão sumária do presidente da república e sua deportação imediata para outro país. Ou quando presenciasse o que vimos no Brasil durante o julgamento da Ação Penal 470: um STF rasgando os princípios basilares do direito moderno, como a presunção da inocência e a necessidade de provas, no afã de satisfazer a sanha de vendeta de alguns setores influentes da sociedade.

Os superpoderes do nosso STF tem várias raízes: para começar, talvez encontremos inclusive uma origem cultural, na supervalorização da figura do “doutor”. Desde o início das práticas democráticas no país, antes mesmo da república, as elites brasileiras procuravam manter sua hegemonia política sobre a população através da instalação de uma espécie de patriciado acadêmico. Somente os “sábios” formados nas raras e fechadas universidades públicas teriam o direito de seguir carreira política.

Essa visão perdura até hoje. Uma vez, uma inteligente e culta conhecida me perguntou como era possível aos parlamentares elaborarem leis sem formação acadêmica jurídica. Não foi um preconceito consciente, mas por desconhecer que o nosso parlamento abriga alguns dos maiores especialistas em leis no país, que prestam assessoria à Câmara e ao Senado. Aliás, por isso existe a Comissão de Constituição e Justiça, para que os parlamentares possam debater, juntamente com renomados juristas, todas as questões referentes à Constituição: seus vícios, brechas, excessos, ausências, virtudes e possibilidades de aprimoramento.

Então uma situação extremamente perigosa se instalou. A fratura social produziu, nas camadas superiores da sociedade, um medo patológico do povo, que se traduz no ódio ao parlamento. Em seus livros, Wanderley Guilherme dos Santos insiste sempre na questão do aumento exponencial da participação popular no total de votantes. Este fator corresponde não apenas ao fortalecimento do congresso enquanto representante dos variados interesses econômicos e sociais, mas também no surgimento, no seio do parlamento, de todos os vícios da massa. O Congresso de repente passa a espelhar também o conservadorismo latente do povo brasileiro.

É aí que vemos emergir, na onda de repúdio à PEC 33, que impõe limites aos superpoderes do STF, uma curiosa aliança entre alguns setores progressistas e a franja mais odiosamente reacionária da sociede. Entendo perfeitamente os setores que vêem o STF como um órgão aliado das minorias e dos direitos humanos. Onde mais poderíamos ter apoio ao casamento gay senão no STF? Onde poderíamos aprovar a legalização da maconha? Onde mais poderíamos vencer o obscurantismo religioso e aprovar pesquisas com células-tronco?

Nessas coisas, testemunhamos uma comovente aliança supra-ideológica das elites brasileiras. O conservadorismo do andar de cima é liberal nos costumes. Seus filhos ou netos fumam um baseado. Eles mesmos fumam um. Alguns são gays ou tem amigos homossexuais. A alta cultura a que tiveram acesso abriu suas mentes quando se trata de costumes. Isso é ótimo.

Nesse sentido, é positivo que tenhamos um STF contramajoritário, que espelhe não a vontade da maioria, mas a aspiração das camadas mais esclarecidas.

Só que tudo tem um preço. Este STF paternalista, nos protegendo do conservadorismo e ignorância da massa ignara, embriaga-se tanto com as mesuras que recebe na alta sociedade que de repente passa a ver a si mesmo como a força mais importante da república. A principal característica do poder, lembra Hamilton, é o “encrouchment”: ele tende a crescer indefinidamente, sempre que se não lhe antepõe freios.

Por isso mesmo não deixa de ser interessante que as forças que agora questionam os superpoderes do judiciário também conformam uma mistura curiosa. De um lado, setores reacionários, ligados à religião, descobriram no STF um poder contrário à força que vem ganhando junto ao povo, na medida em que aumentam sua bancada nos parlamentos. De outro, setores da classe trabalhadora, que vêem na suprema corte um aliado da mídia patronal e um inimigo dos partidos que os representam. Por fim, intelectuais e blogueiros que, estarrecidos com a atuação ultrapartidária do STF no julgamento do mensalão, temem a emergência, aqui em nossa cordata terra do sabiá, de uma força golpista. Teme-se, como bem afirmou o deputado Nazareno Fonteles, que o STF se torne não apenas o “tapetão dos derrotados”, mas um instrumento de força para burlar a soberania popular.

É preciso admitir, todavia, que por trás desse problema, voltamos como sempre à nossa mídia, inchada, oligopolizada, organizada na forma de um cartel ideológico, que viu no STF uma instância vulnerável à campanhas de pressão, através da vaidade, ou ameaças e chantagens. Ancelmo Gois quase todo dia divulga notinhas mencionando, por exemplo, que Joaquim Barbosa foi “aplaudido de pé” em determinada tertúlia cultural da classe média. Afinal, é sempre mais fácil fazer a cabeça de cinco ou seis ministros que transitam no estreito mundinho da elite, e são carentes, como todo ser humano, de prestígio junto ao segmento a que pertencem, do que influenciar 513 deputados ou 51 senadores, que precisam prestar contas antes a seus eleitores do que aos assinantes do jornal O Globo.

Não podemos esquecer que o casamento gay foi aprovado há pouco na França por seu parlamento, e a maconha foi liberada em mais uma porção de estados norte-americanos em plebiscito popular. Mudanças chanceladas pelo sufrágio revelam maturidade democrática e são a maneira ideal de evoluir.

O Brasil terá de encontrar uma solução inteligente e democrática para contornar esses dilemas. É extremamente saudável, de qualquer forma, que este debate esteja acontecendo agora, porque em 2014 não haverá essa oportunidade. Precisamos de um STF forte, independente, progressista e contramajoritário. Mas precisamos, mais ainda, de um STF que respeite a soberania popular, o parlamento, não entre no joguinho partidário, e resista bravamente às pressões obscuras e astutas da nossa mídia.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Messias Franca de Macedo

01 de maio de 2013 às 22h10

… [Assassino de reputações] Um dos escroques da ‘veja’ ousa pressionar um ministro do STF! [Mais] Essa insolência desse pervertido ficará impune?!…Com a palavra o *STF (sic) ENTENDA

A ESCOLHA DE TEORI
No julgamento dos embargos apresentados por advogados dos mensaleiros, o ministro Teori Zavascki terá de escolher entre os defensores da democracia e os que tentam golpear o estado de direito.

Por A.N. do indecoroso terrorista/golpista folhetim cuja alcunha é ‘veja’!

IMPORTANTE: a locução ‘a escolha’ [do ministro, a nomeação] carrega uma sub-reptícia suspeição em relação à integridade moral e intelectual do magistrado Teori Zavascki… Uma atitude torpe e canalha de tentar “colocar uma faca no pescoço” de um juiz de uma Suprema Corte! Se esse *STF se desse ao respeito, processaria esse cretino – e a publicação que lhe dá guarida a $oldo!…

*”supremoTF”: aspas monstruosas e letras submicroscópicas! – à exceção do ínclito, catedrático e impávido ministro doutor Ricardo Lewandovski

Lá isso é oposição, sô?!…

… É a oposição [ao Brasil] ‘toMATADA’!…

República de ‘Nois’ Bananas
Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo

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odorico nilo

01 de maio de 2013 às 11h12

Resposta à questão da solução inteligente a ser encontrada: escolha e nomeação de juízes de carreira da primeira instância com longa vivência no interior (“juiz se forja no interior”). Atualmente, as nomeações têm recaído sobre “carreiristas”… Nenhum juiz experiente do interior teria sido levado à jurisdicialização da política.

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Messias Franca de Macedo

01 de maio de 2013 às 00h23

EMPAREDADO, GILMAR SUGERE PRISÃO DE RÉUS DA AP 470

Depois de ser resgatado do isolamento por um grupo de senadores liderado por Pedro Taques (PDT/MT), que sugeriu o enquadramento do Poder Legislativo pelo Judiciário, Gilmar Mendes atribuiu a crise institucional criada por ele próprio a uma vingança dos condenados no chamado mensalão; “estamos convencidos de que temos de encerrar o capítulo mensalão o mais rápido possível”, disse o ministro.

FONTE: mídia nativa!

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[Após ler o enunciado acima] LÁ VEM, NOVAMENTE, O MATUTO COM ‘O DIÁRIO DO MENTIRÃO’ NAS MÃOS!

[Canalha]

Leitor(a), desculpe: o adjetivo grafado entre colchetes significa “um não-deliberado vazamento” de uma escuta telefônica captada em uma das conversas do [inédito e pitoresco! ‘grampo sem áudio’; os interlocutores: os impolutos (sic) e ilibados (idem sic) magistrados Gilmar Mendes do *”supremoTF” e ‘DEMóstenes Cachoeira Torres’!…
*”supremoTF”: aspas monstruosas e letras submicroscópicas! – à exceção do ínclito, catedrático e impávido ministro doutor Ricardo Lewandovski

Lá isto é oposição, sô?!…

… É a oposição [ao Brasil] ‘toMATADA’!…

República de ‘Nois’ Bananas
Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo

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